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Crédito: Oração e Fé
“Quem vos ouve, a Mim ouve; quem vos rejeita, a Mim rejeita.” (Lc 10,16)
A Bíblia é a Palavra de Deus. Mas uma pergunta incômoda, que raramente é feita fora dos círculos católicos, é: quem decidiu quais livros fazem parte dessa Bíblia? A resposta é histórica, teológica e desconcertante para muitos: foi a Igreja Católica Apostólica Romana.
Se hoje protestantes, católicos e até secularistas citam capítulos e versículos com autoridade, é porque a Igreja, nos séculos IV e V, definiu o cânon das Escrituras. Sem essa definição, o cristianismo teria se fragmentado em dezenas de “bíblicas” diferentes já nos primeiros séculos.
Jesus não deixou nenhum livro escrito. Ele fundou uma Igreja (Mt 16,18) e confiou a ela o depósito da fé. O próprio São Paulo afirma que a fé vem pelo ouvir (Rm 10,17) e que a Igreja é a coluna e sustentáculo da verdade (1Tm 3,15). Portanto, a Bíblia nasce dentro da Tradição viva da Igreja, como fruto da sua maternidade espiritual e magistério infalível.
Santo Agostinho é categórico:
“Eu não creria no Evangelho, se não me movesse a isso a autoridade da Igreja Católica.”
— Contra a Carta de Maniqueu, I, 6, 7.
Esse testemunho é vital: a fé na autoridade das Escrituras depende da fé na autoridade da Igreja que as canonizou.
No final do século IV, diante da proliferação de escritos apócrifos e da confusão doutrinária, a Igreja precisou definir oficialmente quais livros eram divinamente inspirados. Foi nesse contexto que surgiram os sínodos de Hipona (393 d.C.) e de Cartago (397 e 419 d.C.), ambos na atual Argélia, sob forte influência de Santo Agostinho.
Esses sínodos afirmaram como canônicos os 46 livros do Antigo Testamento (incluindo os deuterocanônicos) e os 27 do Novo Testamento, exatamente como aparecem hoje na Bíblia Católica.
Mais tarde, o Concílio Ecumênico de Florença (1442) reafirmou esse cânon, e o Concílio de Trento (1546), em resposta à Reforma Protestante, o definiu infalivelmente como dogma, encerrando qualquer dúvida:
“Se alguém não aceitar como sagrados e canônicos os livros inteiros, com todas as suas partes… e não os reconhecer como inspirados pelo Espírito Santo, como foram sempre recebidos pela Igreja, seja anátema.”
— Concílio de Trento, Sessão IV, Decreto sobre a Edição e Uso dos Livros Sagrados.
É um paradoxo notável: os reformadores protestantes só conheceram a Bíblia porque a Igreja Católica a preservou, transmitiu, copiou e canonizou. Lutero, Calvino, Zwinglio — todos receberam as Escrituras da Igreja que posteriormente rejeitaram.
Contudo, Lutero removeu sete livros do Antigo Testamento, os chamados deuterocanônicos (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e 1–2 Macabeus), além de partes de Daniel e Ester. Por quê? Porque não concordavam com sua teologia. A autoridade da Igreja, que os havia declarado inspirados por séculos, foi substituída pela opinião pessoal de um monge rebelde.
Mais irônico ainda: Lutero também duvidou da inspiração de Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse, chamando a Carta de Tiago de “epístola de palha”. Mas acabou mantendo esses livros no cânon, pressionado pela tradição eclesial e pelo bom senso histórico.
Ou seja: os protestantes usam uma Bíblia mutilada, mas que só possuem graças à Igreja Católica. É como criticar a mãe que te deu a vida enquanto se alimenta do leite que ela forneceu.
Além dos concílios já mencionados, diversos Padres da Igreja e doutores reafirmaram que o cânon bíblico é fruto do discernimento e da autoridade eclesial:
Importante lembrar: o Novo Testamento foi escrito décadas após a Ascensão de Cristo. Por gerações, a fé cristã foi vivida, transmitida e guardada oralmente. Foi a Igreja, por meio do Magistério, que discerniu o que era fiel à doutrina dos Apóstolos. As primeiras linhas do Novo Testamento começaram a ser escritas apenas 30 anos após a ascenção de Jes
Papa Bento XVI, em sua exortação apostólica Verbum Domini, diz:
“É fundamental reconhecer que a Palavra de Deus, embora preceda e exceda a Sagrada Escritura, está estreitamente unida a ela.”
— Verbum Domini, 17
A Escritura, portanto, não é a única fonte da Revelação, mas uma parte dela — subordinada à Tradição e ao Magistério, como o próprio Catecismo da Igreja Católica ensina (cf. CIC 80–82).
A ideia de “somente a Bíblia” (sola Scriptura) não se sustenta nem histórica nem teologicamente. Sem a Igreja, não teríamos nem Bíblia, nem doutrina clara, nem certeza do que é inspirado.
É um fato inegável: a Bíblia é um livro católico. Foi a Igreja quem a escreveu, preservou, discerniu e canonizou. Qualquer leitura dela, separada da Tradição viva que a gerou, é amputada — e, cedo ou tarde, leva à confusão doutrinária.
Quem ama a Escritura deve amar a Mãe que a gestou.