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Crédito: Reprodução da Internet
Para quem vive num mundo cada vez mais virtual, a ideia de venerar um pedaço de tecido usado por um santo pode parecer, à primeira vista, superstição ou sentimentalismo. Mas no coração da tradição católica, as relíquias são sinais concretos de uma fé que se encarna, toca, transforma. E entre essas relíquias, as chamadas “ex indumentis” – literalmente, “das vestes” – ocupam lugar especial: são fragmentos de roupas ou objetos pessoais de santos, impregnados pela graça da intimidade com Deus.
A base doutrinal da veneração de relíquias está na fé católica na ressurreição da carne e na santificação da matéria. Deus se fez carne. O Espírito Santo age por meio da matéria nos sacramentos. E os corpos dos santos – e tudo o que com eles teve contato – tornam-se veículos da graça divina. Como ensina o Concílio de Trento, “os corpos santos dos mártires e dos demais santos […] devem ser venerados pelos fiéis, pois por eles Deus realiza muitos benefícios” (Sess. XXV).
As relíquias de terceira classe (objetos tocados em relíquias) são comuns. Mas as ex indumentis são relíquias de segunda classe – verdadeiros objetos pessoais do santo, usados em sua vida. Vestes litúrgicas, mantos, batinas, véus, faixas, sapatos… Itens que acompanharam o santo na oração, no sofrimento, na penitência e na caridade. Quando o fiel tem acesso a um fragmento legítimo ex indumentis, tem em mãos algo que participou do cotidiano de santidade de alguém que já vê Deus face a face.
Ao longo da história, há relatos abundantes de tecidos de santos exalando perfume inexplicável – o chamado “odor de santidade.” É o caso, por exemplo, de Santa Teresa d’Ávila, cujos mantos foram descritos como portadores de um aroma místico, mesmo séculos após sua morte. Da mesma forma, fragmentos das roupas de São Padre Pio, guardadas em luvas ou pedaços de batina, foram associados a curas, conversões e libertações espirituais.
O Código de Direito Canônico (Cân. 1190) proíbe a venda de relíquias sagradas, sob pena de excomunhão. Isso vale inclusive para relíquias ex indumentis. A Igreja permite que fiéis tenham relíquias legítimas e as venerem, mas condena veementemente o comércio religioso abusivo, muito comum hoje na internet. A Congregação para as Causas dos Santos (2017) reafirmou que relíquias de segunda classe autênticas devem vir com certificado oficial, lacradas, e não podem ser vendidas nem reproduzidas de forma ilícita.
Infelizmente, hoje é comum encontrar pedaços de pano vagamente identificados como “ex indumentis” sendo vendidos a rodo por sites ou comerciantes espertos (o que é extremamente errado, já que relíquias verdadeiras não podem, de forma alguma, ser vendidas). Muitos sequer foram tocados a uma relíquia verdadeira. Isso, além de fraude, é sacrilégio. E o fiel deve ser instruído a discernir, venerar com fé e jamais colecionar com curiosidade mundana.
Não se trata de superstição medieval. Nos Atos dos Apóstolos (19,11-12), lemos: “Deus realizava milagres extraordinários por meio de Paulo, a tal ponto que levavam aos enfermos lenços ou aventais que haviam tocado seu corpo, e as doenças os deixavam, e os espíritos malignos saíam deles.” Ou seja: desde os primórdios da Igreja, já havia a consciência de que Deus pode agir através dos objetos físicos de Seus santos.
Santo Agostinho, bispo de Hipona, no livro A Cidade de Deus (XXII, 8), relata diversos milagres ligados a relíquias, incluindo tecidos. E explica que, embora a matéria não tenha poder em si, Deus se serve dela como sinal e instrumento, como já faz nos sacramentos. Isso afasta toda acusação de idolatria e mostra que a Igreja sempre distinguiu entre culto de adoração (a Deus) e culto de veneração (aos santos e suas relíquias).
Ter uma relíquia ex indumentis é um lembrete físico da comunhão dos santos, artigo de fé do Credo Niceno. É também um convite à santidade: “Se este pano carregou um santo, que diferença faz se eu o venero, mas não imito?” Mais do que um amuleto ou relíquia decorativa, trata-se de uma presença espiritual real que pode tocar a alma e elevar o coração.