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Crédito: Getty Images/Divulgação
A sexta-feira, tradicionalmente marcada pelo jejum e abstinência de carne na vida da Igreja, assume uma tonalidade absolutamente singular quando inserida na Oitava da Páscoa. A Oitava é um prolongamento litúrgico da Solenidade da Ressurreição do Senhor, e cada um de seus dias é celebrado como uma solenidade pascal, como um “grande domingo”. Por isso, inclusive a sexta-feira da Oitava da Páscoa não é um dia penitencial: é dia de alegria, festa e triunfo da vida sobre a morte.
Na tradição litúrgica da Igreja, as grandes solenidades possuem uma “Oitava”, ou seja, um prolongamento festivo que dura oito dias. A Páscoa, sendo a maior de todas as solenidades – a festa das festas, como ensina o Catecismo da Igreja Católica (CIC §1169) – é celebrada com máxima solenidade durante oito dias consecutivos, da Ressurreição (Domingo de Páscoa) até o Domingo da Divina Misericórdia.
Durante a Oitava, cada dia tem o mesmo valor litúrgico do Domingo de Páscoa. Por isso, o tom da liturgia é festivo, com canto do Glória, Aleluia, velas acesas, paramentos brancos e o total abandono de práticas penitenciais.
Desde tempos antigos, a Igreja Católica consagrou as sextas-feiras como dias de penitência, recordando a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, ocorrida numa sexta-feira. A abstinência de carne tornou-se, então, uma prática comum e, em muitos tempos e lugares, obrigatória. O Código de Direito Canônico, em seu cânon 1250, ensina:
“Todos os fiéis, cada qual a seu modo, estão obrigados por lei divina a fazer penitência; para que todos estejam unidos por alguma prática comum de penitência, foram designados os dias penitenciais nos quais os fiéis se dediquem de modo especial à oração, pratiquem obras de piedade e de caridade, neguem-se a si mesmos, cumprindo fielmente suas próprias obrigações e observando, sobretudo, o jejum e a abstinência, segundo as normas dos cânones seguintes.”
E o cânon 1251 complementa:
“Guarde-se a abstinência de carne ou de outro alimento, segundo as prescrições da Conferência Episcopal, em todas as sextas-feiras do ano, a não ser que coincidam com um dia assinalado como solenidade.”
Aqui está o ponto crucial: quando uma sexta-feira coincide com uma solenidade, a obrigação da penitência desaparece. É o caso da sexta-feira da Oitava da Páscoa.
Sim. A Instrução Geral do Missal Romano (IGMR) e o Calendário Litúrgico Universal reconhecem que todos os dias da Oitava da Páscoa têm o grau litúrgico de solenidade. Isso significa que:
A alegria da Ressurreição domina absolutamente tudo. A Liturgia das Horas, por exemplo, não inclui os salmos penitenciais e substitui orações por hinos pascais. Na Missa, canta-se o Glória, omite-se o Ato Penitencial e as leituras exaltam o Cristo Ressuscitado.
Portanto, a sexta-feira da Oitava da Páscoa não é um dia de abstinência, e comer carne nesse dia não constitui pecado, mas é plenamente lícito – e, de certa forma, até coerente com a espiritualidade da Ressurreição.
Os documentos magisteriais confirmam essa realidade litúrgica. Vejamos dois exemplos concretos:
E, como vimos no Código de Direito Canônico, as sextas-feiras que coincidem com solenidades não são dias penitenciais.
Comer carne na sexta-feira da Oitava da Páscoa não é, portanto, um relaxamento espiritual, mas uma expressão de coerência litúrgica com o Mistério celebrado. Não se trata de “dispensa”, mas de reconhecimento da própria natureza festiva desse tempo.
A Igreja, como Mãe e Mestra, ensina que a penitência é importante, mas que a celebração da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte deve ser plena, até nos pequenos gestos, como o que colocamos à mesa.
Celebrar com alegria, comer com gratidão, reunir a família ao redor da mesa e testemunhar a Ressurreição em tudo – inclusive no alimento – é um modo legítimo de viver a liturgia com o corpo e o espírito.
A sexta-feira da Oitava da Páscoa não é um “intervalo penitencial” entre os dias da festa, mas parte integrante da própria festa. É dia de exultar, de elevar o coração, de celebrar com toda a alma e todo o corpo.
Se Cristo venceu a morte, a tristeza e o jejum cederam lugar à alegria e ao banquete. A carne neste dia não é símbolo de rebeldia, mas de comunhão com a festa eterna do Ressuscitado. É um eco do banquete das bodas do Cordeiro, do qual participamos desde já na Eucaristia e que se prolonga para além da morte.