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Crédito: Reprodução da Internet
Ao longo da história, sempre que a Igreja Católica se viu em meio a perigos graves, perseguições, guerras ou crises espirituais, uma resposta se repetiu com insistente constância: recorrer à intercessão da Virgem Maria. Este movimento não é fruto de sentimentalismo ou superstição, mas de uma teologia profunda, enraizada na Sagrada Escritura, no Magistério constante da Igreja e na experiência histórica de proteção maternal.
De Lepanto a Fátima, de Fátima à consagração da Rússia e da Ucrânia, feita por Francisco em 2022, o apelo a Maria se apresenta como uma linha contínua, que corta os séculos e permanece como sinal de confiança inabalável.
Antes de mergulhar na história, é preciso compreender o fundamento doutrinário que explica essa atitude da Igreja. O Catecismo da Igreja Católica afirma:
“Depois de ter concluído o curso de sua vida terrena, a Santíssima Virgem foi elevada em corpo e alma à glória do céu e exaltada por Deus como Rainha do Universo, para ser mais plenamente conformada com seu Filho, Senhor dos senhores e vencedor do pecado e da morte” (CIC 966).
Maria é a nova Eva, a Mulher do Gênesis (Gn 3,15), a Mulher do Apocalipse (Ap 12), a Mãe da Igreja proclamada por Paulo VI no Concílio Vaticano II. Seu papel de Medianeira, embora ainda não proclamado como dogma em sentido formal e definitivo, é defendido por séculos de ensinamento papal, com destaque especial para Leão XIII, São Pio X e Pio XII. Como ensina São Luís Maria Grignion de Montfort: “Deus quis começar e consumar suas maiores obras por Maria” (Tratado da Verdadeira Devoção, n.14).
Quando o expansionismo otomano ameaçava a cristandade europeia, o Papa São Pio V convocou a Europa a uma Cruzada espiritual. Enquanto a Santa Liga enfrentava a frota turca em Lepanto, Roma e boa parte da Europa rezavam o Rosário.
O Papa, dominicano e grande devoto de Nossa Senhora, mandou distribuir terços e pediu jejuns e orações públicas. Após a vitória, atribuída claramente à intercessão da Virgem, o dia 7 de outubro foi instituído como a festa de Nossa Senhora das Vitórias, posteriormente transformada por Gregório XIII na Festa de Nossa Senhora do Rosário.
A mensagem era clara: nos momentos de maior perigo, a Igreja se volta àquela que a Escritura chama de “bendita entre todas as mulheres” (Lc 1,42).
Outro episódio marcante foi o cerco de Viena, em 1683. Os turcos otomanos novamente ameaçavam a cristandade. Sob o comando de João III Sobieski, rei da Polônia, as tropas cristãs venceram uma batalha decisiva. Mais uma vez, a vitória foi atribuída à intercessão de Nossa Senhora.
Inúmeros relatos históricos confirmam que o exército polonês marchou para a batalha com estandartes marianos, entoando hinos à Santíssima Virgem.
Pulando para o século XX, Fátima se tornou o centro de um dos maiores chamados marianos à humanidade. A mensagem da Virgem, dada aos três pastorinhos em 1917, foi um alerta sobre os perigos do ateísmo, das guerras, das perseguições contra a Igreja e, claro, da Rússia como instrumento de castigo.
O pedido de Nossa Senhora foi específico: oração, penitência, consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e a prática da devoção dos primeiros sábados.
Pio XII, em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, fez a primeira consagração mundial ao Imaculado Coração de Maria. Depois, em 1952, consagrou especificamente a Rússia.
João Paulo II reforçou essa prática em 1984, com um ato de consagração que muitos teólogos e videntes de Fátima reconheceram como atendendo ao pedido celestial.
No contexto da guerra entre Rússia e Ucrânia, o Papa Francisco, em 25 de março de 2022, renovou solenemente a consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. Em um gesto de comunhão universal, bispos do mundo inteiro foram convidados a realizar o mesmo ato, numa tentativa clara de ecoar os pedidos de Fátima.
Independentemente de debates teológicos sobre a validade técnica desta consagração (considerando os detalhes específicos pedidos por Nossa Senhora em Fátima), o gesto teve forte significado simbólico e pastoral. Francisco seguiu uma linha de continuidade com seus predecessores, reconhecendo que nas grandes crises, a Igreja deve recorrer àquela a quem Cristo, na Cruz, nos entregou como Mãe (Jo 19,26-27).
Aqui é importante um detalhe que, muitas vezes, escapa aos analistas modernos: a Igreja, ao longo dos séculos, desenvolveu aquilo que os teólogos chamam de “sensus fidelium” – o instinto da fé. Trata-se de um movimento espiritual que, sob a ação do Espírito Santo, leva os fiéis (e o próprio Magistério) a reconhecerem, de forma quase espontânea, os caminhos pelos quais Deus quer ser honrado.
É por isso que, em todos os séculos, sem exceção, quando a barca de Pedro balança, o olhar dos fiéis e dos pastores se volta para Maria.
Como disse o Papa Leão XIII:
“É, pois, de absoluta necessidade que o povo cristão se refugie com plena confiança sob a proteção d’Aquela que nos trouxe Jesus Cristo e por quem nos foi aberto o acesso ao trono da graça” (Encíclica Supremi Apostolatus Officio, 1883).
Se há um fio condutor em todas essas crises, é o Rosário. Seja em Lepanto, Viena, Fátima ou no século XXI, a arma que a Igreja empunha é sempre a mesma.
São Pio X, grande Papa mariano, foi direto ao ponto:
“Dai-me um exército que reze o Rosário, e eu vencerei o mundo“.
O Rosário é, por excelência, a oração da paz, da conversão dos pecadores e da proteção contra os males que ameaçam o mundo e a Igreja.
Quem entende o papel de Maria no plano da Redenção compreende que ignorar sua intercessão seria, no mínimo, uma imprudência teológica. A intercessão de Nossa Senhora não nos afasta de Deus e muito menos a coloca como centro, muito pelo contrário, ela aponta o único e verdadeiro caminho e salvação, que é Jesus Cristo.
Nos momentos de crise – sejam eles militares, sociais ou espirituais – a Igreja faz o que sempre fez: volta-se para Aquela que pisa a cabeça da serpente (Gn 3,15) e que permanece como o grande auxílio dos cristãos.
Se o futuro reserva novas provações (e ele reserva), é certo que a resposta da Igreja será a de sempre: ajoelhar-se diante de Maria e repetir com fé, como São Bernardo de Claraval:
“Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que recorrem à vossa proteção fosse por vós desamparado“.
E assim será… até o fim dos tempos.