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Crédito: Reprodução da Internet
Hoje faz uma semana da eleição do Papa Leão XIV. Desde então, a Igreja exulta com o novo sucessor de Pedro e espera ansiosamente pelos feitos de seu pontificado. Porém, mais do que simplesmente um “homem que foi eleito para ser Papa”, Leão XIV é o vigário de Cristo na terra e dá continuidade à missão que Jesus deixou a Pedro, assim como a todos os seus sucessores. A sucessão apostólica e a autoridade do Papa estão entre as colunas mestras que sustentam a estrutura da Igreja Católica. Longe de serem invenções humanas ou convenções eclesiásticas tardias, ambas nascem do próprio desígnio divino revelado em Cristo e são solidificadas pelo testemunho ininterrupto da Tradição, do Magistério e da história da Igreja. Este texto busca aprofundar cada aspecto desses temas, desde suas raízes bíblicas e judaicas até sua aplicação atual, passando por documentos magisteriais e testemunhos patrísticos.
A figura do Papa, enquanto Sucessor de Pedro, possui raízes que remontam ao Antigo Testamento. No Reino de Davi, o rei estabelecia um “mordomo” ou “chaveiro”, cuja função era governar em nome do rei, especialmente em sua ausência. Essa figura é descrita em Isaías 22,20-22, quando Deus diz a respeito de Eliacim:
“Porei sobre os seus ombros a chave da casa de Davi; ele abrirá e ninguém fechará, ele fechará e ninguém abrirá.”
Este texto é um antecedente claro do que Cristo realiza ao instituir Pedro como líder da Igreja:
“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja (…). Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,18-19).
Assim como o mordomo do rei davídico detinha autoridade real vicária, Pedro é constituído por Cristo como fundamento visível da unidade e da autoridade da Igreja. A “chave” é símbolo de governo, continuidade e sucessão.
Além disso, a própria tradição rabínica reconhecia a sucessão dos mestres de Israel, os chamados z’qenim (anciãos), e depois os sanhadrim (conselhos de anciãos), que guardavam a Torá e ensinavam com autoridade. A autoridade era transmitida por imposição de mãos (semikhá), prática que os apóstolos herdaram ao ordenar presbíteros e bispos (At 6,6; 1Tm 4,14; 2Tm 1,6).
Jesus não deixou a Sua Igreja como uma entidade difusa, mas a fundou sobre uma rocha visível: Pedro, a quem deu um novo nome (Jo 1,42), gesto típico de Deus ao estabelecer uma nova missão (como em Abrão-Abraão). O episódio de Cesareia de Filipe (Mt 16,13-20) é o ponto culminante desta escolha.
Este primado é confirmado após a ressurreição, quando Cristo diz três vezes a Pedro:
“Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15-17).
Pedro é, portanto, estabelecido como pastor supremo, com responsabilidade sobre todos: não apenas sobre as ovelhas (fiéis), mas também sobre os outros pastores (apóstolos).
A sucessão apostólica é o princípio pelo qual a missão e a autoridade conferidas por Cristo aos apóstolos são transmitidas, por imposição das mãos e oração, aos seus sucessores, os bispos. Isso garante que a Igreja permaneça na verdade, fiel à doutrina dos apóstolos (At 2,42).
Santo Ireneu de Lião, já no século II, escreve na obra Adversus Haereses (c. 180 d.C.):
“Com efeito, é à Igreja de Roma que, por causa de sua origem mais excelente, é necessário que toda a Igreja — isto é, os fiéis de toda parte — esteja de acordo, porque nela sempre foi guardada a tradição que vem dos Apóstolos.” (III, 3,2)
Ireneu ainda fornece a lista dos bispos de Roma desde Pedro até sua época, o que comprova a consciência eclesial da sucessão legítima.
A Traditio Apostolica de Hipólito de Roma (c. 215 d.C.) descreve a ordenação episcopal com palavras semelhantes às usadas ainda hoje, mostrando a continuidade do rito e da doutrina.
O Concílio Vaticano I (1869–1870), na constituição dogmática Pastor Aeternus, definiu solenemente que:
“O Romano Pontífice é o sucessor do bem-aventurado Pedro, príncipe dos apóstolos, verdadeiro vigário de Cristo, cabeça de toda a Igreja, pai e doutor de todos os cristãos; e que a ele, na pessoa do bem-aventurado Pedro, foi confiado, por nosso Senhor Jesus Cristo, o pleno poder de apascentar, reger e governar a Igreja universal.” (Pastor Aeternus, cap. 1)
O Concílio também definiu o dogma da infalibilidade papal ex cathedra, ou seja, quando o Papa proclama de forma definitiva uma verdade de fé ou moral, como pastor supremo da Igreja.
O Vaticano II reafirma essa doutrina na constituição Lumen Gentium (1964):
“Este colégio ou corpo episcopal não tem autoridade a não ser em união com o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, como cabeça” (LG 22).
“O Romano Pontífice, como sucessor de Pedro, é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade da Igreja” (LG 23).
Segundo a tradição apostólica, a Igreja reconhece três graus do sacramento da Ordem: bispos (epíscopos), presbíteros e diáconos. Os bispos são os legítimos sucessores dos apóstolos. Entre eles, o Papa, como bispo de Roma, possui primazia por ser o sucessor direto de Pedro.
São Cipriano de Cartago, mártir e teólogo, escreveu:
“A cátedra de Pedro é a Igreja, e quem não está com Pedro, não está com a Igreja.”
Desde São Pedro, martirizado por volta do ano 64 d.C. durante a perseguição de Nero, a Igreja reconhece uma linha ininterrupta de sucessores. O atual Papa, Leão XIV (eleito em 2025), é o 267º Papa da história da Igreja.
Alguns papas marcaram profundamente a história:
A sucessão na fé tem paralelos na tradição judaica: os z’qenim, anciãos instituídos por Moisés (Nm 11,16-17), transmitiam a Lei por meio da semikhá (imposição de mãos). Essa sucessão foi essencial para preservar a Torá viva e operante nas gerações seguintes. A Igreja, como novo Israel, conserva esta dinâmica, agora aperfeiçoada pela plenitude da Revelação em Cristo.
O próprio Papa é, à maneira do sumo sacerdote do Templo, o único que exerce, em plenitude, a autoridade de “ligar e desligar” (Mt 16,19), expressão usada no judaísmo para referir-se à aplicação autorizada da Lei.
A sucessão apostólica e a autoridade do Papa não são apenas elementos administrativos, mas expressões visíveis da fidelidade de Deus à sua promessa: “Estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20). Por meio da sucessão dos bispos e do ministério petrino, a Igreja se mantém una, santa, católica e apostólica, como professamos no Credo.
A autoridade do Papa, longe de suprimir a colegialidade episcopal ou a liberdade dos fiéis, garante a unidade na verdade, tal como desejada por Cristo. Em tempos de confusão doutrinal ou cismas, o Sucessor de Pedro é, por designo divino, o guardião visível da fé, o sinal da comunhão universal.
A fidelidade ao Papa é, pois, fidelidade ao próprio Cristo, que quis que a sua Igreja fosse “como cidade edificada sobre a rocha” (Mt 5,14; Mt 16,18), inabalável até o fim dos tempos.