USD | R$5,2004 |
|---|
Crédito: Reprodução da Internet
Falar de “quando a Bíblia começou a ser escrita” exige entender antes o povo que a recebeu. A Bíblia não desceu do céu pronta e encadernada; ela brotou da experiência viva de um povo, o Israel bíblico, que viveu intensamente sua relação com Deus. A fé de Israel nasceu muito antes de existir qualquer texto escrito. Antes da pena, houve a palavra viva — histórias contadas à beira do fogo, tradições transmitidas de pai para filho, cânticos, leis e orações repetidas geração após geração.
Do ponto de vista histórico, os primeiros textos que hoje integram o Antigo Testamento (ou Antiga Aliança) começaram a ser escritos aproximadamente entre os séculos XIII e XII a.C., na época posterior à saída do Egito. Contudo, muitos estudiosos católicos, como os que contribuíram para a Comissão Bíblica Pontifícia, enfatizam que parte desse material tem raízes muito mais antigas na tradição oral. Foi apenas por volta do período do rei Davi e sobretudo de Salomão (séculos X-IX a.C.) que se consolidaram registros escritos mais organizados — tanto administrativos quanto religiosos — na corte real.
Livros como Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio (o chamado Pentateuco) passaram por séculos de composição, edição e organização. O processo foi lento, porque envolvia não apenas escrever fatos históricos, mas interpretá-los à luz da fé. Para o catolicismo, isto é fundamental: a Bíblia não é mero documento histórico, mas Palavra de Deus confiada a homens inspirados (Dei Verbum, n. 11).
O ponto de virada foi o Exílio Babilônico (586-538 a.C.). Quando o Templo foi destruído, o povo de Israel viu desmoronar o centro do culto. Longe da Terra Prometida, perceberam a urgência de preservar por escrito sua fé, para não perdê-la na diáspora. Muitos textos foram então revisados, unificados ou compostos do zero. É desse período que se intensifica a redação dos livros proféticos e históricos.
É também no Exílio e no pós-Exílio que se organiza o conceito de “Escrituras Sagradas” — não apenas textos religiosos, mas livros tidos como norma de fé e vida. Já havia coleções de escritos reconhecidos como inspirados, mas ainda não havia um cânon fechado.
Por volta do século III a.C., surge em Alexandria, no Egito, a Septuaginta, tradução grega das Escrituras hebraicas. Esse evento foi monumental para a história da Bíblia Católica. A comunidade judaica da diáspora não dominava mais o hebraico; o grego era a língua universal. A tradução permitiu que a Palavra de Deus alcançasse judeus e, mais tarde, cristãos não judeus.
A Septuaginta incluía livros que hoje conhecemos como deuterocanônicos (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 e 2 Macabeus, partes de Ester e Daniel). Esses livros estavam no cânon das primeiras comunidades cristãs. A Igreja Católica, em Concílios como o de Hipona (393) e Cartago (397), reafirmou sua inspiração, decisão ratificada solenemente no Concílio de Trento (1546), após a contestação protestante.
Aqui, convém ressaltar: o cânon católico do Antigo Testamento não é maior “por capricho”, mas porque a Igreja manteve os livros presentes na tradição grega usada pelos Apóstolos e pela Igreja primitiva. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica (n. 120), é a Igreja, pela autoridade recebida de Cristo, quem reconhece os livros inspirados.
No Novo Testamento, a história se repete: antes de haver textos, houve vida, testemunho e tradição oral. Jesus não escreveu nada. Ele ensinou, viveu, morreu e ressuscitou. Os Apóstolos saíram pelo mundo pregando de cidade em cidade. Somente quando viram o risco de perderem testemunhas oculares — perseguições, martírios, distância — começaram a escrever.
Os estudiosos católicos situam a redação dos primeiros escritos do Novo Testamento entre os anos 50 e 100 d.C. Primeiros vieram as cartas de São Paulo, escritas entre 50 e 65 d.C. Depois, progressivamente, os Evangelhos. Marcos provavelmente foi o primeiro (c. 65-70 d.C.), seguido por Mateus e Lucas (c. 70-85 d.C.) e, por fim, João (c. 90-100 d.C.). O Apocalipse data também do final do primeiro século.
A formação do cânon do Novo Testamento não foi instantânea. Diferentes igrejas locais usavam listas variadas de textos. Mas, desde o século II, havia um núcleo consensual: os quatro Evangelhos, as cartas paulinas, Atos dos Apóstolos e outras cartas apostólicas. Concílios regionais (Hipona, Cartago) e, mais tarde, o Concílio de Trento confirmaram a lista definitiva dos 27 livros.
Um ponto crucial para a fé católica — e que distingue a Igreja Católica da interpretação protestante — é que a Bíblia não é autossuficiente no sentido de ser sua própria intérprete. A Bíblia nasceu no seio da Tradição viva da Igreja. Como diz São João Paulo II:
“A Igreja não vive da Escritura isolada, mas da Escritura lida e interpretada na fé, transmitida desde os Apóstolos.” (Orientale Lumen, n. 9)
A Constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, deixa isso claríssimo (n. 10): Escritura, Tradição e Magistério formam um só depósito sagrado. Sem a Igreja, não saberíamos sequer quais livros pertencem à Bíblia.
Para nós católicos, a Bíblia não é apenas um manual doutrinário ou livro de consulta. É alimento da alma, espada contra o pecado, luz para os caminhos. É a voz de Deus que fala hoje. Por isso, a Igreja insiste em sua leitura, mas dentro da fé católica — isto é, em comunhão com a Tradição e sob o Magistério.
O Catecismo (n. 133) diz:
“A Igreja recomenda insistentemente a leitura assídua da Sagrada Escritura para que se realize aquele trato íntimo com ela, pois ‘a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo’ (São Jerônimo).”
Leitura espiritual (lectio divina), estudo com bons comentários católicos e participação na liturgia — onde a Palavra é proclamada solenemente — são meios privilegiados de encontrar Cristo nas Escrituras.
Tudo isso nos mostra que a Bíblia Católica não é apenas um livro antigo. É uma herança viva. Foi escrita em tempos diferentes, por autores distintos, mas sob uma única inspiração divina. Nasceu da fé de um povo, cresceu no coração da Igreja e hoje chega até nós não como relíquia, mas como Palavra viva, eficaz e sempre atual.
Se hoje podemos abrir a Bíblia e encontrar ali a voz de Deus, é porque a Igreja, fiel guardiã da Tradição, protegeu, discerniu e transmitiu esses livros ao longo dos séculos. Ler a Bíblia é, para o católico, não só estudar história, mas encontrar o próprio Cristo — a Palavra feita carne.
Por isso, cada página que lemos deve ser acompanhada do mesmo espírito com que a Igreja as escreveu, guardou e canonizou: humildade, fé e amor à Verdade. Pois, como ensinava São Jerônimo: “Desconhecer as Escrituras é desconhecer a Cristo.”