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Crédito: Reprodução da Internet
Quando se fala do papel da mulher na história da Igreja, o ponto de partida inevitável — e glorioso — é Maria Santíssima. A Mãe de Deus não apenas ocupa um lugar singular na economia da salvação, como também oferece o modelo perfeito de resposta à graça: o “fiat” que ecoa até hoje em cada alma fiel. O Concílio Vaticano II, na constituição Lumen Gentium, afirma que “a Igreja contempla a Maria Santíssima como sua figura mais perfeita” (LG, 63). Ela é a Nova Eva, a Mulher por excelência, medianeira das graças, Mãe da Igreja. O seu sim, dado com humildade e firmeza, inaugura o protagonismo feminino na história da salvação e, por extensão, no seio da própria Igreja.
A mulher, criada à imagem e semelhança de Deus, não é uma figurante no drama da redenção. Ela é, desde o início, cooperadora ativa no plano divino, seja pela via do matrimônio, da maternidade, da virgindade consagrada ou do martírio. A Igreja sempre reconheceu esse papel e o elevou a patamares sublimes, refletindo isso em sua liturgia, doutrina e hagiografia.
Nos séculos da perseguição romana, o testemunho das mulheres cristãs causava escândalo aos pagãos e admiração aos fiéis. Jovens como Santa Inês, Santa Cecília, Santa Luzia e Santa Águeda — apenas para citar algumas — desafiaram imperadores com a coragem de quem entende que a fidelidade a Cristo vale mais que a própria vida. O martírio dessas virgens e mártires foi celebrado desde os primeiros séculos com solenidade e reverência, sendo muitas vezes mencionado nos próprios cânones da Missa, como ocorre com o Communicantes do Cânon Romano.
São João Paulo II, na Mulieris Dignitatem, reconhece essa força heroica: “É com razão que a Igreja venera numerosas santas mulheres, cuja coragem até ao martírio é um testemunho admirável da grandeza da alma feminina” (MD, 11). O martírio feminino, longe de ser exceção, foi um alicerce silencioso e firme na construção do Corpo Místico de Cristo.
Se o sangue das mártires é a semente dos cristãos, a oração, o conselho e a ação das santas governantes, místicas e reformadoras são o adubo que fecunda essa semente. Santa Helena, mãe de Constantino, encontrou a verdadeira Cruz; Santa Clotilde converteu um rei e um reino; Santa Isabel da Hungria e Santa Isabel de Portugal governaram com caridade e justiça, tornando o trono um púlpito.
Já Santa Catarina de Sena — que não teve sequer uma formação formal — desafiou papas com a autoridade de quem vivia em íntima união com Cristo. Ela é um símbolo do poder espiritual da mulher na Igreja. Assim como Santa Brígida da Suécia, mística e mãe de família, que recebeu revelações celestes e contribuiu para a vida espiritual da Europa. Ambas foram declaradas co-padroeiras do continente europeu por São João Paulo II, que via nelas o equilíbrio entre contemplação e ação.
A Igreja, em sua sabedoria, reconheceu formalmente o peso doutrinal de algumas dessas mulheres. Atualmente, quatro são Doutoras da Igreja: Santa Teresa de Jesus (Ávila), Santa Catarina de Sena, Santa Teresinha do Menino Jesus e Santa Hildegarda de Bingen. Cada uma, com seu estilo próprio, penetrou os mistérios divinos com profundidade teológica, vida mística e fidelidade absoluta à ortodoxia.
Santa Teresa d’Ávila, reformadora do Carmelo, escreveu com clareza e firmeza sobre a oração mental, o progresso espiritual e a união com Deus. Santa Teresinha, com sua “pequena via”, desconcertou os teólogos com a simplicidade do amor confiado e oblativo. Santa Hildegarda, no século XII, foi teóloga, médica, musicista, conselheira de papas e profetisa da Igreja. Todas essas mulheres nos lembram que a inteligência feminina, quando iluminada pela graça, não apenas edifica a própria alma, mas também forma e guia as almas alheias.
Não se pode ignorar o exército de mulheres consagradas que, desde os primeiros séculos, entregaram a vida inteiramente a Cristo. As primeiras comunidades de virgens consagradas, seguidas por ordens monásticas e mendicantes femininas, foram escolas de santidade, centros de cultura e bastiões da caridade. A abadessa era, muitas vezes, autoridade espiritual e até administrativa, inclusive sobre clérigos, como bem mostram as abadessas beneditinas da Idade Média.
Na missão, o papel das religiosas foi monumental. São incontáveis as congregações femininas fundadas para a educação, saúde e evangelização. As Irmãs da Caridade, de Santa Luísa de Marillac, as Salesianas de Dom Bosco, as Missionárias da Caridade de Santa Teresa de Calcutá, entre tantas outras, mostram que a Igreja avança também pelos pés das que silenciosamente percorrem os desertos do mundo com o Crucifixo no coração e o rosário nas mãos.
A doutrina católica nunca teve dúvidas quanto à dignidade e missão da mulher. O Magistério sempre a viu como colaboradora do homem, distinta mas complementar. O Catecismo da Igreja Católica é cristalino: “Homem e mulher têm igual dignidade e são ambos à imagem de Deus” (CIC, 2334). A diferença de funções na liturgia ou no ministério ordenado não diminui em nada o valor da mulher — ao contrário, destaca a vocação singular que ela possui no plano da salvação.
É exatamente aqui que se desenha o abismo entre o ensinamento da Igreja e a ideologia feminista. O feminismo moderno, ao rejeitar a complementaridade entre homem e mulher, promove uma rivalidade destrutiva e distorce a identidade feminina. Em vez de exaltar a mulher por aquilo que ela é — esposa, mãe, virgem, consagrada, cuidadora da vida — o feminismo a define por aquilo que ela supostamente deve “tomar” do homem. Trata-se de uma visão secularizada, utilitária e ideológica, completamente incompatível com a antropologia cristã.
São João Paulo II, na mesma Mulieris Dignitatem, alerta contra essas distorções, ao afirmar que a mulher “não deve imitar o homem, mas descobrir a própria vocação na verdade do próprio ser” (MD, 10). O feminismo, ao nivelar tudo por baixo e buscar uma falsa igualdade baseada em funções e não em dignidade, atenta contra o plano de Deus e contra o verdadeiro gênio feminino. Em vez de libertar, escraviza a mulher a modelos artificiais de poder e autoafirmação. A Igreja, ao contrário, exalta a mulher no que ela tem de mais próprio: sua capacidade de gerar vida, formar almas e refletir a ternura divina.
A história da Igreja não pode ser contada sem as mulheres. Seria como querer falar da Redenção sem mencionar Maria. A maternidade espiritual, a virgindade consagrada, o martírio corajoso, o ensino teológico, a caridade missionária — todos esses são caminhos trilhados por mulheres que, com firmeza e ternura, ajudaram a manter viva a fé católica ao longo dos séculos.