USD | R$5,1857 |
|---|
Crédito: Reprodução do filme “Conclave”
Desde o início da narrativa, o filme pinta a Igreja Católica como um reduto de escândalos e imoralidade. Quase todos os cardeais apresentados são envolvidos em pecados graves: vícios, mentiras, corrupção financeira, má conduta sexual. Não se trata de negar que existem, sim, homens falhos dentro da Igreja – a própria história comprova isso. Mas o erro grave do filme é apresentar essas falhas como se fossem a regra, não a exceção, e mais ainda: fazer dessas faltas a própria “essência” da Igreja retratada.
É importante lembrar o que ensina o Catecismo da Igreja Católica, no §827:
“Enquanto Cristo, ‘santo, inocente, imaculado’ (Hb 7,26), não conheceu o pecado (2Cor 5,21), mas veio unicamente expiar os pecados do povo (Hb 2,17), a Igreja, encerrando pecadores no seu próprio seio, é ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificação.”
O que o filme faz, porém, é apagar essa dimensão mística e redentora da Igreja, reduzindo-a a uma organização humana podre, decadente, sem sequer um personagem que viva a fé de forma autêntica. Todos têm seus “segredos”, todos são coniventes com algum tipo de erro moral. Isso é uma grave tentativa de difamar a imagem da Igreja como instituição divina.
Em uma das conversas entre os cardeais Lawrence e Bellini, surge uma frase que resume muito da distorção teológica do filme. Lawrence diz: “Achei que deveríamos seguir a Deus, não a um ideal.” E Bellini responde: “Deixe de ser bobo, abra os olhos.” Essa troca de falas revela a mentalidade secularizada que move os personagens: eles não estão ali por causa de Cristo, nem para servir à Igreja, mas a interesses ideológicos. O próprio conceito de vocação é reduzido a um jogo de influência e estratégias políticas.
A Constituição Dogmática Lumen Gentium, no nº 18, afirma:
“Cristo Senhor, para apascentar e governar o povo de Deus, instituiu na sua Igreja diversos ministérios, que visam ao bem de todo o corpo. De entre eles, sobressai o ministério dos bispos, que, por instituição divina, sucedem aos Apóstolos como pastores da Igreja.”
Portanto, os cardeais não são meros políticos com roupas vermelhas. Eles são sucessores dos Apóstolos. E qualquer narrativa que os retrate como agentes de projetos ideológicos mundanos, ignorando o chamado divino de serviço e santidade, já se afasta completamente da verdade católica.
Outra cena que destoa frontalmente da realidade e da reverência que envolve a morte de um Papa é aquela em que o cardeal Lawrence entra nos aposentos papais selados. Na vida real, os aposentos do Papa são lacrados logo após sua morte, sendo sua abertura regida por ritos precisos, investigativos e altamente respeitosos. Esse protocolo visa proteger os pertences do Pontífice e garantir a integridade do processo de transição.
Tal gesto no filme, ao ser banalizado, transmite uma ideia de total desordem institucional, como se nem os mais básicos elementos da tradição fossem respeitados. Mais uma vez, se relativiza o sagrado para dramatizar o caos.
A cena da explosão de um carro-bomba na Praça de São Pedro é um recurso de impacto que leva a um novo nível a tensão entre os cardeais. O atentado – atribuído a motivos religiosos – provoca divisões ainda maiores dentro do conclave. Surge então o cardeal Benítez, que antes parecia marginalizado na narrativa, e que agora faz um discurso “pacificador” diante do caos.
No entanto, esse discurso que atrai os olhares de todos é, na verdade, um manifesto relativista. Ele afirma que “a Igreja não é a tradição, não é o passado, é o que fazemos com ela a partir de agora”. Tal fala não apenas despreza a Tradição como pilar da fé católica, como tenta instaurar uma eclesiologia modernista, centrada no homem, não mais em Cristo.
É fundamental recordar: os três pilares da Igreja Católica são a Sagrada Escritura, o Magistério e a Tradição. Como ensina o Concílio Vaticano II na Dei Verbum 10:
“A Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão entrelaçados de tal modo que um não subsiste sem os outros.”
Negar a Tradição é negar a própria identidade da Igreja fundada por Cristo.
Benítez é eleito papa após esse discurso relativista. Mas o que chama atenção é o modo velado como o filme o constrói. Não é abertamente um liberal radical; pelo contrário, seu discurso é brando, aparentemente ponderado, o que o torna ainda mais perigoso. É nesse tipo de narrativa que se esconde o erro: no “equilíbrio” que mina os fundamentos, no “sensato” que relativiza verdades.
A eleição papal, por sua vez, também é mal retratada. O filme não mostra com fidelidade os ritos e declarações necessárias para a validação da escolha de um novo Pontífice, como o tradicional “Acceptasne electionem?” e a fórmula oficial em latim.
A maior polêmica do filme, no entanto, é a revelação final. Após ser eleito, Benítez confessa ao cardeal Lawrence que descobriu, após uma cirurgia, que possui útero e ovários, e que seus cromossomos indicam que, biologicamente, é uma mulher. Embora fisicamente pareça um homem, trata-se de uma condição médica rara.
Essa revelação não é gratuita. Tudo no filme aponta para uma tentativa velada de introduzir a ideia de uma mulher no papado – ou, ao menos, questionar o motivo pelo qual o papado é reservado aos homens. O filme sugere que essa condição “híbrida” tornaria Benítez mais sensível, mais compreensivo, mais adequado para liderar a Igreja em tempos de crise.
Contudo, como ensina São João Paulo II na Ordinatio Sacerdotalis:
“A Igreja não tem, de modo algum, a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres.” (§4)
Ou seja, não se trata de discriminação, mas de fidelidade ao que Cristo instituiu. Ele escolheu apenas homens para o colégio apostólico. E o sacerdócio não é uma função social, mas um sacramento, que exige obediência ao desígnio divino. O Papa, sendo o Bispo de Roma, só pode ser um homem validamente ordenado.
O mais impressionante é que, no fim, o próprio Benítez parece negar toda a lógica progressista do filme. Ele diz que decidiu não remover os órgãos femininos porque seria errado alterar a obra que Deus fez. Ora, se é pecado alterar aquilo que Deus criou, então é igualmente pecado alterar os fundamentos da Igreja – a doutrina, os sacramentos, a moral, a tradição. Toda a ideologia que o filme tenta promover se desfaz nessa única frase, embora a maioria dos espectadores não perceba.
O Catecismo da Igreja afirma no §2293:
“A ciência e a técnica são recursos preciosos quando colocados a serviço do homem e promovem o seu desenvolvimento integral para o bem de todos; mas não podem, por si sós, indicar o sentido da existência nem da evolução humana.”
Alterar a própria natureza – biológica ou espiritual – é tentar ser Deus no lugar de Deus.
A análise dessa segunda parte mostra como o filme, por trás de belas frases e cenários impactantes, tenta desconstruir os pilares da fé católica. Tenta apresentar um “novo catolicismo” mais palatável ao mundo, mas que já não é mais fiel a Cristo. E isso o faz de modo velado, envolvente, quase imperceptível.
A fidelidade à Igreja não está em discursos brandos, mas na firmeza com que defendemos aquilo que foi confiado por Cristo. Como diz São Paulo:
“Mesmo que nós, ou um anjo vindo do céu, vos pregasse um evangelho diferente daquele que vos pregamos, seja anátema!” (Gl 1,8)
O perigo está exatamente onde há aparência de luz. E é por isso que é preciso denunciar. A Igreja não é aquilo que fazemos dela agora. A Igreja é aquilo que Cristo fundou — e isso, ninguém pode mudar.