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Crédito: Reprodução da Internet
A humildade não é, como o mundo frequentemente a entende, simples timidez, baixa autoestima ou vergonha de si mesmo. Para a fé católica, humildade é a verdade: reconhecer quem somos diante de Deus, com tudo o que temos de dons e limites, virtudes e misérias. Santo Agostinho dizia: “Toda a casa da vida cristã é construída sobre a humildade.” E Santa Teresa d’Ávila, doutora da Igreja, foi taxativa: “A humildade é andar na verdade.”
Essa verdade tem dois aspectos. O primeiro, reconhecer nossa condição de criaturas dependentes do Criador. O segundo, não negar os dons que Deus nos deu, pois seria ingratidão. Humilde não é quem se diminui falsamente, mas quem se coloca no seu devido lugar diante de Deus e dos homens. O soberbo quer ocupar um trono que não lhe pertence; o humilde permanece no lugar certo, servindo.
A tradição católica ensina que a soberba foi o pecado original dos anjos caídos. Santo Tomás de Aquino (Suma Teológica II-II, q. 162, a. 7) afirma que Lúcifer pecou por querer “ser como Deus”, não em igualdade de essência, mas desejando alcançar a bem-aventurança suprema por si mesmo, sem a graça divina. Ou seja, faltou-lhe humildade. Assim, pode-se dizer que humildade foi a virtude que os santos escolheram, e soberba, o vício que arruinou os anjos caídos.
O Antigo Testamento exalta continuamente a humildade como chave da amizade com Deus. Moisés é chamado “o homem mais humilde sobre a face da terra” (Nm 12,3). E foi justamente a esse homem humilde que Deus revelou a Sua Lei e falou “face a face”.
Nos salmos, Davi canta que “um coração contrito e humilhado, ó Deus, não desprezarás” (Sl 50,19). A humildade é condição para o perdão, para a justiça e para a misericórdia divina. Os profetas, como Isaías, clamam que Deus olha “para o humilde e contrito de espírito, que treme diante da minha palavra” (Is 66,2). A Escritura inteira faz eco de uma verdade espiritual: Deus resiste aos soberbos, mas concede Sua graça aos humildes (Pr 3,34; cf. Tg 4,6).
A humildade encontra seu ápice em Cristo, o Verbo encarnado. São Paulo escreve em Filipenses 2,6-8:
“Sendo de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. E, achado na figura de homem, humilhou-se a si mesmo, obedecendo até a morte, e morte de cruz.”
Esse “kenosis” (esvaziamento) é o coração da humildade cristã. O Filho de Deus não apenas se encarnou num estábulo em Belém, mas viveu na pobreza, lavou os pés dos discípulos (Jo 13) e entregou-se até a humilhação total da Paixão.
Santo Tomás de Aquino ensina que a humildade de Cristo redimiu a soberba do homem. Onde Adão foi soberbo, Cristo foi humilde. A virtude que Ele mais exemplificou é a mesma que Ele quer ver nos Seus discípulos: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29).
Todos os místicos e doutores da Igreja são unânimes: sem humildade, não há progresso espiritual. São João da Cruz, mestre da vida interior, escreveu:
“Deus não se comunica à alma soberba nem a enriquece com dons espirituais, pois quer humildade onde deposita sua graça.”
Santa Teresa d’Ávila diz que a humildade é a fundação da oração verdadeira. Sem ela, a alma vive em ilusões espirituais. A humildade impede o orgulho disfarçado de fervor religioso, que faz a pessoa buscar consolações ou dons extraordinários para si mesma.
São Bento, pai do monaquismo ocidental, dedicou todo o capítulo 7 de sua Regra à humildade, descrevendo 12 graus pelos quais o monge sobe até Deus. E começa assim:
“O primeiro grau de humildade é que o homem, sempre diante dos olhos, tema a Deus e fuja inteiramente do esquecimento.”
Ou seja, a humildade põe Deus no centro. O orgulhoso gira em torno do seu ego. O humilde gira em torno de Deus.
O Catecismo da Igreja Católica ensina claramente:
“A humildade é o fundamento da oração. ‘Não sabemos o que pedir nem como pedir’ (Rm 8,26). A humildade é a disposição para receber gratuitamente o dom da oração” (CIC, §2559).
São João Paulo II, em sua catequese sobre as bem-aventuranças (Audiência Geral, 2/7/1980), afirmou que a pobreza em espírito — primeira bem-aventurança — é inseparável da humildade:
“O humilde reconhece que tudo vem de Deus. Sua grandeza não está em si mesmo, mas em Deus.”
O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, recorda que todos, inclusive o Papa e os bispos, são chamados à santidade por meio da humildade (cf. LG, 40-41). E Bento XVI advertiu, em inúmeras homilias, que a humildade é a única via segura para a verdadeira reforma da Igreja e da própria vida.
Ser humilde não significa deixar que passem por cima de você. Humildade não é covardia, mas fortaleza interior. Santo Tomás distingue a humildade da pusilanimidade (a falsa pequenez de alma). O humilde reconhece o seu valor, mas não se exalta. Defende a verdade, mas sem arrogância. Corrige quando necessário, mas sem agressividade.
Na vida prática, humildade significa:
Santa Teresinha do Menino Jesus dizia: “A humildade é a verdade.” E a verdade é libertadora.
A Confissão Sacramental é uma escola prática de humildade. Dizer nossos pecados em voz alta exige coragem e humildade. Não é à toa que São João Maria Vianney dizia que o confessionário é o trono da misericórdia de Deus.
Santa Faustina Kowalska, na sua Diário, escreve que Deus “derrama graças sobre os humildes”. Jesus lhe disse: “As almas orgulhosas e altivas mantêm-se distantes de Meu Coração. As almas humildes atraem-me para elas” (Diário, §1602).
Quem não é humilde, raramente se confessa, ou faz confissões superficiais, sem verdadeiro arrependimento. Quem é humilde, abre o coração e permite que Deus cure suas feridas.
O humilde possui a paz. Não fica agitado em defender sua reputação. Não vive preocupado em ser reconhecido. A alma humilde é livre para amar, porque não está presa ao ego.
Santa Catarina de Sena, doutora da Igreja, dizia que quem é humilde “não se perturba com o louvor nem se abate com a injúria.” E Santo Inácio de Loyola ensinava que a humildade nos faz indiferentes entre riqueza ou pobreza, saúde ou doença, desde que possamos servir melhor a Deus.
A humildade traz também a alegria genuína, pois impede a soberba que nos faz olhar para cima, invejando os maiores, e permite olhar para baixo, agradecendo por não sermos piores.
Humildade é virtude nuclear na fé católica porque é a única capaz de nos configurar a Cristo. Santo Agostinho foi direto:
“Se me perguntas quais são as virtudes cristãs, eu respondo: a primeira é a humildade, a segunda é a humildade, a terceira é a humildade.”
Sem humildade, todas as outras virtudes ficam mancas. A caridade se contamina de vaidade. A obediência vira formalismo. A pureza se converte em orgulho. Somente a humildade dá à vida cristã a sua força verdadeira.
Em suma, a humildade não nos diminui. Ao contrário, coloca-nos na nossa grandeza real: filhos de Deus, criados para participar de Sua glória, mas conscientes de que sem Ele nada podemos (Jo 15,5). E isso, paradoxalmente, é o maior motivo de alegria e liberdade que podemos ter.
Se queremos crescer na fé, não há caminho fora dela. Cristo é manso e humilde de coração — e é a Ele que estamos chamados a imitar.