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Crédito: Vatican Media
A manhã de 7 de setembro de 2025 ficará marcada na memória da Igreja. Na Praça de São Pedro, em Roma, sob a presidência do Papa Leão XIV, dois jovens leigos foram elevados aos altares: Carlo Acutis, adolescente do século XXI que uniu a fé e a tecnologia, e Pier Giorgio Frassati, universitário italiano do início do século XX que fez da caridade um estilo de vida. A cerimônia, que reuniu dezenas de milhares de fiéis, mostrou que a santidade continua a florescer em todas as épocas, sempre atual e fiel ao Evangelho.
A canonização, longe de ser apenas um momento de emoção coletiva, é um ato solene e infalível do Magistério. Quando o Papa proclama oficialmente um santo, a Igreja universal pode venerá-lo sem risco de erro, porque ali se reconhece a ação da graça de Deus. Como recorda a constituição dogmática Lumen gentium, todos são chamados à santidade, mas alguns, pela evidência de suas virtudes heroicas e pelos sinais de Deus (os milagres), são propostos como modelos. A missa de canonização, portanto, é ao mesmo tempo um ato litúrgico e um gesto magisterial, testemunhando a continuidade da fé católica.
Desde as primeiras horas da manhã, a Praça de São Pedro se encheu de jovens peregrinos, famílias e comunidades paroquiais. Grandes painéis com as imagens de Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati foram pendurados na fachada da Basílica Vaticana, lembrando a tradição de todas as canonizações. Coros litúrgicos, acompanhados por orquestra, executaram cânticos clássicos e contemporâneos, numa mistura que refletia os dois universos dos novos santos: a tradição e o presente. O clima não era apenas de festa, mas também de recolhimento: todos sabiam que estavam diante de um gesto solene da Igreja.
No momento central da celebração, o Prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos apresentou formalmente ao Papa os pedidos de canonização, relatando brevemente a vida, as virtudes e os milagres atribuídos à intercessão de cada um. Seguiu-se a fórmula tradicional, pronunciada em latim pelo Santo Padre, declarando-os inscritos no catálogo dos santos e estabelecendo a sua memória litúrgica para toda a Igreja. Esse instante foi marcado pelo repicar dos sinos da Basílica, pelos aplausos dos fiéis e pelo canto do Glória, expressão litúrgica da alegria celeste.
Na homilia, o Papa destacou que tanto Carlo quanto Pier Giorgio souberam fazer de suas vidas uma “obra-prima da graça”. Recordou que a maior tentação da juventude é gastar a vida em projetos vazios, longe de Deus, enquanto esses dois santos mostram que a verdadeira felicidade nasce da entrega. Carlo, apaixonado pela Eucaristia, lembrava que “a Eucaristia é a estrada para o céu”. Pier Giorgio, com sua vida de oração e compromisso social, resumia sua espiritualidade na expressão “verso l’alto”, sempre para o alto. Ambos são testemunhas de que santidade e juventude não se excluem, mas se iluminam mutuamente.
Carlo não é santo por ter usado computadores, mas por ter usado o mundo digital como instrumento de apostolado. Ainda adolescente, dedicou-se a catalogar milagres eucarísticos em uma exposição que hoje circula em diversos países. A sua vida breve foi marcada por intensa piedade eucarística e mariana, fidelidade à confissão frequente e disponibilidade para ajudar os pobres. Sua canonização recorda a exortação apostólica Christus vivit, de Francisco, que insiste em apresentar aos jovens modelos próximos, capazes de falar a sua linguagem. Carlo mostra que é possível viver a pureza, a fé e a caridade no coração do mundo moderno.
Frassati, por sua vez, representa um tipo de santidade que não se esconde. Filho de família abastada, escolheu gastar sua juventude ao lado dos pobres, participando de conferências vicentinas e engajando-se em causas sociais. Amava os esportes, especialmente o alpinismo, e fazia de cada escalada uma metáfora espiritual: subir para o alto, aproximando-se de Deus. Beatificado por São João Paulo II, foi chamado de “homem das Bem-aventuranças”. A sua canonização atualiza a doutrina social da Igreja, mostrando que a fé não é alienação, mas compromisso concreto com a justiça e a dignidade humana.
A decisão de canonizar Carlo e Pier Giorgio juntos não foi acidental. Há uma complementaridade evidente entre os dois: Carlo, que evangelizou através da internet, e Pier Giorgio, que evangelizou nas periferias concretas; Carlo, adolescente, e Pier Giorgio, jovem universitário; um representando a juventude digital, outro a juventude social. O Magistério parece querer propor, com esse gesto, uma visão integrada: santidade vivida tanto no contato com o próximo quanto no testemunho cultural, tanto no espaço virtual quanto na rua. Assim, a Igreja mostra que não há fronteiras para a graça.
O Concílio Vaticano II, em Lumen gentium, deixou claro que todos os fiéis, independentemente do estado de vida, são chamados à perfeição da caridade. A canonização de dois leigos jovens reforça essa dimensão. É também um sinal para as famílias e comunidades: a santidade não é privilégio de monges ou sacerdotes, mas caminho aberto a todos, inclusive aos adolescentes e universitários. A Igreja, com esse gesto, educa o povo de Deus a ver a santidade no cotidiano e a não subestimar os sinais da graça na vida comum.
É verdade que a rapidez do processo de Carlo gerou debates. Alguns temem que a canonização de jovens próximos ao nosso tempo seja precipitada, respondendo mais a expectativas midiáticas do que ao discernimento prudente da Igreja. Contudo, a tradição lembra que a canonização é ato infalível, garantido pela assistência do Espírito Santo. Cabe agora aos pastores e catequistas ajudar os fiéis a compreender que a santidade de Carlo e Pier Giorgio não é marketing, mas fruto de virtudes heroicas reconhecidas. O desafio pastoral será apresentar esses santos de modo autêntico, sem caricaturas.
O impacto imediato da canonização já se sente nas dioceses e movimentos juvenis. Muitos catequistas e padres têm em mãos novos modelos para propor às crianças e adolescentes. A devoção a Carlo pode inspirar o uso saudável da tecnologia e da internet; a devoção a Pier Giorgio pode suscitar maior engajamento social e missionário. Ambos, no entanto, apontam para o centro: a amizade com Cristo, vivida na oração e nos sacramentos. Assim, suas vidas concretizam a grande verdade do Catecismo: “A santidade da Igreja é a fonte secreta e a medida infalível da sua atividade missionária” (CIC, § 828).
A canonização de Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati não foi apenas uma festa de jovens no Vaticano. Foi a reafirmação de que a Igreja não envelhece, porque a graça de Deus renova em cada tempo testemunhas do Evangelho. Carlo e Pier Giorgio são santos diferentes, mas convergem no essencial: a fidelidade a Cristo. Eles confirmam que a santidade é sempre jovem, e que o Espírito continua a suscitar exemplos vivos para guiar a humanidade rumo ao céu.