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Crédito: Reprodução da Internet
Nada suscita tanta curiosidade – e tanta confusão – quanto o dogma da infalibilidade papal. Muitos pensam que o Papa nunca erra ou que cada palavra sua seja decretada como verdade absoluta para todos os católicos. Mas será mesmo assim? A resposta, para quem quer ser fiel à doutrina católica, é: não, a infalibilidade papal não é absoluta no sentido vulgar do termo.
A ideia de uma autoridade suprema na Igreja não é invenção medieval. Vem das próprias palavras de Cristo a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). A Tradição Patrística sempre reconheceu em Pedro – e em seus sucessores – uma função única de confirmar os irmãos na fé (cf. Lc 22,32).
Santos Padres como Santo Irineu de Lião e Santo Agostinho mencionam a primazia do Bispo de Roma. São Leão Magno († 461), no famoso Tomo a Flaviano, exemplifica o exercício dessa autoridade doutrinal, resolvendo uma crise teológica no Oriente.
Contudo, o conceito técnico de “infalibilidade” só se consolidou séculos depois, quando a Igreja precisou definir até onde ia a autoridade doutrinária do Papa.
Foi no Concílio Vaticano I (1869-1870), convocado pelo Papa Pio IX, que a infalibilidade papal foi solenemente definida. No documento Pastor Aeternus, lê-se:
“O Romano Pontífice, quando fala ex cathedra, isto é, quando, exercendo o seu ofício de Pastor e Doutor de todos os cristãos, define doutrina acerca da fé ou da moral, deve ser considerado infalível.” (Pastor Aeternus, cap. 4)
Em outras palavras, não se trata de uma “inspiração divina” constante em tudo o que o Papa diz, mas de uma assistência especial do Espírito Santo que impede o erro quando o Papa:
Portanto, a infalibilidade não é um poder mágico ou absoluto, mas um carisma delimitado.
Curiosamente, apesar do burburinho que o tema gera, há pouquíssimos casos em que se reconhece que um Papa falou infalivelmente ex cathedra. Os dois exemplos mais claros são:
Fora isso, o Papa costuma ensinar em outros graus de magistério (ordinário ou autêntico), que não são necessariamente infalíveis, mas ainda exigem respeito e assentimento religioso.
Fora das definições ex cathedra, o Papa não goza de infalibilidade. Documentos como encíclicas, homilias, entrevistas, cartas apostólicas ou discursos não são infalíveis por si mesmos. São expressões do magistério autêntico, que possuem autoridade e merecem o chamado “assentimento religioso da vontade e da inteligência” (cf. Lumen Gentium, 25), mas não são protegidos pela infalibilidade absoluta.
A História mostra que Papas podem cometer equívocos disciplinares, administrativos ou até doutrinários se falarem como teólogos privados ou fora das condições do dogma. O exemplo clássico é o Papa João XXII († 1334), que pregou publicamente uma opinião errada sobre a visão beatífica das almas antes do juízo final. Foi corrigido antes de definir a matéria oficialmente.
Outro erro comum é confundir infalibilidade com impecabilidade. O Papa não é impecável — ou seja, não está livre do pecado pessoal. O dogma só afirma que, em matéria de fé e moral, Deus o preserva do erro quando fala ex cathedra. Sua santidade pessoal é outra questão.
Há dois grandes modos de ensino na Igreja:
Portanto, não se deve pensar que só existem dois extremos: “infalível ex cathedra” ou “opinião pessoal do Papa”. Existe um vasto território intermediário de ensino autêntico, digno de respeito e que forma a consciência dos fiéis.
Alguns acusam o dogma de cercear a liberdade de pensamento. Mas, para a fé católica, a infalibilidade é, antes, uma garantia de liberdade: assegura que a Igreja nunca ensinará erro em matéria essencial de fé ou moral. A liberdade cristã não é fazer ou crer qualquer coisa, mas abraçar a verdade que liberta (cf. Jo 8,32).
Como ensina o Catecismo:
“O Romano Pontífice, Cabeça do Colégio Episcopal, goza desta infalibilidade em virtude de seu cargo, quando, como supremo pastor e mestre de todos os fiéis, proclama, por um ato definitivo, um ponto de doutrina relativo à fé ou à moral. (…) A assistência divina é-lhe prometida nesta função.” (Catecismo da Igreja Católica, n. 891)
Dizer que a infalibilidade papal é absoluta seria heresia. O Papa está vinculado:
Ele não pode inventar novos dogmas ou revogar doutrinas definidas. São Vicente de Lérins († c. 445) definiu brilhantemente a regra do desenvolvimento legítimo da doutrina: “quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est” — o que foi crido em toda parte, sempre e por todos. Isso mantém a fé católica fiel às origens.
Jesus sabia que sua Igreja precisaria de uma rocha firme. O dogma da infalibilidade não é um capricho humano ou sede de poder, mas instrumento de caridade. O Espírito Santo preserva o Papa do erro quando está em jogo a verdade da fé. Isso evita o caos doutrinário e protege os fiéis.
São João Paulo II, na Constituição Fidei Depositum (1992), reforçou que a função do Magistério é guardar fielmente o depósito da fé, não inventar doutrinas:
“O Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a serviço dela, ensinando apenas o que foi transmitido.”
A infalibilidade papal, longe de ser poder absoluto, é baluarte da verdade e da unidade na Igreja. É limitada, condicionada e profundamente enraizada na Tradição. Não é uma “licença para mandar”, mas um serviço que garante que, sobre a rocha de Pedro, jamais prevalecerão as portas do inferno (cf. Mt 16,18).
Para o católico, saber isso não significa viver oprimido pelo medo de errar, mas ter confiança de que, em matéria essencial, a Igreja jamais o conduzirá ao engano. É segurança, não tirania.
Em suma, a infalibilidade papal não é absoluta. Mas é absoluta a confiança que podemos ter de que, através dela, Cristo guarda a sua Igreja na verdade. E isso, convenhamos, é extraordinário.