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Crédito: Rafael Ribeiro/CBF
A tão aguardada estreia de Carlo Ancelotti à frente da Seleção Brasileira aconteceu nesta quinta-feira, diante do Equador, em Guayaquil, pela 15ª rodada das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2026. A partida terminou empatada por 0 a 0 e marcou o início oficial do trabalho do técnico italiano, que chega cercado de expectativas, consagrado por sua trajetória vitoriosa na Europa, mas diante de um desafio inédito: reconduzir o Brasil à sua tradicional grandeza no cenário mundial após anos de instabilidade.
Desde o apito inicial, o que se viu foi uma Seleção disposta, mas longe de estar entrosada. O Brasil tentou assumir o controle das ações ofensivas, mas esbarrou numa equipe equatoriana organizada, jogando com intensidade e marcação firme. Apesar de contar com jogadores de alto nível, como Vinícius Júnior e Casemiro, o time teve dificuldades na criação e abusou das jogadas individuais, sem encontrar soluções coletivas eficazes.
O primeiro tempo foi marcado por uma oportunidade clara desperdiçada por Vinícius Júnior, que parou no goleiro Gonzalo Valle após jogada rápida pela esquerda. Do lado equatoriano, a chance mais perigosa veio num lance anulado por impedimento, que chegou a assustar a defesa brasileira. O 0 a 0 ao intervalo refletia fielmente o que se viu em campo: um duelo truncado, com mais transpiração do que inspiração.
Nesse jogo de estreia, Ancelotti optou por uma formação no 4-3-3, bem familiar ao que costuma adotar em clubes europeus. Alisson foi o goleiro titular, com uma linha defensiva composta por Vanderson na lateral-direita, Marquinhos e Alexsandro na zaga, e Alex Sandro na esquerda. O meio de campo contou com Casemiro como volante mais fixo, auxiliado por Bruno Guimarães e Gerson, enquanto o trio ofensivo foi formado por Estêvão, Richarlison e Vinícius Júnior.
A escolha de Estêvão, jovem promessa do futebol brasileiro, chamou a atenção. No entanto, o atacante teve uma atuação apagada, sentindo o peso da responsabilidade em sua primeira grande missão com a amarelinha. Richarlison, centralizado no ataque, pouco participou, e Vinícius, embora ativo, teve dificuldades em finalizar as jogadas com efetividade. No meio, Casemiro teve atuação segura na marcação, mas faltou articulação — ponto que deixou evidente uma lacuna na construção ofensiva.
A postura de Ancelotti na beira do campo foi, como já se esperava, discreta e serena. O italiano assistiu à maior parte do jogo trocando poucas palavras com a comissão técnica. O estilo frio e analítico do treinador contrasta com o habitual fervor de técnicos brasileiros, e essa diferença de perfil tem gerado curiosidade e comentários diversos entre torcedores e analistas.
Ainda assim, o que mais pesou nessa estreia foi a atuação da equipe. O Brasil terminou o jogo com 56% de posse de bola e 11 finalizações, mas apenas duas foram no alvo. O Equador finalizou mais vezes (14), mas também teve dificuldade em furar o bloqueio brasileiro. O empate acabou sendo justo, mas não apagou a frustração de quem esperava um início mais contundente sob novo comando.
Como era previsível, as redes sociais reagiram intensamente à estreia de Ancelotti. Muitos torcedores mostraram-se compreensivos, entendendo que trata-se apenas do primeiro jogo de um trabalho que precisa de tempo. Outros, no entanto, não esconderam o desapontamento com a falta de ousadia e de identidade da equipe em campo.
A presença de Ancelotti, por si só, gerou surpresa e expectativa. Imagens do técnico caminhando com calma, de terno e mascando chiclete, viralizaram durante a transmissão. Muitos brincaram com a “paz italiana” do treinador diante do habitual caos emocional da torcida brasileira. Um comentário recorrente foi: “Ancelotti não faz milagre — mas vamos ver até onde vai a paciência do povo.”
Apesar das críticas, a audiência da partida foi alta. A TV Globo registrou picos expressivos de audiência durante o jogo, alcançando os melhores números da Seleção nos últimos meses. O interesse renovado pela Seleção, após meses de desânimo e desconfiança, ficou evidente.
O empate não alterou drasticamente a posição do Brasil na tabela: a Seleção soma agora 22 pontos e permanece na quarta colocação, atrás da Argentina (1º), Equador (2º) e Uruguai (3º). Vale lembrar que os seis primeiros colocados garantem vaga direta para a Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, México e Canadá.
A próxima partida está marcada para o dia 10 de junho, contra o Paraguai, na Neo Química Arena, em São Paulo. O jogo marcará a primeira atuação da equipe sob o comando de Ancelotti em solo brasileiro — e trará, junto com isso, uma nova leva de expectativas e pressão.
A missão de Ancelotti não é pequena. Assumir a Seleção Brasileira em meio a um ciclo de reconstrução, após campanhas decepcionantes em Copas e uma sequência de trocas de técnicos, exige mais do que conhecimento tático. Exige sensibilidade, liderança e a capacidade de fazer florescer uma nova mentalidade no grupo. A estreia não foi empolgante, mas deixou claro onde estão os pontos frágeis que precisam ser trabalhados: entrosamento, criatividade no meio-campo e mais contundência no ataque.
Como o próprio Ancelotti já declarou em entrevistas, o processo será progressivo. E talvez esse primeiro jogo tenha sido menos uma demonstração de força e mais um diagnóstico: a Seleção tem talento, mas carece de estrutura. O treinador tem experiência de sobra — resta saber se terá tempo, liberdade e apoio suficientes para moldar uma Seleção digna da camisa que carrega.