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Crédito: Reprodução da Internet
Amar é dar a própria vida por alguém. Cristo, na cruz, entregou tudo de Si por cada um de nós. Mais do que um sentimento, o amor é uma escolha: a decisão de permanecer ao lado de alguém mesmo diante das dificuldades e imperfeições, independentemente dos erros, e sem buscar apenas o consolo dos acertos. A personificação do amor é Jesus — aquele que deu a vida pelos que o feriram e o mataram. Amar é doação, é sacrifício, é dor. Não busca o contentamento próprio, mas sim a alegria do outro. A recompensa do amor é a felicidade genuína em ver o ser amado feliz, o que não está dissociado do sofrimento e do sacrifício.
Tendo isso em vista, a atual polêmica em torno dos bebês reborn traz à tona questões sérias ligadas à saúde mental, à ética e à moral — especialmente quando observadas sob a perspectiva da fé católica.
Mães de bebês reborn têm exigido direitos semelhantes aos das mães de bebês reais, alegando que os bonecos podem ser considerados filhos, tanto quanto uma criança humana. Em muitos casos, essas peças de silicone e plástico têm sido tratadas com mais zelo e dignidade do que o próprio ser humano. Enxovais, brinquedos, atendimento médico e até mesmo disputas judiciais pela guarda de bonecas são fatos que têm acontecido no mundo real.
Esse cenário levanta inúmeras questões: tais atitudes revelam algum resquício de sanidade? O que leva alguém a acreditar que uma boneca tem a mesma dignidade de um ser humano? Onde nos perdemos a ponto de substituir pessoas reais por objetos inanimados?
A gravidade dessa inversão se torna ainda mais evidente quando comparada à polêmica do aborto. Há quem defenda que, até a 12ª semana de gestação, o feto não é uma vida e, portanto, pode ser eliminado. Ora, se há tanto empenho em desumanizar um ser humano em formação, como é possível, ao mesmo tempo, exigir tratamento humano a um boneco de silicone? Qual é a lógica de se defender o aborto enquanto se humaniza uma boneca?
A Igreja Católica é clara sobre a dignidade do ser humano desde a concepção:
“A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta desde o momento da concepção.” (Catecismo da Igreja Católica, §2270).
Muitas das pessoas que se identificam como “mães reborn” estão, na verdade, tentando preencher um vazio existencial. Existe uma busca por amor, mas onde encontrá-lo? Amar verdadeiramente dói. Por isso, muitos procuram evitar o sofrimento. “Amar” uma boneca não exige sacrifício nem renúncia: é cômodo, é fácil. O problema é que isso não é amor verdadeiro. Na tentativa de preencher um vazio, acabam por se refugiar em vazios ainda maiores. Há uma profunda incompreensão sobre o que é, de fato, o amor.
A psiquiatra italiana Mariolina Ceriotti Migliarese, especializada em afetividade e família, afirma:
“O amor real nos faz crescer, mas nos obriga a sair de nós mesmos. É uma ferida que purifica. Quando se evita a dor a todo custo, acaba-se evitando também o verdadeiro encontro com o outro.”
Há uma vertente da psicologia que utiliza bonecas em terapias para lidar com o luto, especialmente quando uma mãe perde um filho. Embora essa prática possa ter alguma utilidade temporária, surge a questão: até que ponto isso é saudável? O uso terapêutico não pode se transformar em substituição afetiva permanente. Isso gera um apego emocional a um objeto inanimado, que jamais poderá substituir o filho perdido. Ao invés de elaborar o luto e superá-lo, há uma transferência da dor para o objeto — um desvio que impede o enfrentamento real da perda.
Estudos publicados pela American Psychological Association alertam para o risco da dissociação emocional e da fuga da realidade quando há uma identificação exagerada com objetos, especialmente em contextos de trauma não resolvido.
A chamada “onda reborn” tem levado diversos profissionais a se posicionarem. Já existem relatos de pais reborn buscando atendimento jurídico e médico para os bonecos. Algumas autoridades precisaram intervir para proibir que o sistema público de saúde desperdice recursos com “pacientes” que não são reais. A Igreja, por sua vez, também tem se posicionado: diversos padres relataram recusas a pedidos de batismo de bonecas.
É importante lembrar que:
“Os sacramentos são instituídos por Cristo e confiados à Igreja; são sinais eficazes da graça e não podem ser reduzidos a simbologias afetivas sem referência à realidade sacramental.” (Catecismo da Igreja Católica, §1131)
Não se trata de crueldade ou exclusão, mas de fidelidade à verdade e ao sentido profundo dos sinais sagrados. A sacralidade das coisas de Deus não pode ser manipulada de acordo com os desejos subjetivos de cada um.
Enquanto isso, há quem tente lucrar com essa realidade distorcida, oferecendo cursos para “cuidadores reborn” ou cobrando por serviços de babá para bonecas, com preços exorbitantes. Trata-se de um mercado que cresce alimentado por uma sociedade ferida, mas também por interesses financeiros, algo moralmente questionável, especialmente à luz da fé, porém não tão absurd quanto a situação que se desenrola diante de nossos olhos.
Quais são os desdobramentos, tanto pessoais quanto sociais, desse fenômeno? Vemos um aumento da autorreferência, da ausência de amor verdadeiro — tanto para consigo quanto para com o próximo —, do egoísmo, da desumanização e da perda do valor intrínseco do ser humano. E tudo isso ainda vem disfarçado de amor, empatia, aceitação e outros adjetivos que perderam completamente seu significado original.
O ser humano se tornou descartável. As pessoas passaram a dar lugar ao que não é real, talvez numa tentativa desesperada de fugir do sofrimento e preencher o vazio que as assombra. Elas tentam tornar reais fantasias de um mundo perfeito e indolor. Mas aqui na terra, esse mundo não existe.
O verdadeiro sentido da vida só se encontra em Deus. Nesta vida, o sofrimento sempre existirá, mas a felicidade também. E ela não reside na ausência da dor, mas no sentido redentor e salvífico que ela pode assumir.
“O sofrimento, unido ao de Cristo, pode tornar-se meio de purificação e de salvação para si e para os outros.” (Catecismo da Igreja Católica, §1521)
Na cruz, encontramos o mistério que transforma a dor em alegria: realizar a vontade de Deus. Tudo o que Ele permite tem um sentido maior e é para o nosso bem. Aqueles que não enfrentam a dor, que não aprendem com ela, que não enfrentam seus traumas e medos, jamais encontrarão forças para lutar, tampouco desenvolverão virtudes e nunca sairão do sofrimento vazio e sem sentido.
Quem não ama está condenado a ser refém de si mesmo — e, por isso, nunca conhecerá a verdadeira liberdade.
Chesterton dizia:
“Chegará o tempo em que teremos de afirmar o óbvio — dizer que a grama é verde e o céu é azul.”
Esses tempos chegaram. E o mais sombrio é que, mesmo ao dizer o óbvio, muitos não acreditam e não enxergam a realidade.