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Crédito: Reprodução da Internet
A história da Sagrada Escritura na Igreja Católica é inseparável da figura de São Jerônimo e de sua monumental obra: a Vulgata. Por mais de um milênio, a Vulgata foi a Bíblia oficial da Igreja, o texto de referência para a liturgia, para os Concílios, para a teologia escolástica, para a pregação e para a vida espiritual de toda a cristandade ocidental. Entender sua origem, sua autoridade e sua permanência é compreender uma das colunas da Tradição católica.
No século IV, o Cristianismo já havia se espalhado por todo o Império Romano. O grego ainda era a língua mais comum no Oriente, mas no Ocidente, o latim se tornava cada vez mais a língua dominante. Havia muitas traduções da Bíblia em latim, conhecidas genericamente como “Vetus Latina” ou “Antiga Latina“. Essas versões, feitas de forma independente por vários tradutores, eram muitas vezes imprecisas, inconsistentes e repletas de erros.
A situação começava a causar confusão doutrinária e litúrgica. Era necessário um texto bíblico uniforme, fiel aos originais e linguística e teologicamente sólido. O Papa São Dâmaso I, consciente da gravidade do problema, tomou uma decisão ousada e providencial: incumbiu São Jerônimo, um dos maiores estudiosos de sua época, de realizar uma nova tradução da Bíblia para o latim.
São Jerônimo monge, eremita, exegeta e profundo conhecedor do hebraico, do grego e do latim, aceitou a tarefa com grande zelo, mas não sem dificuldades. Ele tinha plena consciência da responsabilidade que estava assumindo. Em sua famosa carta ao Papa Dâmaso, Jerônimo não esconde sua preocupação com as críticas que certamente receberia, mas reafirma sua obediência ao Papa.
Jerônimo começou com os Evangelhos, depois os Salmos e, finalmente, o Antigo Testamento. Importante destacar: Jerônimo não se baseou apenas na Septuaginta (a tradução grega das Escrituras), mas, para o Antigo Testamento, consultou os textos hebraicos originais, algo raro e ousado na época. Por esse motivo, sua tradução traz maior precisão filológica em relação às fontes judaicas.
Ele também teve o cuidado de seguir o que a Tradição e a Igreja consideravam inspirados, mantendo os livros deuterocanônicos, que mais tarde os protestantes viriam a rejeitar.
O nome “Vulgata” vem do latim versio vulgata, que significa “versão comum” ou “divulgada”. A expressão começou a ser usada séculos depois da morte de Jerônimo, mas a ideia era clara: era a versão que, com o tempo, se tornou de uso universal na Igreja Latina.
A autoridade da Vulgata não se impôs de um dia para o outro. Ela foi sendo gradualmente acolhida em toda a cristandade ocidental, substituindo as antigas versões latinas. Sua clareza, sua elegância e, acima de tudo, sua fidelidade aos textos originais, fizeram dela o texto bíblico de referência para toda a vida da Igreja.
Durante a Idade Média, a Vulgata foi o texto usado em todos os Concílios, como o de Latrão, o de Lião, o de Constança, entre outros. Foi com base nela que os grandes doutores da Igreja, como Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e São Boaventura, fundamentaram suas obras teológicas.
No século XVI, durante a Reforma Protestante, a autoridade da Vulgata foi oficialmente reafirmada pela Igreja no Concílio de Trento (1545–1563). Contra os ataques de Lutero e outros reformadores, que rejeitaram a Vulgata e promoveram traduções tendenciosas das Escrituras, o Concílio declarou:
“Além disso, para conter os espíritos indisciplinados, estabelece-se que, em matéria de fé e costumes, concernente à edificação da doutrina cristã, ninguém se fie em outras interpretações que não sejam as aprovadas pela Igreja, nem use outras edições senão a antiga e vulgar edição que foi aprovada pelo longo uso da Igreja” (Concílio de Trento, Sessão IV, Decreto sobre a edição e o uso das Sagradas Escrituras).
Aqui, a Igreja reconheceu oficialmente a Vulgata como a edição autêntica da Bíblia para o uso litúrgico, dogmático e teológico.
Por séculos, a Liturgia da Missa – incluindo o próprio rito da Missa Tridentina (Missa de São Pio V) – foi celebrada com a Vulgata como texto bíblico oficial. As leituras da Missa, os Salmos do Breviário, os textos usados nos rituais sacramentais: tudo vinha da Vulgata.
Quando o sacerdote pronunciava as palavras da Consagração, ou quando entoava os Salmos na Liturgia das Horas, era a Vulgata que lhe dava a linguagem. O povo católico, mesmo os que não sabiam ler, aprendia as frases da Escritura ouvidas nos sermões, nas missas e nas devoções, todas elas impregnadas da cadência e da força do latim da Vulgata.
Com o passar dos séculos, surgiram diversas edições da Vulgata, algumas com pequenos erros de cópia acumulados ao longo do tempo. No século XVI, São Pio V e, posteriormente, Clemente VIII, promoveram revisões para garantir maior fidelidade aos manuscritos mais antigos. Daí surgiram as edições chamadas “Vulgata Clementina”.
Já no século XX, o Concílio Vaticano II, fiel à tradição, reconheceu a importância de uma revisão que levasse em conta os avanços da crítica textual, mas sem romper com a tradição da Vulgata. Assim nasceu a Nova Vulgata, promulgada por São João Paulo II em 1979 com a Constituição Apostólica Scripturarum Thesaurus.
A Nova Vulgata não é uma nova tradução, mas uma revisão oficial da Vulgata, atualizada linguística e textualmente para corrigir imperfeições históricas, sempre com o cuidado de preservar o espírito, o vocabulário e a teologia do texto de São Jerônimo. Ela continua sendo, até hoje, o texto latino oficial da Igreja Católica.
É essencial entender que a Vulgata, durante mais de mil anos, não foi apenas “mais uma versão da Bíblia”. Ela moldou o pensamento teológico, formou a liturgia, inspirou a mística medieval e foi o texto de referência de dezenas de santos, doutores e papas.
O Magistério reconheceu que o uso prolongado e universal da Vulgata, unido ao assentimento da Igreja, fez dela um verdadeiro marco da Tradição. Como ensina o Papa Bento XV, na Encíclica Spiritus Paraclitus (1920):
“São Jerônimo é modelo para todos os estudiosos da Sagrada Escritura… A Igreja reconhece na Vulgata uma tradução venerável, que, por seu uso secular, foi aprovada como tal.“
O testemunho da Vulgata continua sendo um farol seguro. Ela nos lembra que a Palavra de Deus não é objeto de modismos editoriais, mas um depósito sagrado transmitido fielmente de geração em geração. Ela ainda é a base para as traduções de muitas bíblias, principalmente nas línguas latinas.
A Vulgata foi, e em muitos sentidos continua sendo, a língua com a qual a Igreja rezou, cantou e ensinou a fé por mais de um milênio. Uma verdadeira herança espiritual que une os católicos de hoje ao coro de santos, mártires e doutores que a leram e meditaram antes de nós.