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Crédito: Reprodução da Internet
Ser católico dentro de uma universidade é como carregar uma vela acesa num corredor cheio de vento. A cada passo, ideias, ideologias e modas intelectuais tentam apagar essa chama. Mas o universitário católico não é um fugitivo do pensamento — ele é, antes, alguém que busca a Verdade com “V” maiúsculo.
O Magistério da Igreja nunca temeu o confronto das ideias. São João Paulo II, em Fides et Ratio, afirma que “a fé e a razão são como duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”. Essa visão liberta o cristão do medo de pensar. Na universidade, a fé não deve se esconder — deve ser luz que interpreta, dá sentido e orienta.
O ambiente acadêmico é plural, competitivo e, muitas vezes, hostil à transcendência. Ideias relativistas e materialistas são apresentadas como se fossem sinônimo de “neutralidade”. No entanto, negar o sobrenatural é, em si, uma posição ideológica — e das mais estreitas.
A Constituição Pastoral Gaudium et Spes recorda que “só no mistério do Verbo encarnado o mistério do homem se torna verdadeiramente claro”. Isso significa que qualquer reflexão sobre o ser humano — ciência, filosofia, psicologia, sociologia — que ignore Cristo, corre o risco de se perder em fragmentos. O universitário católico, portanto, é chamado a ser ponte entre o saber humano e a Sabedoria divina.
Muitos jovens católicos experimentam, na universidade, uma solidão silenciosa. São poucos os que defendem publicamente a fé. A tentação de calar-se para não parecer “antiquado” é real, mas perigosa.
O Papa Bento XVI alertou, em seu famoso discurso em Ratisbona, que a separação entre fé e razão gera uma “patologia da razão” e uma “patologia da religião”. O equilíbrio está em reconhecer que a fé purifica a razão, e a razão protege a fé de sentimentalismos. O católico que estuda deve ter essa consciência: pensar bem é também um ato de amor a Deus.
A pastoral universitária — quando fiel à doutrina e conduzida com inteligência — é um verdadeiro farol. Não se trata de “ativismo pastoral”, mas de formar discípulos pensadores.
A Ex Corde Ecclesiae define a universidade católica como “nascida do coração da Igreja”, e não como uma instituição qualquer com rótulo religioso. Isso implica cultivar a unidade entre fé, cultura e vida. A pastoral não deve ser refúgio dos tímidos, mas oficina de santos inteligentes. É ali que o estudante aprende a integrar estudo e espiritualidade, oração e pesquisa, missa e metodologia científica.
O relativismo é o ar que se respira nas universidades modernas. “Tudo é válido”, dizem. Mas, curiosamente, quem afirma isso não tolera a verdade do Evangelho.
O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium, lembra que “a verdade não se impõe, mas se propõe com amor”. Essa é a chave. O universitário católico não precisa gritar para ser ouvido; basta viver de forma coerente, estudar com excelência e demonstrar que fé e razão produzem frutos concretos. A coerência é a apologética mais poderosa.
A tradição católica tem uma reverência antiga pelo saber. Basta lembrar de Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, São Boaventura, Edith Stein, tantos outros que uniram oração e inteligência. Para eles, estudar era uma forma de rezar.
O estudante católico é chamado a essa mesma vocação: transformar o estudo em ato de amor. Quando se abre um livro com retidão de intenção, busca-se não apenas uma nota, mas um vislumbre da Verdade. São Josemaria Escrivá dizia: “Que teu estudo seja uma oração.” Essa visão devolve sentido à rotina universitária, mesmo nos cursos mais áridos.
O testemunho dos docentes é decisivo. Um professor católico não precisa “pregar” em sala de aula — basta ensinar com integridade, respeitar a verdade e cultivar a beleza. O Papa São Paulo VI afirmava que “o homem contemporâneo escuta mais as testemunhas do que os mestres; e, se escuta os mestres, é porque são testemunhas.”
A coerência intelectual é o perfume da fé no ambiente acadêmico. Quando o professor une rigor científico e vida espiritual, ele mostra que o conhecimento humano pode ser caminho de santificação.
Alguns acreditam que a fidelidade à doutrina limita a liberdade acadêmica. O contrário é verdadeiro. A fé não censura — ela orienta. A verdadeira liberdade é servir à verdade, não às opiniões.
A Veritatis Splendor ensina que “a liberdade é ordenada ao bem”, e a universidade é o espaço onde essa ordenação deve ser cultivada. O cristão não estuda para ter poder, mas para servir com sabedoria. Essa é a diferença entre o mero intelectual e o discípulo de Cristo.
Não basta sobreviver: é preciso formar cultura. Clubes de leitura, grupos de oração, debates abertos, projetos de extensão — tudo isso pode ser espaço de evangelização. O segredo é unir caridade e competência.
Os santos universitários de hoje não nascerão de discursos, mas de testemunhos concretos: aquele aluno que não cola, aquele pesquisador que não falsifica dados, aquela professora que defende a vida com serenidade. A santidade cotidiana é a maior revolução cultural que a universidade pode ver.
No fim das contas, viver a fé na universidade é um ato de esperança. É acreditar que a verdade continua atraente, mesmo num mundo cético. É confiar que Cristo não abandona os seus, mesmo nas salas mais frias e ruidosas.
Como recorda o Concílio Vaticano II, “Cristo revela plenamente o homem ao próprio homem.” Quem O conhece, entende o mundo de modo novo. Por isso, o universitário católico é chamado a ser sinal de contradição e de esperança, estudando com a cabeça no céu e os pés no chão.
Viver a fé na universidade não é fácil. Mas é exatamente nas arenas difíceis que o cristianismo mostra sua força. A chama que parece frágil é, na verdade, fogo do Espírito. Que cada jovem católico universitário mantenha essa luz acesa — no laboratório, na biblioteca, nas aulas, nas conversas — com a certeza de que, mesmo sob o microscópio do mundo, a fé continua ardendo viva, luminosa e invencível.