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Crédito: depositphotos.com / natursports
Poucos sabem, mas há uma figura curiosa no rol das jurisdições eclesiásticas da Igreja Católica: o Bispo da Lua. Por mais poético (ou absurdo) que isso pareça aos ouvidos modernos, trata-se de uma realidade jurídica, fundamentada no Direito Canônico e na tradição missionária da Igreja. A história desse título tem origem na visão católica de que nenhum território está isento da possibilidade de evangelização — mesmo que esse território seja o próprio satélite natural da Terra.
A origem desse fato não é mitológica, nem simbólica. É real, datável e tem um nome específico: Dom William Donald Borders, o primeiro e único bispo oficialmente encarregado da Lua pela Santa Sé.
O Código de Direito Canônico, em sua versão anterior ao Concílio Vaticano II, previa que, na ausência de uma jurisdição própria, os territórios de missão não pertencentes a uma nação já evangelizada poderiam ser confiados a um ordinariado. Foi com base nesse princípio que, após a chegada do homem à Lua em 1969, a Santa Sé decidiu, num ato simbólico porém juridicamente consistente, nomear o então bispo de Orlando, Flórida (EUA), como ordinário do território lunar.
Por quê Orlando? Porque o Cabo Canaveral, base dos lançamentos lunares da NASA, ficava sob a jurisdição de sua diocese. Isso significa que, na lógica da missão eclesial, os astronautas da Apollo 11 — que pisaram na Lua — partiram de um território eclesiástico específico. Segundo a doutrina e o direito da Igreja, aquele que envia missionários (ou viajantes) a um território não reclamado espiritualmente é também responsável pastoral por esse território.
Assim, o Papa Paulo VI — que acompanhou com interesse o programa espacial, chegando a enviar bênçãos aos astronautas — permitiu essa designação simbólica.
O gesto, que muitos poderiam considerar apenas uma curiosidade, carrega um simbolismo profundo. A Igreja nunca entendeu sua missão como restrita a fronteiras geográficas. A ordem de Nosso Senhor é clara: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). A palavra usada no original grego para “mundo” é kosmos, que não se limita ao planeta Terra. A missão da Igreja é cósmica por natureza. Onde houver vida humana, ali deve haver Evangelho. E onde não houver ainda vida humana, prepara-se espiritualmente o terreno.
Nesse contexto, a nomeação do bispo da Lua não é uma excentricidade, mas uma manifestação da fé católica em sua vocação universal, firmemente enraizada no Catecismo da Igreja Católica, que afirma:
“A Igreja é católica: é enviada a todos os povos, fala a todos os homens, abarca todos os tempos” (CIC 868).
O território lunar, ainda que desabitado, já foi palco de ações humanas. Portanto, à luz da eclesiologia católica, já está dentro da esfera de atuação da Igreja.
Quando o homem pisou na Lua, houve quem dissesse que o gesto era um triunfo da ciência sobre a fé. A Igreja, no entanto, viu algo diferente: uma ampliação do campo da criação confiada por Deus ao homem. Em Gênesis 1,28, lemos: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a”. A missão do homem, na teologia católica, é dominar com responsabilidade e gratidão toda a criação. A Lua, então, passa a ser mais uma extensão da Criação, onde o louvor a Deus deve ecoar.
O Salmo 8 expressa com clareza esse mistério:
“Quando contemplo os céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem para dele te lembrares?” (Sl 8,4-5).
A nomeação de um bispo da Lua, ainda que simbólica, mostra que a Igreja compreende essa nova etapa da humanidade à luz da Revelação, e não da tecnocracia ateia. O espaço não é um deserto espiritual, mas um novo campo de missão.
São José de Cupertino, patrono dos astronautas, foi elevado misticamente aos céus durante a Missa diversas vezes, segundo testemunhos de sua época. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia que gostaria de pregar o Evangelho em todos os confins da Terra e além. Isso, que parecia apenas uma imagem poética, é hoje uma possibilidade técnica. A colonização de outros corpos celestes já não é uma especulação absurda.
O Catecismo recorda que:
“Esta missão [da Igreja] é ainda continuada até o fim dos tempos” (CIC 849).
Ora, se a humanidade se expandir para outros planetas — e essa possibilidade é levada a sério por cientistas e estrategistas militares — então a missão da Igreja também se expandirá. O título “bispo da Lua” pode ser hoje uma curiosidade histórica, mas é também um prenúncio daquilo que virá: uma Igreja presente onde o homem estiver.
A Igreja não age por impulso midiático, mas por fidelidade à sua missão perene. O envio de bênçãos pelo Papa Paulo VI aos astronautas da Apollo 11, a instalação de um telescópio vaticano no Arizona, a existência de padres cientistas como Georges Lemaître (autor da teoria do Big Bang), e agora a memória da nomeação do “bispo da Lua” são sinais de uma doutrina que não teme a ciência, mas a ilumina.
A teologia católica não opõe fé e razão. Pelo contrário, como ensina São Tomás de Aquino:
“A graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa.”
A nomeação episcopal da Lua é um gesto pastoral que manifesta uma eclesiologia madura, que entende que a Missa não é coisa da Terra, mas do Céu. Que a missão não é política, mas escatológica. Que onde há homem, há sede de Deus — e onde há sede de Deus, há necessidade de um pastor.
A história do bispo da Lua não é uma anedota. É um capítulo concreto da fidelidade da Igreja à missão confiada por Cristo. Ainda que nenhuma paróquia lunar exista, e nenhum batizado tenha ocorrido em solo selenita, o fato de já haver uma jurisdição eclesial pensada para esse território é um sinal da lucidez e da ousadia da Igreja Católica.
Dom William Donald Borders faleceu em 2010. Seu título não foi oficialmente transmitido, pois não há necessidade prática atual. Mas o princípio permanece: se um dia houver vida humana estável na Lua, ou em Marte, ou além, a Igreja estará lá. E estará não porque quer competir com governos, mas porque foi enviada pelo Rei dos Reis a levar Sua presença sacramental aos confins do universo.
E nesse dia, talvez alguém recorde, com um sorriso de reverência: “Sim, a Lua já teve um bispo. E foi católico.”