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Crédito: Reprodução da Internet
A cena do Calvário não é apenas o ápice da redenção da humanidade, mas também o local onde, entre sangue e silêncio, nasce a maternidade espiritual de Maria. Ali, diante do discípulo amado, Jesus crucificado proclama: “Mulher, eis aí o teu filho”… “Eis aí a tua mãe” (Jo 19,26-27). Essas palavras, carregadas de solenidade e mistério, não são um gesto afetivo isolado, mas um ato deliberado e salvífico, que tem consequências universais. Na agonia do Redentor, Maria é constituída Mãe dos redimidos. E este dom materno é, desde então, patrimônio da Igreja.
A tradição católica, com o peso de dois mil anos de Magistério, vê na figura do discípulo amado não apenas o apóstolo João, mas a personificação de todo o povo fiel. Como ensina o Concílio Vaticano II, “Maria, tendo penetrado intimamente no mistério da Redenção, está unida ao Salvador por um vínculo estreitíssimo” (Lumen Gentium, 58). Ao confiar João a Maria, Cristo confiava toda a Igreja nascente ao seu cuidado. Como ensina São João Paulo II, “a maternidade que se tornou função de Maria em relação aos homens não se extingue, mas perpetua-se incessantemente” (Redemptoris Mater, 24). João representa a Igreja que acolhe Maria como Mãe — e que, por isso, jamais está órfã.
Não é acidental que Jesus chame Maria de “Mulher” no Calvário, repetindo a mesma palavra que usara nas bodas de Caná (Jo 2,4). Essa designação evoca a figura da “mulher” prometida no Gênesis (Gn 3,15), cuja descendência esmagaria a cabeça da serpente. Maria, a Nova Eva, aparece agora de pé ao lado do Novo Adão crucificado. Se no Éden a mulher participou da queda, no Calvário ela participa da salvação. E se no Éden Eva se fez mãe dos viventes segundo a carne, no Calvário Maria se torna Mãe dos viventes na graça. A tradição patrística reconhece isso com clareza: Santo Irineu de Lyon, por exemplo, escreve que “como Eva, desobediente, se tornou causa de morte, assim Maria, obediente, tornou-se causa de salvação” (Adversus Haereses, III, 22,4).
A maternidade espiritual de Maria não terminou com o Calvário. Ao contrário: ela foi inaugurada ali. Desde Pentecostes até hoje, a Virgem age silenciosamente como Mãe da Igreja. O Papa Paulo VI, em 1964, declarou solenemente: “Reconhecemos Maria Santíssima como Mãe da Igreja, isto é, de todo o povo cristão, tanto dos fiéis como dos pastores”. E essa maternidade se expressa de múltiplas formas: na intercessão incessante, na formação dos santos, na proteção materna dos fiéis. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica, “Esta maternidade de Maria perdura sem cessar na economia da graça” (CIC, 969). Ou seja, Maria continua exercendo com fidelidade o que recebeu com dor aos pés da Cruz.
O evangelista São João conclui o episódio com uma frase que diz tudo: “E a partir daquela hora, o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,27). A palavra grega usada — εἰς τὰ ἴδια — indica não apenas a casa física, mas aquilo que é mais íntimo e pessoal. João acolheu Maria em sua vida, em seu coração, em sua missão. Esse gesto deve ser repetido por todos os que querem ser verdadeiros discípulos de Cristo. Não se pode separar Jesus de sua Mãe, nem desprezar a maternidade que Ele mesmo nos ofereceu como dom. Aceitar Maria é obedecer ao Crucificado. Rejeitá-la é desobedecer ao Redentor.
Maria não se tornou Mãe da Igreja sem sofrimento. Como profetizou Simeão, “uma espada transpassará a tua alma” (Lc 2,35). Aos pés da cruz, Maria não sofre apenas como espectadora. Ela está unida à oblação do Filho, sofrendo em comunhão com Ele. Bento XVI afirma com clareza: “Na paixão de Jesus cumpre-se a profecia de Simeão. O seu coração é transpassado por causa do coração do Filho, transpassado pela lança” (Homilia, 15/9/2006). A maternidade de Maria, portanto, é fecunda porque é crucificada. É uma maternidade do espírito, mas real, concreta, sacrificial. Como toda maternidade, envolve dor, entrega e amor.
Por fim, é preciso recordar que a maternidade espiritual de Maria não é uma devoção sentimental ou opcional. Trata-se de uma realidade teológica e salvífica, que impõe também uma responsabilidade: viver como filhos verdadeiros. E filhos verdadeiros não apenas amam sua Mãe, mas a honram, a escutam, a imitam. São Luís Maria Grignion de Montfort escreve que “Deus quer servir-se de Maria, neste tempo mais do que nunca, para estabelecer o Reino de Jesus” (Tratado da Verdadeira Devoção, n. 217). E para isso, é preciso haver filhos consagrados, obedientes, generosos. Ser filho de Maria não é título vazio — é vocação exigente.
No Calvário, Maria permaneceu de pé, junto da cruz (Jo 19,25). Que seus filhos, também eles, permaneçam de pé junto dela. A maternidade espiritual de Maria não é um adorno na história da salvação, mas um de seus pilares. Ela é Mãe porque Cristo a deu, e Cristo a deu porque sabia que precisaríamos dela. Acolhê-la é uma necessidade vital. Como ensina o Papa Francisco, “a Igreja e a humanidade precisam dela como de uma mãe que nunca cessa de gerar a vida nova no Espírito” (Homilia, 1/1/2022). Que a Virgem das Dores, Mãe nossa no Calvário, seja sempre o nosso refúgio, nossa mestra e nossa esperança.
Mãe dolorosa, Mãe gloriosa, Mãe nossa: eis aí a tua casa. E nela queremos morar para sempre.