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Crédito: Reprodução da Internet
São João Clímaco — também chamado João do Sinai ou João Escilitsta — foi um monge do século VII que viveu no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai. Seu nome, Clímaco, vem da palavra grega klímax, que significa “escada”. O apelido não é coincidência: foi ele quem escreveu uma das obras espirituais mais influentes da história cristã, A Escada da Divina Ascensão, um tratado que descreve, passo a passo, o caminho da alma que deseja alcançar a união com Deus.
A obra nasceu de uma vida inteira dedicada à oração, ao jejum e ao silêncio. Clímaco retirou-se ao deserto durante quarenta anos, vivendo como eremita, e ali meditou profundamente sobre as virtudes e os vícios que moldam o coração humano. Quando foi chamado para ser abade do mosteiro, os irmãos pediram-lhe que deixasse por escrito sua sabedoria espiritual. Assim nasceu um verdadeiro mapa da santidade, que não se dirige apenas aos monges, mas a todo cristão que deseja subir espiritualmente, degrau por degrau, rumo ao Céu.
A Escada é composta por trinta degraus, número simbólico que remete aos trinta anos da vida oculta de Cristo — tempo de preparação e obediência silenciosa antes de iniciar sua missão pública. Cada degrau representa uma virtude a conquistar ou um vício a abandonar. Clímaco não fala de uma teoria abstrata, mas de uma pedagogia da santidade, feita de esforço constante, humildade e amor.
Os primeiros degraus tratam da renúncia ao mundo, da obediência e da penitência — fundamentos da vida cristã. Em seguida, vêm as lutas contra as paixões: ira, avareza, vaidade, gula, tristeza, acídia. Só depois de vencidos esses combates interiores é que a alma pode subir aos degraus superiores: a pureza, a humildade e a oração. No último degrau, o trigésimo, Clímaco fala da caridade perfeita, o amor que une a alma a Deus e resume todas as virtudes.
Ele escreve: “A caridade é, por sua natureza, a semelhança de Deus, tanto quanto é possível ao homem. É uma embriaguez da alma, que a torna insensível a tudo o que é terreno.”
A meta da Escada é o amor. E o amor, na tradição católica, não é sentimento, mas entrega total — a perfeita conformidade da vontade humana com a vontade divina.
Embora escrita em um mosteiro do Oriente, a doutrina espiritual de São João Clímaco está em plena harmonia com a fé da Igreja Católica. Sua escada é a mesma subida descrita pelo Evangelho: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).
O Catecismo da Igreja Católica ensina que a santidade é vocação universal: “Todos os fiéis cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade” (CIC, n. 2013). A Escada da Divina Ascensão é uma concretização deste chamado, mostrando que cada virtude é um passo na direção de Deus, e cada vício vencido é uma parte do homem velho que fica para trás.
A Igreja sempre reconheceu o valor das práticas ascéticas — jejum, penitência, silêncio, oração perseverante — não como fins em si mesmos, mas como meios de libertação interior. São João Paulo II, em Vita Consecrata, recorda que “a ascese é caminho indispensável de conversão e de conformidade com Cristo”. Clímaco ecoa essa mesma sabedoria: ninguém sobe a escada sem renunciar à vontade própria, porque o orgulho é o peso que impede toda elevação.
Um dos méritos da Escada é a sua lucidez psicológica. Clímaco descreve os movimentos da alma com precisão surpreendente. Ele sabia que o inimigo age nos pensamentos, e por isso insistia na nepsis, ou vigilância: estar atento às sugestões interiores antes que se tornem consentimento.
Ele escreve: “Se desejas purificar tua alma, guarda-te de consentir com o primeiro pensamento do mal.”
Essa pedagogia interior tem paralelos evidentes na tradição ocidental, em autores como São Bento, Santo Tomás de Aquino e São João da Cruz. Todos ensinam que a santidade começa no domínio de si — não por voluntarismo, mas por graça cooperada: a graça que Deus concede àqueles que se esforçam por responder ao Seu amor.
Os degraus centrais da Escada — humildade, paciência, mansidão, obediência — são, na verdade, reflexos da vida de Cristo. Clímaco afirma: “O humilde não pode cair, pois já está mais baixo do que os outros.”
Essa frase resume a sabedoria do Evangelho: quem se faz pequeno, esse será exaltado. É a mesma verdade ensinada pela Igreja desde sempre — a de que a humildade é o fundamento de todas as virtudes, porque ela abre espaço para que Deus aja.
Alguém poderia pensar que um tratado monástico do século VII nada tem a dizer ao homem moderno. Engano. A Escada é um manual de autodomínio, discernimento e oração — tudo o que o cristão contemporâneo mais necessita.
Em um tempo marcado pela dispersão, pela pressa e pelo ruído, Clímaco propõe o recolhimento, a sobriedade e o silêncio. Em uma sociedade que idolatra o sucesso e a autoafirmação, ele ensina a humildade e a obediência. E diante do cansaço espiritual moderno, recorda a importância da perseverança: “Nenhuma virtude é adquirida de repente; até o sol nasce pouco a pouco.”
O leigo, tanto quanto o monge, pode subir a escada: cada degrau é uma virtude cultivada em meio às circunstâncias do mundo — paciência com os filhos, honestidade no trabalho, caridade com os pobres, pureza do coração. A santidade é o dever de estado vivido com amor.
São João Clímaco apenas traduziu, em linguagem monástica, o que a Igreja sempre ensinou: que a ascensão espiritual é feita de pequenas fidelidades diárias.
A Escada da Divina Ascensão é uma imagem poderosa da própria vida cristã. O batismo nos coloca no primeiro degrau — a renúncia ao pecado. A confissão nos faz recomeçar quando caímos. A Eucaristia é o alimento para continuar subindo. E a caridade, no alto da escada, é o próprio Cristo, que nos espera para nos introduzir na comunhão plena com Ele.
O Papa Bento XVI, ao comentar São João Clímaco, disse que a Escada “continua sendo um espelho da vida cristã, um caminho seguro de conversão e de amor que conduz a Deus”.
Subir a escada é, portanto, viver o Evangelho em profundidade, confiando na graça e não nas próprias forças. O cristão sobe, cai, levanta-se e continua — sempre sustentado pela misericórdia de Deus. Cada degrau é uma graça recebida, e cada passo é um ato de fé.
São João Clímaco não propõe uma fuga do mundo, mas uma subida interior. Ele ensina que o Reino de Deus começa no coração, e que a verdadeira ascensão não é visível, mas acontece no silêncio da alma que se entrega.
A Escada da Divina Ascensão é, em última análise, o retrato da vida cristã em movimento: uma luta constante entre o velho homem e o novo, entre o orgulho e a humildade, entre o amor próprio e o amor de Deus.
Clímaco nos recorda que ninguém sobe sozinho — Cristo é o primeiro que desceu para nos conduzir pelas mãos. E, no fim da subida, descobrimos que a escada inteira é o próprio Cristo: “Eu sou o caminho” (Jo 14,6).