USD | R$5,1949 |
|---|
Crédito: Reprodução da Internet
Nos últimos anos, a relação entre a Igreja Católica e pessoas que se identificam como LGBTQ+ tem sido tema recorrente nas mídias, nas redes sociais e nos próprios ambientes eclesiais. A pergunta “A Igreja aceita pessoas LGBTQ+?” parece simples, mas envolve aspectos teológicos, pastorais, morais e até antropológicos. Responder a essa questão exige ir além dos slogans ideológicos e retornar às fontes: o Evangelho, a Tradição, o Magistério e o senso de fé do povo católico.
Antes de tudo, é necessário esclarecer o que significa “aceitar”. No vocabulário cristão, aceitar não é o mesmo que endossar o comportamento de alguém. A aceitação cristã é enraizada na caridade, que “não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade” (1Cor 13,6). Portanto, aceitar uma pessoa, na linguagem da Igreja, significa reconhecer sua dignidade inalienável como filho ou filha de Deus, amá-la como Cristo a ama, e chamá-la à conversão, como Cristo chama a todos.
O problema da questão tão discutida, é que a comunidade LGBTQ+ quer que a Igreja aprove o pecado e as condutas imorais, dando pleno aval para práticas que contradizem os ensinamentos da doutrina, magistério e tradição, banalizando até mesmo a seriedade e sacralidade dos sacramentos, como o matrimônio por exemplo. Mas a verdade ensinada pela Igreja não é falta de aceitação, e sim o caminho para alcançar a Vida Eterna.
O ponto de partida da doutrina católica sobre qualquer ser humano é a afirmação da dignidade intrínseca de toda pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). Isso se aplica a todos, sem exceção, incluindo pessoas com atração pelo mesmo sexo ou que se identificam como transgênero.
O Catecismo da Igreja Católica (1992), promulgado por São João Paulo II, afirma claramente:
“Devem ser acolhidas com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta.“ (n. 2358)
É, portanto, doutrina oficial da Igreja que qualquer forma de violência, insulto, discriminação ou rejeição social injusta contra pessoas LGBTQ+ é moralmente inaceitável.
A Igreja faz uma distinção crucial — que costuma ser ignorada ou mal compreendida — entre inclinação e ato.
“Um número apreciável de homens e mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação, objetivamente desordenada, constitui, para a maioria deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza.”
(Catecismo da Igreja Católica, n. 2358)
A inclinação homossexual, embora “objetivamente desordenada” segundo a moral natural, não é pecado em si mesma. O pecado se configura quando há ato voluntário e consciente contra a moral sexual ensinada pela Igreja, como a prática sexual fora do matrimônio, que a Igreja define exclusivamente como união entre homem e mulher.
Portanto, a Igreja não considera pecado “ser homossexual”. O que é considerado pecado são os atos homossexuais, pois são, segundo a doutrina imutável da Igreja, “intrinsecamente desordenados”, como ensina a Congregação para a Doutrina da Fé no documento Homosexualitatis Problema (1986), assinado pelo então cardeal Joseph Ratzinger.
“Eles [atos homossexuais] são contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira.” (Homosexualitatis Problema, n. 7)
A doutrina sobre identidade de gênero ainda está em desenvolvimento em termos magisteriais formais, mas já há diretrizes claras.
Em 2019, a Congregação para a Educação Católica publicou o documento “Homem e Mulher os Criou”, que trata da ideologia de gênero:
“A missão educativa exige reconhecer que o ser humano é um ser sexual, constituído como homem e mulher. […] A negação da diferença sexual é expressão de uma antropologia confusa.”
(Homem e Mulher os Criou, n. 30)
Portanto, a ideologia de gênero — que separa identidade de gênero do sexo biológico — é rejeitada pela Igreja. Isso, porém, não se traduz em rejeição das pessoas que enfrentam essa realidade. A postura pastoral permanece de respeito pela pessoa, mas de fidelidade à verdade da criação.
Os Papas modernos, especialmente São João Paulo II, Bento XVI e Francisco, enfatizaram que a missão da Igreja não é expulsar pecadores, mas atraí-los à verdade salvadora de Cristo, com amor e coragem.
São João Paulo II, no Encontro com os Jovens nos EUA (1979), disse:
“Não tenhais medo de vos aproximar da Igreja. Ela vos ama porque Cristo vos ama.”
Papa Francisco, na famosa resposta “Quem sou eu para julgar?”, não alterou a doutrina, como muitos sugerem. Ele se referia a uma pessoa homossexual que busca a Deus com sinceridade:
“Se uma pessoa é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”
(Entrevista no voo de volta do Brasil, 28/07/2013)
Mais tarde, ele reiterou que:
“O matrimônio é entre um homem e uma mulher. Os Estados podem querer leis civis para unir pessoas, mas isso não tem nada a ver com o sacramento do matrimônio.”
(Documentário “Francesco”, 2020)
Ou seja, há um cuidado pastoral com a pessoa, mas fidelidade doutrinal integral.
Sim, desde que esteja em estado de graça, como qualquer outro fiel. O que impede o acesso à Eucaristia não é a orientação sexual, mas a vida em pecado grave sem arrependimento — o mesmo se aplicaria, por exemplo, a uma pessoa heterossexual que vive em união estável sem estar casada.
“Aos fiéis que se encontrarem em estado de pecado grave não se deve permitir que comunguem sem antes se haverem reconciliado com Deus mediante a Confissão sacramental.”
(Redemptoris Sacramentum, n. 81)
Portanto, se uma pessoa com atração pelo mesmo sexo vive castamente e busca viver a doutrina da Igreja, ela não está impedida de receber os sacramentos.
O chamado à castidade é universal. Como ensina o Catecismo:
“As pessoas homossexuais são chamadas à castidade.” (n. 2359)
E mais: são chamadas à santidade. Muitos santos lutaram com tentações intensas de todos os tipos — não importa quais. A santidade não consiste em nunca ser tentado, mas em escolher a fidelidade a Cristo, mesmo quando isso exige cruzes pesadas.
A Igreja não propõe exclusão, mas a verdade que liberta (Jo 8,32).
A Igreja Católica, fiel a seu Senhor, não pode modificar a doutrina revelada para agradar aos ventos culturais. No entanto, também não pode trair o Evangelho ao tratar mal aqueles que carregam fardos pesados.
É preciso recuperar o espírito da verdadeira pastoral, como ensinado por São João Paulo II na Exortação Apostólica Familiaris Consortio:
“A caridade, animada pela verdade, deve ser a norma fundamental da pastoral.” (n. 82)
Não basta dizer “todos são bem-vindos” sem ensinar a verdade. Mas também é injusto dizer “vá embora” sem estender a mão com misericórdia.
Sim, a Igreja aceita pessoas LGBTQ+. Aceita enquanto pessoas, com dignidade, com alma imortal, criadas por Deus e amadas por Ele. Não endossa comportamentos contrários ao Evangelho, assim como não o faz com adultério, fornicação ou qualquer outro pecado grave. Deus ama o pecador, mas abomina o pecado.
A Igreja, como mãe e mestra, nunca negará a verdade de Deus nem o amor de Cristo. Sua missão não é agradar o mundo, mas salvar almas. E isso passa por ensinar com clareza, acolher com caridade e conduzir todos — todos! — à santidade.
Embora muitos pensem que não, ensinar a Verdade imutável da Igreja é a forma mais concreta de amar alguém.