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Crédito: Reprodução da Internet
Ao longo do ano litúrgico, a Igreja Católica nos convida a viver tempos fortes de oração e reflexão sobre aspectos essenciais da fé. Agosto, no Brasil, tornou-se de forma especial o mês das vocações, um período em que a comunidade é chamada a rezar e a refletir sobre o chamado de Deus para cada pessoa, seja à vida sacerdotal, à vida consagrada, ao matrimônio ou à missão leiga. Trata-se de um tempo de renovação da consciência vocacional, que não é uma “campanha” passageira, mas uma dimensão constitutiva da vida cristã
A palavra “vocação” vem do latim vocare, que significa “chamar”. Desde o Antigo Testamento, Deus se apresenta como Aquele que chama pelo nome e envia em missão: “Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia; antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado” (Jr 1,5). No Novo Testamento, esse chamado encontra sua plenitude em Cristo, que diz: “Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi” (Jo 15,16). O Magistério recorda que a vocação é sempre iniciativa de Deus, que suscita no coração humano a graça necessária para corresponder com liberdade e amor. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium (n. 39-42), reforça que todos os batizados são chamados à santidade, e este é o fundamento de qualquer vocação específica.
No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) instituiu agosto como o mês das vocações na década de 1980, inspirada na necessidade de cultivar, de forma mais intensa, a oração e a promoção vocacional. A escolha se relaciona ao calendário litúrgico, que em suas semanas apresenta datas emblemáticas: a primeira semana é dedicada ao sacerdócio ministerial e ao Dia do Padre (4 de agosto, memória de São João Maria Vianney); a segunda semana é dedicada à vocação matrimonial e à família, celebrando o Dia dos Pais; a terceira semana contempla a vida consagrada, no Dia da Assunção de Nossa Senhora (15 de agosto); e a quarta semana recorda a vocação dos ministérios e serviços leigos. Essa organização pastoral é expressão concreta do que afirma São João Paulo II na Pastores Dabo Vobis: a Igreja é toda vocacionada e cada estado de vida contribui de modo insubstituível para sua missão.
Na primeira semana de agosto, a Igreja no Brasil volta seu olhar ao sacerdócio ministerial, lembrando que o padre é “outro Cristo” (alter Christus) no meio do povo, chamado a oferecer sua vida como sacrifício espiritual e a ser canal da graça nos sacramentos. São João Maria Vianney, patrono dos párocos, dizia: “O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus”. Esse amor exige fidelidade, vida de oração intensa e entrega total, como ensina o Catecismo da Igreja Católica (n. 1562-1568). O mês das vocações nos recorda a importância de rezar pelas vocações sacerdotais e de apoiar aqueles que se preparam para este ministério.
Na segunda semana, a Igreja destaca a beleza da vocação ao matrimônio. Longe de ser apenas um contrato humano, o matrimônio é sacramento instituído por Cristo, no qual o homem e a mulher são chamados a ser sinal vivo do amor de Cristo por sua Igreja (cf. Ef 5,25-33). A Familiaris Consortio de São João Paulo II ensina que a família é a “igreja doméstica”, onde a fé é transmitida e cultivada. Celebrar a vocação matrimonial em agosto é reafirmar que o amor conjugal, vivido segundo o Evangelho, é caminho de santidade e serviço à vida.
A terceira semana de agosto é dedicada à vida consagrada — religiosa ou secular — que testemunha no mundo a realidade última para a qual todos somos chamados: a união plena com Deus. Os votos de pobreza, castidade e obediência, assumidos por religiosos e religiosas, são sinais proféticos que questionam a lógica do mundo e anunciam a primazia de Deus. A Vita Consecrata recorda que a vida consagrada é “memória viva do modo de existir e agir de Jesus” (n. 22). Celebrar essa vocação no mês de agosto é reconhecer o papel indispensável desses homens e mulheres que, seguindo Cristo de modo radical, mantêm viva a chama da esperança escatológica.
A quarta semana lembra a vocação laical, que não é “menor” nem secundária. Pelo Batismo e pela Crisma, os leigos participam do tríplice múnus de Cristo — sacerdotal, profético e real — e são chamados a consagrar o mundo a Deus, agindo no campo da política, da cultura, da economia e das realidades temporais (cf. Apostolicam Actuositatem, n. 2). Agir no mundo sem se mundanizar é o grande desafio do leigo católico, que deve ser fermento evangélico na sociedade.
O mês das vocações é um tempo privilegiado de oração, reflexão e ação pastoral, mas seu espírito deve se prolongar durante todo o ano. A Igreja nos recorda, na Christifideles Laici (n. 58), que cada batizado tem uma missão única e insubstituível. Mais do que eventos e celebrações, este mês é um apelo para que cada fiel se coloque diante de Deus e pergunte com sinceridade: “Senhor, que queres de mim?”. E que, como a Virgem Maria, cada um responda: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).