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Crédito: PMNH/Divulgação
O silêncio tomou conta de escolas municipais e particulares em Novo Hamburgo nos dias 8 e 11 de agosto. A decisão de suspender as aulas foi tomada pela Prefeitura após receber, em 7 de agosto, um alerta sobre uma possível ameaça de atentado contra escolas, sem que fosse possível identificar qual rede ou unidade estaria na mira. A Secretaria Municipal de Educação, em conjunto com a Brigada Militar e a Guarda Municipal, optou por agir preventivamente.
A medida atingiu toda a rede municipal, e boa parte da rede particular também aderiu, como foi o caso de escolas ligadas à Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), que suspenderam as atividades no dia 8. Já as escolas estaduais seguiram funcionando normalmente, conforme decisão da Secretaria de Educação do Estado.
Paralelamente, a Prefeitura solicitou que a população não alimentasse rumores, pedindo “cautela na divulgação de informações não confirmadas” para evitar pânico. Além disso, cidades vizinhas, como Estância Velha, também suspenderam as aulas municipais, adotando postura semelhante. A investigação sobre a origem e a veracidade da ameaça segue em andamento.
O gesto da Prefeitura foi recebido de maneira dividida. De um lado, pais e responsáveis elogiaram a precaução; de outro, houve críticas sobre a possibilidade de que a suspensão das aulas possa normalizar o medo e enfraquecer a rotina escolar.
Desde 2022, o Brasil viu crescer o número de ameaças e ataques a instituições de ensino, fenômeno amplificado pelas redes sociais. Nesse contexto, não é apenas a segurança física que está em jogo, mas também a saúde emocional de estudantes e professores. A decisão de Novo Hamburgo reflete o dilema das administrações públicas: agir com prudência diante de um risco ainda não comprovado ou manter o funcionamento normal, correndo o risco de arrependimento caso o pior aconteça.
A questão, no entanto, transcende a política e a gestão pública: toca diretamente o princípio fundamental da dignidade da vida humana. O Catecismo da Igreja Católica afirma no §2258: “A vida humana é sagrada, porque, desde o seu início, comporta a ação criadora de Deus e permanece para sempre em relação especial com o Criador, seu único fim.” Essa doutrina dá à prudência um valor não apenas técnico, mas moral.
São João Paulo II, na encíclica Evangelium Vitae (n. 3), sublinha: “A vida humana é sagrada, porque, desde o seu início, comporta a ação criadora de Deus.” A decisão de paralisar atividades escolares para preservar vidas, ainda que temporariamente, encontra respaldo nessa visão.
Além disso, a virtude da prudência, definida no §1806 do Catecismo como “a reta razão no agir”, orienta líderes a discernir e escolher os meios adequados para proteger o bem comum. Diante de uma ameaça, ainda que não confirmada, a escolha de interromper a rotina escolar pode ser entendida como expressão concreta dessa virtude.
A história oferece exemplos eloquentes de como a ação preventiva salvou vidas. Durante a Segunda Guerra Mundial, cidades europeias evacuaram escolas inteiras diante de alertas de bombardeio que, em alguns casos, não se concretizaram, mas evitaram tragédias irreversíveis. No Brasil, em 2019, uma série de ameaças a escolas em Goiás levou autoridades a reforçar protocolos de segurança, incluindo a evacuação preventiva, que se tornou padrão em situações de risco.
Esses episódios ecoam a parábola do Bom Pastor (Jo 10,11-15), que abandona as noventa e nove ovelhas no aprisco para buscar a que corre perigo. A lógica é clara: diante da possibilidade de perda, mesmo sem certeza, o cuidado preventivo é a opção moralmente superior.
Proteger a vida não é dever exclusivo do Estado. Pais, educadores, comunidade e imprensa têm papel fundamental na gestão de crises como essa. O Papa Francisco, na Fratelli Tutti (n. 198), recorda que “o cuidado é mais que um ato; é uma atitude. Implica atenção, solicitude e compromisso”. Essa “cultura do cuidado” é antídoto contra a violência, pois promove responsabilidade compartilhada.
No caso de Novo Hamburgo, as consequências práticas incluem a revisão dos planos de segurança escolar, investimento em monitoramento e treinamento de equipes. Há também um aspecto psicológico: alunos e professores podem sentir-se inseguros ao retornar, e será necessária atenção pastoral e pedagógica para restaurar a confiança.
No plano espiritual, situações como essa recordam a urgência de educar para a paz e para a responsabilidade mútua. Não se trata apenas de evitar um ataque, mas de formar cidadãos que rejeitem a violência e cultivem a defesa da vida em todas as circunstâncias.
As imagens de portões fechados e corredores vazios, em pleno período letivo, são um lembrete silencioso de que a vida é frágil e preciosa. A prudência que preserva vidas é preferível ao arrependimento tardio — e, como ensina São João Bosco, patrono da juventude: “A primeira felicidade de um jovem é saber-se seguro.”
A decisão de Novo Hamburgo pode gerar desconforto, debates e até críticas, mas, à luz da doutrina e da história, ela se alinha ao princípio de que a proteção da vida está acima de qualquer outra prioridade. Em tempos de incerteza, talvez o maior sinal de coragem seja justamente parar — para garantir que todos possam seguir vivendo e aprendendo amanhã.