USD | R$5,1963 |
|---|
Crédito: Reprodução da Internet
No coração da fé católica está uma verdade muitas vezes recitada no Credo, mas pouco compreendida em sua profundidade espiritual, teológica e eclesial: creio na comunhão dos santos. Esta expressão, aparentemente simples, encerra uma das mais belas realidades da vida cristã — a união viva e operante entre todos os membros da Igreja, estejam eles no Céu, no Purgatório ou ainda peregrinando neste mundo. Não se trata de uma metáfora devocional, mas de um dogma, firmemente sustentado pela Tradição, pelo Magistério e pela doutrina perene da Igreja. Este artigo se propõe a destrinchar essa realidade em sua riqueza histórica, doutrinal e espiritual, mostrando como essa comunhão pode — e deve — ser vivida intensamente por cada católico.
A expressão communio sanctorum já era usada nos primeiros séculos da Igreja, especialmente nas catequeses do Batismo. O Catecismo da Igreja Católica (CIC 946) afirma de maneira inequívoca: “Depois de ter confessado ‘a santa Igreja católica’, o Símbolo acrescenta: ‘a comunhão dos santos’. Este artigo é, com efeito, uma explicitação do precedente: ‘o que é a Igreja senão a assembleia de todos os santos?’ (Nicetas de Remesiana, Expl. Symb.)”. Ou seja, falar da Igreja é falar da comunhão dos santos.
São Cirilo de Jerusalém já ensinava em suas Catequeses Mistagógicas que, ao participar da Eucaristia, o cristão não está sozinho: “Lembremo-nos também dos que já adormeceram: primeiro, dos patriarcas, profetas, apóstolos e mártires, para que, por suas orações e intercessões, Deus aceite a nossa súplica”. Desde o início, portanto, os cristãos se viam como parte de uma realidade muito maior que a mera comunidade visível.
A comunhão dos santos só pode ser compreendida à luz da doutrina da tríplice Igreja: a Igreja militante (os fiéis na Terra), a Igreja padecente (as almas no Purgatório) e a Igreja triunfante (os santos no Céu). Esses três estados da Igreja não estão separados por abismos, mas unidos por vínculos de caridade sobrenatural.
O Concílio Vaticano II reafirmou essa verdade de forma contundente na Constituição Lumen gentium, n. 49: “Até que o Senhor venha revestido de majestade e todos os anjos com Ele, e, destruída a morte, tudo lhe seja submetido, alguns dos seus discípulos peregrinam na Terra, outros, terminada esta vida, são purificados, enquanto outros são glorificados, contemplando ‘claramente o próprio Deus, trino e uno, como é’. Todos, porém, em graus diversos e de modos diversos, participamos da mesma caridade de Deus e do próximo, e cantamos ao nosso Deus o mesmo hino de glória”.
Logo, a Igreja é una, embora presente em três estados. A morte não rompe a união entre os membros do Corpo Místico de Cristo. A caridade, que jamais perece (cf. 1Cor 13,8), mantém unidos os membros da Igreja, vivos e falecidos, em um contínuo intercâmbio de bens espirituais.
Outro aspecto crucial da comunhão dos santos é o chamado tesouro da Igreja. O Catecismo, no n. 1475, ensina: “Na comunhão dos santos, ‘existe entre os fiéis – tanto os que já estão na pátria celeste como os que ainda estão em estado de purificação ou são peregrinos neste mundo – um perpétuo vínculo de amor e um abundante intercâmbio de todos os bens’. Neste admirável intercâmbio, a santidade de um aproveita aos outros, muito mais do que o pecado de um pode prejudicar os demais”.
Esse tesouro é composto pelos méritos infinitos de Cristo, e pelos méritos dos santos — particularmente da Santíssima Virgem Maria — acumulados na graça. A Igreja, como Mãe e Mestra, distribui esses méritos aos fiéis por meio das indulgências e das obras espirituais, como a oração pelos defuntos, a participação na Missa, o oferecimento de sofrimentos, entre outros.
Essa verdade é a base da doutrina das indulgências, conforme definida por São Paulo VI na Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina (1967): “A Igreja, como ministra da Redenção, distribui e aplica com autoridade o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos”. Em outras palavras: os méritos de um santo no Céu, de um justo na Terra, ou de Cristo em sua Paixão, podem beneficiar outra alma. É o oposto do individualismo moderno.
Rezar pelos mortos é uma das formas mais concretas de viver a comunhão dos santos. Essa prática, presente desde o Antigo Testamento (cf. 2Mc 12,46), foi confirmada e incentivada ao longo de toda a tradição católica. Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica, explica que as almas do Purgatório não podem mais merecer por si mesmas, mas são auxiliadas pelas orações e pelas boas obras dos vivos, especialmente o Santo Sacrifício da Missa (Suplemento, q.71).
A Igreja ensina que as almas do Purgatório podem interceder por nós também, ainda que de forma diferente dos santos do Céu. É uma comunhão de amor e intercessão mútua. Nós os ajudamos com sufrágios; eles nos ajudam com súplicas.
A devoção aos santos — tão atacada por protestantes e relativistas — nada mais é que a consequência prática da comunhão dos santos. Não adoramos os santos, mas os veneramos, reconhecendo a ação de Deus em suas vidas. Pedimos sua intercessão como quem pede a um amigo mais íntimo do Rei que interceda por nós.
O Concílio de Trento definiu que “os santos, que reinam com Cristo, oferecem a Deus suas orações pelos homens. É bom e útil invocar suplicantemente os santos e recorrer às suas orações, auxílio e intercessão para alcançar benefícios de Deus” (Sessão 25). A comunhão dos santos torna possível essa amizade sobrenatural com os que já contemplam a face de Deus.
A comunhão dos santos não é uma ideia bonita para enfeitar livros de catequese. É uma realidade concreta que transforma o modo de viver a fé. Eis algumas formas de vivê-la no dia a dia:
Além disso, é importante ensinar as crianças desde cedo que os santos são seus irmãos mais velhos na fé — e que os mortos não são esquecidos, mas membros ativos e amados de nossa família espiritual.
O ápice da comunhão dos santos é a Sagrada Eucaristia. Como afirma o Catecismo (n. 950): “A comunhão dos santos é a comunhão dos sacramentos… o termo ‘comunhão dos santos’ significa antes de tudo a ‘comunhão nas coisas santas’ (sancta), e antes de tudo na Eucaristia, pela qual ‘representamos e realizamos a unidade dos fiéis que constituem um só corpo em Cristo’ (Santo Agostinho, Sermo 272)”.
Na Missa, os fiéis na Terra se unem aos santos do Céu, aos anjos e aos defuntos em purificação. Por isso, a Liturgia Romana invoca os santos e recorda os mortos: é o momento em que a Igreja visível se une à invisível, em verdadeira e mística união.
Crer na comunhão dos santos é muito mais do que aceitar uma doutrina: é viver com os olhos abertos para o invisível, é pertencer a uma grande família que ultrapassa o tempo e o espaço. É saber que não caminhamos sozinhos — nem no sofrimento, nem na morte, nem na glória. É ter a certeza de que os nossos méritos podem ajudar outros, e que somos ajudados por aqueles que já chegaram à meta.
Ao professarmos creio na comunhão dos santos, afirmamos que somos um só corpo, unidos por Cristo, alimentados por Sua graça, chamados à mesma glória. E essa verdade, longe de ser apenas uma teoria piedosa, é um dos maiores tesouros da fé católica. Vivê-la é, portanto, um dever, uma graça e uma fonte inesgotável de esperança.