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Crédito: Reprodução da Internet
Ao ouvir a expressão “mortificação da carne”, muita gente torce o nariz, imaginando chicotadas sangrentas ou penitências medievais assustadoras. Mas, no contexto católico, mortificar não significa desprezar ou odiar o corpo — algo, aliás, condenado pela Igreja —, mas discipliná-lo para que a alma reine, ajudando-nos a amar a Deus com mais liberdade. É uma prática antiga, profundamente enraizada na Sagrada Escritura, nos escritos dos Padres da Igreja e no Magistério, embora frequentemente mal compreendida ou até ridicularizada no mundo moderno.
A expressão “mortificação” vem do latim mortificare, que significa “fazer morrer”. E não é invenção medieval: tem raízes firmes na Bíblia. São Paulo exorta os cristãos:
“Mortificai, pois, os vossos membros terrenos: a fornicação, a impureza, as paixões, os maus desejos e a avareza, que é idolatria.” (Cl 3,5)
Ele mesmo diz:
“Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, para não acontecer que, tendo pregado aos outros, eu mesmo venha a ser desqualificado.” (1Cor 9,27)
Também Nosso Senhor fala do esforço radical contra o pecado:
“Se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e lança-o para longe de ti.” (Mt 5,29)
Claro, a Igreja sempre interpretou essas palavras não literalmente (ninguém precisa se cegar), mas no sentido espiritual: cortar tudo que nos leva ao pecado, mesmo se doloroso.
Os Padres do Deserto, nos séculos III e IV, já praticavam mortificações para domar as paixões, manter a castidade e progredir na caridade. Santo Antão, São Pacômio, São Basílio e tantos outros falavam da mortificação como luta contra o demônio e as inclinações desordenadas.
Santo Agostinho, embora crítico de exageros, via a mortificação como auxílio para a alma:
“É necessário conter a carne, mas não odiar o corpo, que é criatura de Deus.” (De Civitate Dei, XIV, 23)
Os monges e penitentes entendiam que o corpo deve servir à alma, não escravizá-la. Daí surgiram jejuns, vigílias, abstinências, mas sempre com prudência. São Bento, na Regra, manda evitar “excessos desnecessários” que prejudiquem a saúde ou gerem vaidade espiritual.
Na Idade Média, a mortificação se intensificou, especialmente em contextos monásticos e na vida dos santos. São Francisco de Assis, Santa Clara, São Domingos, São Tomás de Aquino — todos praticaram formas de penitência. São Tomás, no entanto, foi muito equilibrado:
“A mortificação do corpo não visa atormentá-lo inutilmente, mas reprimi-lo quando tende a revoltar-se contra a alma.” (Suma Teológica, II-II, q.147, a.1)
A Igreja sempre precisou moderar abusos. Flagelações sangrentas tornaram-se moda em algumas correntes (flagelantes), sobretudo em épocas de peste ou crise, mas a Santa Sé interveio diversas vezes para impedir fanatismos.
A Igreja ensina que a mortificação é parte da ascesis cristã, ou seja, o esforço humano, com a graça, para vencer o pecado e unir-se mais intimamente a Deus.
O Catecismo da Igreja Católica afirma:
“A vida cristã é luta. […] Há que combater os movimentos da concupiscência do homem velho, que permanece ativo no cristão após o Batismo.” (CIC 1426)
E também:
“O caminho da perfeição passa pela cruz. Não há santidade sem renúncia e combate espiritual.” (CIC 2015)
Logo, a mortificação não é fim em si mesma. Visa:
E não esqueçamos: o corpo é bom, templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 6,19). Por isso, mortificar a carne não é odiar o corpo, mas colocá-lo em ordem.
Há muitas formas de mortificação aprovadas e recomendadas pela Igreja:
Santos modernos, como São Josemaría Escrivá, insistiram que as mortificações pequenas e escondidas valem muito, pois treinam a vontade sem chamar atenção.
A Igreja é muito clara: práticas corporais severas não são para qualquer um. O Concílio de Trento condenou o jansenismo, que via o corpo quase como intrinsecamente mau. O Papa Pio XII, na Mystici Corporis Christi, advertiu contra penitências que prejudiquem a saúde ou a vida social normal, salvo em vocações especiais.
São João Paulo II, na Veritatis Splendor, explicou que a mortificação só faz sentido unida à caridade. Caso contrário, vira exibicionismo ou neurose.
Por isso, a tradição espiritual católica recomenda:
A mortificação tem enorme valor espiritual. Ao disciplinar o corpo, educamos a vontade e imitamos Cristo, que sofreu por amor:
“Completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo, que é a Igreja.” (Cl 1,24)
Isso não significa que falta algo ao sacrifício de Cristo — Ele redimiu tudo. Mas Deus nos dá a graça de participar da redenção, oferecendo nossos sofrimentos ou sacrifícios, em união com Jesus, pelos outros.
Santa Teresa d’Ávila dizia:
“Quem não começa pela mortificação, não chegará jamais à verdadeira contemplação.”
Ou seja: quem não educa as paixões dificilmente alcançará a intimidade profunda com Deus.
Numa época que exalta prazer e conforto, falar de mortificação soa quase ofensivo. Mas justamente hoje ela é mais necessária. Vivemos num mundo onde as paixões estão soltas, as distrações abundam e as pessoas têm baixa tolerância à frustração.
Mortificar-se:
Não se trata de macerar o corpo, mas de usá-lo para glorificar a Deus.
A mortificação da carne é, em suma, ato de amor. Não ódio ao corpo, mas amor à ordem desejada por Deus. Um corpo domado serve melhor à alma. E uma alma livre do domínio das paixões é capaz de amar a Deus e ao próximo com generosidade.
A prática da mortificação é, pois, herança legítima da fé católica, mas sempre feita com prudência, equilíbrio e sob direção espiritual. Afinal, como ensinou São Francisco de Sales:
“Mais se consegue domando o coração do que maltratando o corpo.”
E como ensina a Igreja: não há santidade sem cruz. Mas também não há cruz cristã sem amor. Essa é, no fundo, a verdadeira mortificação da carne: escolher a cruz por amor.