USD | R$5,0317 |
|---|
Crédito: Reprodução da Internet
A Quaresma é um tempo litúrgico riquíssimo, marcado por um chamado à metanoia — à conversão do coração — por meio do jejum, da oração e da caridade. A prática da penitência, nesse contexto, é entendida como um exercício de participação na Paixão de Cristo. Mas permanece uma pergunta recorrente entre os fiéis mais atentos: é apropriado manter práticas penitenciais aos domingos da Quaresma, ou isso contraria a teologia litúrgica do Domingo como “Dia do Senhor“?
A centralidade do domingo na vida cristã é uma herança apostólica. Desde os primeiros tempos, os cristãos reuniam-se no primeiro dia da semana para celebrar a Eucaristia, memorial da Ressurreição do Senhor. São Justino Mártir, no século II, testemunha:
“No dia chamado domingo, todos se reúnem […] porque é o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, criou o mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos” (Apologia, I, 67).
O Catecismo da Igreja Católica (n. 2174-2177) reforça que o domingo é “fundamento e núcleo de todo o ano litúrgico”, devendo ser vivido com alegria e abstendo-se de práticas que contradigam seu caráter festivo.
A Quaresma se inspira, entre outros episódios bíblicos, nos quarenta dias de Cristo no deserto. Durante esse tempo, a Igreja propõe um caminho de purificação interior que nos prepara para os mistérios pascais. No entanto, os 40 dias são calculados excluindo-se os domingos, uma prática consolidada no Ocidente desde o século VII.
Como explica o Papa Bento XVI:
“O tempo da Quaresma é um caminho espiritual de quarenta dias que não inclui os domingos, pois esses são sempre a celebração da Páscoa semanal” (Audiência Geral, 1º de março de 2006).
Isso não significa que os domingos estejam “fora” da Quaresma, mas que neles a Igreja atenua o rigor penitencial, pois neles “não se pode jejuar, pois é o dia do Senhor” — como já advertia Tertuliano, no século III.
Embora os domingos da Quaresma não imponham jejum ou abstinência obrigatória, a penitência pessoal, feita com discernimento e liberdade, é sempre válida e meritória. Santo Tomás de Aquino ensina:
“A penitência é uma virtude que inclina a alma a detestar o pecado cometido, com o propósito de reparar o dano causado, unindo-se à paixão de Cristo” (Suma Teológica, II-II, q. 84).
Portanto, manter pequenas renúncias aos domingos pode ser uma forma legítima de perseverança ascética, contanto que não contrarie a natureza festiva do dia, nem conduza ao rigorismo. Como ensina São Leão Magno:
“Mesmo durante os jejuns mais severos, o domingo conserva sempre sua dignidade de dia de alegria” (Sermão sobre a Quaresma, 40, PL 54, 259).
A liturgia da Igreja é sábia em seu equilíbrio: orienta, mas não oprime; ensina, mas deixa espaço para o discernimento espiritual. O Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia (n. 126) afirma claramente:
“Embora os domingos pertençam ao tempo quaresmal, eles não têm um caráter propriamente penitencial, devendo conservar sempre sua nota de alegria pascal.”
Dessa forma, o fiel é livre para manter certas penitências nos domingos da Quaresma, como forma de fidelidade interior ao propósito assumido, mas sempre com humildade, sem transformá-las em regra para si ou para os outros.
A Quaresma é tempo de cruz, sim, mas sempre iluminada pela esperança pascal. Como nos lembra São João Paulo II:
“Não se pode separar a cruz da Ressurreição. Vivamos a penitência com os olhos fixos em Cristo glorificado, que venceu o pecado e a morte” (Mensagem para a Quaresma, 2001).