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Crédito: Vatican Media
Poucos temas geram tanta polêmica quanto a ordenação de mulheres. Para uns, trata-se de uma questão de direitos e igualdade; para a Igreja Católica, é uma questão de fidelidade àquilo que Cristo instituiu. O problema é que muita gente olha para o sacerdócio como se fosse uma carreira ou cargo de prestígio, quando na verdade se trata de um sacramento que carrega um significado simbólico e teológico profundo. A Igreja não está livre para “mexer” em um sacramento como quem altera um regulamento humano. Ela apenas guarda aquilo que recebeu.
Jesus não era refém das convenções sociais do seu tempo. Ele falava com mulheres em público, defendia-as diante de acusações injustas, confiou a uma mulher (Maria Madalena) o anúncio da Ressurreição. Ou seja, se quisesse ter incluído mulheres entre os Doze, Ele o faria. Mas não o fez. E os Apóstolos mantiveram esse gesto ao instituírem sucessores e colaboradores no ministério ordenado, escolhendo sempre homens. Esse dado não é acidental. Faz parte do modo como Cristo quis constituir o sinal sacramental do sacerdócio.
O sacerdócio não é uma questão de poder, mas de serviço configurado a Cristo Cabeça da Igreja. O ministro ordenado é sinal de Cristo Esposo que se entrega à sua Esposa, a Igreja. Por isso, a Igreja ensina que somente um homem pode receber validamente a ordenação (Catecismo, n. 1577). Aqui não se trata de “machismo institucional”, mas de coerência simbólica: o sacramento exige uma correspondência visível entre o sinal e aquilo que significa. Diferenciar funções não significa inferiorizar pessoas. A própria Virgem Maria, sem ser apóstola, recebeu a missão mais elevada que uma criatura poderia ter: gerar o Filho de Deus. Se Maria não foi ordenada, fica claro que dignidade e ordenação não são sinônimos.
Reduzir a contribuição feminina à questão da ordenação é ignorar a história do cristianismo. As mulheres foram protagonistas desde o início: as primeiras testemunhas da Ressurreição foram mulheres; Santa Catarina de Sena influenciou papas; Santa Teresa de Ávila reformou a vida religiosa; Santa Teresinha do Menino Jesus é doutora da Igreja. Sem falar em incontáveis religiosas, místicas, catequistas e leigas que sustentaram comunidades inteiras quando não havia padres por perto. Hoje, a maioria dos agentes pastorais, catequistas e missionários leigos são mulheres. A Igreja não sobrevive sem elas — e nunca sobreviveu.
A questão não ficou em aberto. Em 1976, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou a declaração Inter Insigniores, explicando por que a Igreja não se considera autorizada a ordenar mulheres. Em 1994, São João Paulo II publicou Ordinatio Sacerdotalis, afirmando de maneira definitiva: “A Igreja não tem, de modo algum, a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres”. No ano seguinte, a Congregação para a Doutrina da Fé confirmou que essa doutrina deve ser mantida “de modo definitivo”. Não se trata, portanto, de uma “opção disciplinar” que possa mudar conforme os ventos culturais.
O problema é que o mundo moderno entende igualdade como “fazer exatamente as mesmas coisas”. Mas, na visão cristã, igualdade está ligada à dignidade, não à função. Homens e mulheres são igualmente dignos, igualmente salvos, igualmente chamados à santidade — mas cada um com vocações e missões distintas. Exigir que mulheres sejam ordenadas para que sejam consideradas “iguais” é comprar a lógica do mundo: só é importante quem manda, quem aparece, quem está no altar. É esquecer que o maior no Reino dos Céus é aquele que serve.
E aqui vale uma provocação: por que tantos grupos feministas, que em grande parte nem acreditam na Igreja ou na autoridade do Papa, fazem questão de exigir mudanças em uma instituição cujo fundamento eles rejeitam? Se não acreditam na Eucaristia, por que se importar com quem a celebra? Se não aceitam a estrutura sacramental, por que querer entrar nela? Há uma contradição aí: busca-se transformar a Igreja para que ela se adapte a um paradigma secular, quando, na verdade, ela existe precisamente para ser sinal de algo que transcende esse paradigma.
Dito isso, há sim espaço para discutir a participação feminina na Igreja. Ampliar o reconhecimento e a valorização das mulheres em papéis de liderança administrativa, no ensino, na teologia e nas decisões pastorais não apenas é possível, como já está em curso. O Papa Francisco, por exemplo, nomeou mulheres para cargos importantes na Cúria Romana e abriu novos espaços de atuação. Nada disso muda a doutrina do sacerdócio, mas mostra que a Igreja pode e deve valorizar a contribuição feminina em todos os níveis — sem cair na armadilha de confundir igualdade com uniformidade.
A recusa da ordenação feminina não nasce de preconceito, mas de fidelidade a uma tradição que remonta ao próprio Cristo e aos Apóstolos. Ignorar isso é olhar para a Igreja com os olhos de uma empresa ou instituição política. A lógica da Igreja é sacramental e não pode ser redefinida a partir de pressões culturais. O desafio não é convencer a Igreja a mudar o que não pode mudar, mas reconhecer o papel gigantesco que as mulheres já têm e sempre terão na missão da Igreja. Defender isso não é retrocesso: é permanecer fiel àquilo que dá sentido à fé católica desde os primeiros séculos.