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Crédito: Reprodução da Internet
Para muitos católicos de hoje, a ladainha dos santos soa como uma oração longa, repetitiva e reservada apenas a ocasiões “solenes demais”: Vigílias Pascal, ordenações, consagrações religiosas e rituais fúnebres. No entanto, aquilo que o povo moderno despreza como prolixo ou antiquado, a Tradição exalta como um tesouro litúrgico e doutrinal. A ladainha dos santos é uma súplica coletiva da Igreja militante (nós, ainda peregrinos), dirigida à Igreja triunfante (os santos no Céu), em união com a Igreja padecente (as almas do purgatório).
Ela não é um amontoado de nomes históricos, mas uma representação concreta da comunhão dos santos. Cada nome invocado ecoa um combate, uma vitória da graça, uma presença viva junto ao trono do Cordeiro. Ao rezá-la, a Igreja não apenas recorda sua história, mas a atualiza — e se reveste da força dos amigos de Deus.
Rezar a ladainha dos santos é mergulhar numa aula viva de teologia. Nela, encontramos os Apóstolos, fundamento visível da Igreja; os mártires, testemunhas radicais da fé; os doutores, luminares da verdade; os confessores, mestres da vida interior; as virgens e santas mulheres, espelhos de pureza, fortaleza e maternidade espiritual.
A ordem em que os santos são invocados não é aleatória. Reflete a estrutura espiritual da Igreja: começa com a Virgem Maria, Mãe da Igreja e Rainha dos Santos, seguida pelos anjos, depois os pilares apostólicos e, por fim, os santos das diversas vocações. É uma verdadeira genealogia da fé, uma procissão invisível que recorda a promessa de Cristo: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18).
E não se trata apenas de honrar, mas de pedir ajuda: ora pro nobis — rogai por nós. É como gritar no meio do campo de batalha e ver guerreiros experientes vindo em nosso socorro. Rezar a ladainha é entrar nessa dinâmica mística: somos membros do mesmo Corpo, e os santos intercedem continuamente por nós.
A força da ladainha dos santos vai além do devocional. Ela é, de fato, uma oração de guerra espiritual. É usada nos ritos do Batismo (especialmente quando há exorcismos), nas ordenações, consagrações, bênçãos solenes e até na Dedicação de uma igreja. Também é recitada nas grandes crises, como em épocas de peste, guerra e perseguição — como um clamor coletivo ao Céu.
Dom Prosper Guéranger, abade de Solesmes e grande restaurador da liturgia romana, escreveu: “A ladainha é o grito da Igreja nos dias de necessidade: chama seus santos, um a um, como soldados valentes, pedindo socorro diante da tempestade”.
Ela também possui um poder catequético quase esquecido: ao escutá-la com atenção, a alma é conduzida a conhecer a história da Igreja, suas colunas, seus sofrimentos, seus milagres. Um jovem que nunca leu uma linha sobre Santa Águeda, Santo Lourenço ou São Fabiano, ao escutar seus nomes invocados na liturgia, pode ser instigado a conhecer, amar e imitar.
A perda do uso frequente da ladainha dos santos coincide com a crise de identidade católica contemporânea. Onde ela é omitida, reina a horizontalidade, o culto à assembleia, a autorreferência. A oração aos santos nos lembra que não somos uma ONG espiritual nem uma democracia religiosa: somos parte de um Corpo Místico que inclui os que já foram glorificados.
Rezar a ladainha é afirmar, contra o espírito do mundo, que cremos na vida eterna, na ressurreição dos mortos, na vitória dos mártires, na intercessão dos justos e na comunhão dos santos. E isso incomoda. A secularização não suporta ouvir que existe uma realidade superior, mais estável e mais santa do que este mundo fluido e apodrecido.
É por isso que há tão pouco espaço para ela nas liturgias modernas “criativas”. Porque a ladainha é humilde, penitente e vertical. Ela ensina que não somos o centro — Deus é. E que, se queremos chegar até Ele, precisamos dos santos que já estão lá.
Estamos cercados por uma cultura que canoniza vícios e zomba da virtude. Nunca foi tão necessário invocar os verdadeiros santos. A ladainha nos ensina a clamar: libera nos, Domine — livrai-nos, Senhor. Livrai-nos da morte eterna, da tentação, do pecado, da indiferença, da apostasia.
Ela pode — e deve — voltar ao uso familiar e comunitário: na quaresma, nas vigílias, nas procissões, nos momentos de provação. É uma prece coletiva, uma ponte entre o Céu e a terra, uma arma que o diabo detesta, porque traz consigo a presença da milícia celeste.
Santa Teresa de Jesus dizia: “Quando invocamos os santos, eles vêm com pressa em nosso auxílio”. A ladainha é a forma mais direta e litúrgica de fazer isso. Não há motivo para deixá-la restrita a seminários e mosteiros. Cada lar católico pode (e deve) ecoá-la.
Rezar a ladainha dos santos é fazer memória da nossa herança e profecia do nosso destino. É recordar que fomos chamados à santidade, não à mediocridade. É saber que não estamos sozinhos. E que se a Igreja hoje sangra, ela não sangra abandonada — mas rodeada por uma nuvem de testemunhas (Hb 12,1).
Quando a Igreja reza: Todos os santos de Deus, rogai por nós, ela está, na verdade, se reconhecendo. Está dizendo: “Eu sei quem eu sou, de onde vim e para onde vou”. Que essa oração volte aos nossos lábios. Porque se esquecermos os santos, em breve esqueceremos o Céu.