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Crédito: Reprodução da Internet (Via: Padre Paulo Ricardo)
Poucos episódios na história recente da Igreja Católica carregam tanto peso simbólico e espiritual quanto a famosa visão de Leão XIII, ocorrida em 13 de outubro de 1884. Trata-se de um evento misterioso, cercado de testemunhos de pessoas próximas ao Papa, e que deu origem a práticas litúrgicas importantes, como a Oração a São Miguel Arcanjo, composta pelo próprio Pontífice. Neste artigo, vamos explorar de forma detalhada, rigorosa e fiel ao Magistério o que se sabe sobre essa visão, seus desdobramentos e sua relevância para a vida da Igreja.
O final do século XIX foi um período de intensas perseguições ideológicas contra a Igreja. O avanço do laicismo, o crescimento das ideologias materialistas como o socialismo e o comunismo nascente, além do espírito anticlerical que tomava conta de vários governos europeus, já sinalizavam uma luta espiritual sem precedentes.
Leão XIII, Papa de 1878 a 1903, era um homem profundamente atento aos sinais dos tempos. Intelectual refinado, mas também místico discreto, foi o autor de encíclicas históricas como a Rerum Novarum, que tratou da questão social à luz da Doutrina Social da Igreja.
O episódio ocorreu após o Papa celebrar a Missa matutina em sua capela particular, no Vaticano. Conforme testemunhos, Leão XIII teria ficado repentinamente imóvel ao final da Missa, com o olhar fixo, como se estivesse em êxtase ou em uma visão. Seu rosto empalideceu, e, segundo relatos, ele permaneceu assim por cerca de 10 minutos.
Após recuperar-se, o Papa dirigiu-se imediatamente ao seu escritório e redigiu a famosa oração a São Miguel Arcanjo, ordenando que fosse recitada ao final de todas as Missas baixas no mundo inteiro. Esta prescrição foi posteriormente oficializada no final de 1886.
O próprio Leão XIII não escreveu uma descrição detalhada da visão, mas fontes próximas a ele, incluindo secretários papais e membros da Cúria, transmitiram o conteúdo. Entre os relatos mais confiáveis e frequentemente citados está o do Pe. Domenico Pechenino, publicado na revista Ephemerides Liturgicae em 1947.
Segundo os relatos mais aceitos, o Papa teria ouvido uma conversa entre Satanás e Nosso Senhor. O demônio, num diálogo semelhante ao que encontramos no Livro de Jó (cf. Jó 1-2), pediu a Deus um período de 100 anos de maior poder sobre a terra, alegando que conseguiria destruir a Igreja. Cristo, segundo a visão, concedeu-lhe esse tempo de prova.
“Eu não me lembro da data exata. Era de manhã cedo. O Papa Leão XIII tinha acabado de celebrar a Santa Missa e estava assistindo a uma Missa de ação de graças como de costume. De repente, o vimos levantar a cabeça com uma expressão horrível, fixando algo acima da cabeça do celebrante. Ele permanecia assim, sem se mover, mas com o rosto pálido e aterrorizado. Algo extraordinário estava acontecendo com ele. Por fim, como voltando a si, ele se levantou rapidamente e dirigiu-se ao seu escritório. Logo depois, mandou chamar o Secretário da Congregação dos Ritos e entregou-lhe, escrito de próprio punho, a oração a São Miguel, com a ordem de que fosse recitada após todas as Missas rezadas.“
O fruto mais concreto e imediato da visão foi a formulação da Oração a São Miguel Arcanjo, que passou a ser rezada universalmente pela Igreja:
“São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, sede o nosso refúgio contra as maldades e ciladas do demônio. Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos; e vós, Príncipe da Milícia Celeste, pelo poder divino, precipitai no inferno a Satanás e a todos os espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém.“
Este texto, de uma força teológica e espiritual impressionante, revela claramente o entendimento de Leão XIII sobre a natureza da luta espiritual que se travaria nas décadas seguintes.
A partir da concessão dos 100 anos, os estudiosos da tradição católica passaram a ver o século XX como um período de prova e purificação para a Igreja.
De fato, os 100 anos seguintes foram marcados por:
Teólogos como o Cardeal Giacomo Biffi e o Cardeal Ratzinger (futuro Bento XVI) não deixaram de relacionar as provações do século XX com um combate espiritual descrito na visão de Leão XIII.
Teologicamente, a ideia de Deus permitir um tempo de provação não é nova. A Escritura está repleta de episódios em que o Senhor, em sua pedagogia divina, permite ao demônio certas ações limitadas para testar e purificar os fiéis.
O próprio Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2851, ao comentar o “livrai-nos do mal” do Pai Nosso, diz claramente:
“Neste pedido, o mal não é uma abstração, mas designa uma pessoa, Satanás, o Maligno, o anjo que se opõe a Deus. O ‘diabo’ (dia-bolos) é aquele que ‘se atravessa’ no desígnio de Deus e em sua obra de salvação realizada em Cristo.“
Ou seja, a luta espiritual é reconhecida, afirmada e ensinada pelo Magistério.
É importante notar que, embora a recitação obrigatória da oração a São Miguel ao final da Missa tenha sido suspensa na reforma litúrgica pós-Concílio, vários Papas recentes encorajaram os fiéis a retomarem-na.
O Papa João Paulo II, em 1994, disse:
“Peço a todos que não deixem de recitar esta oração, pedindo a ajuda de São Miguel Arcanjo na luta contra as forças das trevas e contra o espírito deste mundo.“
A visão de Leão XIII permanece como um poderoso alerta espiritual. Ela não deve ser interpretada com medo irracional, mas com sobriedade, consciência e confiança na promessa de Cristo:
“As portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mt 16,18)
A história da Igreja é, por definição, uma história de combate. Desde o princípio, ela foi perseguida, caluniada, infiltrada e testada. No entanto, permanece de pé, porque sua cabeça é Cristo e seu guia visível é o Sucessor de Pedro.
Como recomendação pastoral, a tradição da Igreja sempre nos orienta a manter:
A visão de Leão XIII nos recorda: a batalha é real. Mas a vitória já está assegurada.