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Muito além de uma simples “mesa”, o altar é o ponto de convergência entre o céu e a terra, entre o Antigo e o Novo Testamento, entre o Calvário e a Missa. Reduzir o altar a uma plataforma simbólica ou funcional é um erro grave que desfigura a essência do culto católico. Este artigo apresenta, com profundidade e rigor, a origem, o desenvolvimento e a doutrina da Igreja sobre o altar, com especial atenção ao seu caráter de sacrifício, como expressão real do Sacrificio de Cristo.
A palavra “altar” vem do latim altare, que por sua vez é uma forma culta de altarium, derivada de altus (elevado, alto), mas com forte conotação ligada ao sacrifício. No latim clássico e litúrgico, o termo estava estreitamente associado aos locais onde se realizavam sacrifícios com sangue, especialmente em contextos religiosos.
No Antigo Testamento, a palavra hebraica que corresponde a altar é mizbeach, derivada da raiz z-b-h, que significa “sacrificar” — portanto, já traz em si a ideia de morte sacrificial. Assim, desde a revelação veterotestamentária, o altar nunca foi meramente simbólico, mas o lugar sagrado onde o sangue era derramado diante de Deus como sinal de expiação, comunhão ou aliança.
Exemplo bíblico: “Então Noé edificou um altar ao Senhor, e, tomando de todos os animais puros e de todas as aves puras, ofereceu holocaustos sobre o altar.” (Gn 8,20)
Na Antiga Aliança, o altar era essencialmente um local de sacrifício expiatório e ritual. Havia basicamente dois tipos principais:
Era o centro do culto no Tabernáculo e, posteriormente, no Templo de Jerusalém. Era lá que os sacerdotes levitas ofereciam sacrifícios segundo os preceitos dados por Deus a Moisés. O altar era santificado com sangue (cf. Lv 8,15), e dele se dizia que era “santo dos santos” (cf. Êx 29,37).
“Sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb 9,22)
Ou seja: o altar não é um palco, nem uma mesa de reunião. É o lugar do sacrifício.
Cristo, o verdadeiro Cordeiro pascal, ofereceu-Se em sacrifício na Cruz, cumprindo e superando todos os sacrifícios da Antiga Lei. A Cruz é, por excelência, o altar do Novo Testamento.
“Temos um altar do qual não têm direito de comer os que servem ao tabernáculo.” (Hb 13,10)
No entanto, a Igreja, desde os tempos apostólicos, compreendeu que o Sacrifício de Cristo na Cruz se torna sacramentalmente presente na Santa Missa, e, portanto, era necessário que o altar fosse mantido como lugar de sacrifício — agora incruento, mas real.
O Concílio de Trento é explícito:
“No sacrifício da Missa, o mesmo Cristo que Se ofereceu uma vez a Si mesmo de modo sangrento sobre o altar da cruz está contido e é imolado de modo incruento” (Conc. de Trento, Sess. XXII, cap. 2).
Portanto, o altar cristão não é mero símbolo: ele é o próprio Calvário tornado presente, o trono do Cordeiro, o lugar onde o Céu toca a terra. Aqui se realiza, sacramentalmente, o único e eterno Sacrifício de Cristo.
A tradição católica sempre tratou o altar com reverência extrema. Os Padres da Igreja falam dele com linguagem elevada e liturgicamente densa:
A Tradição manteve e reafirmou essa teologia do altar como lugar sacrossanto, consagrado com o crisma, contendo relíquias de mártires e reservado exclusivamente ao Sacrifício da Missa.
É verdade que o altar também cumpre uma função de “mesa”, especialmente no simbolismo da Última Ceia. Mas a Ceia não foi um jantar simbólico: foi a antecipação sacramental da Cruz.
O Catecismo da Igreja Católica ensina:
“O altar, ao redor do qual a Igreja se reúne na celebração da Eucaristia, representa os dois aspectos do mesmo mistério: o altar do sacrifício e a mesa do Senhor” (CIC, 1383).
Ou seja: nunca foi “só mesa”, mas altar e mesa, com primado do sacrifício. Não é lugar de encontro horizontal, mas de adoração vertical. E por isso, sempre se manteve a prática de fazer o altar de pedra, elevado, e orientado para o Oriente ou para o crucifixo, simbolizando a direção da oferenda ao Pai.
O Missal Romano de 1962 afirma:
“O altar é o lugar onde se realiza o Sacrifício da Cruz, tornado presente de modo incruento, e é, por isso, o centro e coração do templo.”
Infelizmente, nas últimas décadas houve uma tendência de minimizar o caráter sacrifical do altar, colocando ênfase quase exclusiva em seu aspecto de “mesa da partilha”. Isso leva a uma perda do senso do sagrado, uma teatralização da liturgia e, muitas vezes, a um esvaziamento da doutrina da Presença Real e do Sacrifício da Missa.
O Papa Bento XVI, em sua exortação Sacramentum Caritatis, advertiu:
“É necessário evitar interpretações redutivas do altar como uma simples mesa: é necessário redescobrir o seu significado profundo de lugar do sacrifício, do qual brota a comunhão” (SC, n. 66).
Também o Papa Leão XIII, já no século XIX, dizia:
“A Missa não é uma mera comemoração, mas um verdadeiro sacrifício, renovado sobre o altar, e por isso, o altar é lugar santíssimo.” (Caritatis Studium, 1898)
O altar católico não é e nunca foi apenas uma mesa. Ele é:
Desconhecer ou ignorar isso é trair o núcleo do culto católico, pois sem sacrifício, não há Missa; e sem altar, não há sacrifício.
Revalorizar o altar como altare — lugar santo de sangue redentor — é não apenas um ato de justiça histórica, mas uma urgente necessidade doutrinal e espiritual para os nossos tempos confusos. Que possamos, com reverência, nos prostrar diante do altar, como os mártires, os anjos e os santos sempre fizeram.
“Subirei ao altar de Deus, do Deus que alegra minha juventude.” (Sl 42,4)