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Crédito: Reprodução da Internet
A fé católica não se sustenta sobre mitos, metáforas ou arquétipos psicológicos. Ela se apoia em fatos históricos, reais, concretos e objetivos. Um desses fatos, talvez um dos mais desprezados pelo pensamento moderno, é este: Adão e Eva existiram de verdade. Eles foram pessoas reais, de carne e osso, com alma criada diretamente por Deus, com vontade e liberdade.
Negar isso — ainda que com roupagem “pastoral” ou linguagem “poética” — não é uma questão de interpretação inocente. É um golpe direto na estrutura da fé cristã, com consequências devastadoras para a doutrina do pecado original, da Redenção e da própria Encarnação de Cristo.
O ensinamento da Igreja sobre o pecado original é claro, definitivo e inegociável. O Concílio de Trento (1546), que combateu com firmeza as heresias protestantes, declarou solenemente:
“Se alguém afirmar que a prevaricação de Adão o prejudicou apenas a ele e não à sua descendência […], seja anátema.”
(Concílio de Trento, Sessão V, cân. 2)
Isso significa: Adão cometeu um pecado pessoal, real, histórico, e os efeitos desse pecado foram transmitidos a todos os homens. Essa transmissão não é apenas uma influência cultural ou social. É uma realidade ontológica, que atinge a própria natureza humana.
A humanidade inteira nasceu em estado de privação da graça, e só em Cristo — o Novo Adão — essa situação é revertida.
São Paulo, na Carta aos Romanos, constrói toda a teologia da Redenção sobre o contraste entre o primeiro Adão e Cristo, o Novo Adão:
“Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram […]. Mas, se pela falta de um só morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom concedido por um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes em favor de muitos.“
(Romanos 5,12-15)
Se Adão não existiu, então a doutrina da Redenção de Cristo perde sua lógica interna. Cristo veio reparar o quê? Salvar quem? Libertar o homem de que queda, se essa queda nunca aconteceu?
A relação entre os dois é inseparável. Negar a existência histórica de Adão é corroer as bases da Cristologia, da Soteriologia e até da própria Eclesiologia.
Outro erro comum — infelizmente até em círculos católicos mal formados — é tratar Eva como uma espécie de “personagem poética”, um símbolo da feminilidade genérica ou coisa parecida. Nada disso.
A Igreja ensina claramente que Eva foi uma pessoa real, criada por Deus a partir de Adão, como narra o Gênesis. O Catecismo afirma:
“A Igreja […] ensina que nossos primeiros pais, Adão e Eva, foram constituídos num estado de santidade e justiça originais.”
(CIC, 375)
A queda não foi um “conto moral”. Foi um fato histórico, fruto de uma escolha livre, feita por um casal de verdade. Ambos ouviram a serpente. Ambos desobedeceram. Ambos foram expulsos do Paraíso.
Essa verdade é fundamental, inclusive, para compreender a figura de Maria, a Nova Eva.
A Tradição da Igreja, desde os primeiros séculos, enxergou em Maria a contraparte redentora de Eva. Onde Eva disse “não” a Deus, Maria disse “sim”.
Santo Irineu de Lyon, um dos Padres da Igreja do século II, escreveu:
“O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. O que a virgem Eva atou pela incredulidade, a Virgem Maria desatou pela fé.”
(Contra as Heresias, III, 22,4)
Assim como Cristo é o Novo Adão, Maria é a Nova Eva. Ambos redimem aquilo que o primeiro casal destruiu. A teia da Redenção é tecida com fios reais, históricos, concretos.
Aqui é preciso ser direto: a Igreja nunca foi inimiga da ciência. O que ela combate — e com razão — são as ideologias travestidas de ciência que pretendem ditar a fé.
O Papa Pio XII, na encíclica Humani Generis (1950), permitiu que se estudasse a possibilidade de que o corpo humano tenha tido uma origem evolutiva. Mas fez duas ressalvas não negociáveis:
Ele adverte:
“Os fiéis não podem abraçar a opinião de que, depois de Adão, existiram na terra verdadeiros homens que não procedessem dele por geração natural […].”
(Humani Generis, nº 37)
Ou seja: é permitido investigar o “como” do corpo humano, mas não se pode negar o “quem” e o “porquê” de nossa origem.
Negar o monogenismo (isto é, a origem da humanidade a partir de um único casal) não é um detalhe técnico. É heresia formal, porque destrói a doutrina da transmissão do pecado original.
A confusão em torno da historicidade de Adão e Eva não é um debate acadêmico inofensivo. É uma das portas de entrada para uma série de erros graves: relativização do pecado, negação da necessidade da graça, banalização da Redenção, esvaziamento do valor do Batismo.
Quando alguém diz que Adão e Eva são “apenas símbolos”, o que está dizendo — no fundo — é que Cristo também pode ser apenas um símbolo, e que o pecado original pode ser apenas um conceito psicológico coletivo. Isso é puro veneno modernista.
A fé católica é realista, histórica e objetiva. Deus criou, o homem caiu, Cristo redimiu, e Maria cooperou. Tudo isso aconteceu de verdade.
Negar a realidade histórica de Adão e Eva é abrir um buraco no alicerce da fé cristã. Não se trata de uma questão aberta ao debate. É ponto de fé, reafirmado por concílios, papas, santos, doutores da Igreja e pelo Magistério ordinário e universal.
A Igreja não tem medo da ciência verdadeira. Mas também não se ajoelha diante de modismos acadêmicos. A verdade revelada por Deus é superior a qualquer teoria que amanhã pode ser desmentida pela própria ciência.
Adão e Eva existiram. Eles caíram. Por isso, Cristo veio.