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Crédito: Reprodução da Internet
Poucos aspectos da fé católica são tão mal compreendidos por quem está de fora – e até por alguns dentro da Igreja – quanto a prática de rezar pelos mortos. Acusada injustamente de ser uma invenção medieval ou uma superstição popular, essa prática, na verdade, está solidamente enraizada nas Sagradas Escrituras, na Tradição Apostólica e no Magistério infalível da Igreja. Trata-se de um dever de caridade, de justiça e de misericórdia com aqueles que partiram desta vida em amizade com Deus, mas que ainda precisam de purificação para alcançar a visão beatífica.
Antes de qualquer acusação de que a oração pelos defuntos seria um acréscimo tardio à fé cristã, é preciso recorrer às Escrituras. No Antigo Testamento, o episódio mais claro se encontra em 2 Macabeus 12,38-46. Judas Macabeu manda oferecer um sacrifício pelos soldados mortos, reconhecendo que eles haviam cometido pecado ao usar amuletos pagãos:
“Mandou-lhes que pedissem perdão pelos pecados cometidos, a fim de que fossem libertos de sua culpa. Pois, se Judas não tivesse esperança da ressurreição dos que tinham morrido, teria sido supérfluo e vão orar pelos mortos.” (2Mac 12, 42-44)
Este texto não apenas legitima a oração pelos mortos, como a liga diretamente com a fé na ressurreição e na vida eterna.
No Novo Testamento, embora de forma mais velada, o ensinamento está implícito na doutrina sobre o julgamento particular (Hebreus 9,27), na purificação necessária (1Coríntios 3,15) e na misericórdia esperada por Onesíforo, a quem São Paulo deseja que o Senhor conceda misericórdia “naquele dia” (2Timóteo 1,16-18).
Desde os tempos mais antigos, os primeiros cristãos rezavam pelos mortos. Já no século II, São Clemente de Alexandria e Tertuliano testemunham esta prática. No século III, São Cipriano de Cartago reforça essa tradição. Santo Agostinho, um dos maiores Doutores da Igreja, escreveu com clareza:
“É costume não apenas da Igreja, mas também uma tradição dos Apóstolos, que se ofereça o Sacrifício da Missa pelos mortos.” (Santo Agostinho, Confissões, Livro IX)
O testemunho de Santo Agostinho sobre sua própria mãe, Santa Mônica, é comovente e doutrinariamente preciso. Pouco antes de morrer, ela pediu ao filho apenas uma coisa:
“Enterrai este corpo em qualquer lugar; não vos preocupeis com isso. Apenas, lembrai-vos de mim no altar do Senhor, onde quer que estejais.” (Confissões, IX, 11)
Se já no século IV os cristãos rezavam pelos mortos e ofereciam o Santo Sacrifício da Missa por suas almas, é porque esta prática não era inovação, mas continuação da fé apostólica.
O Catecismo da Igreja Católica (CIC) é categórico sobre o dever de rezar pelos falecidos:
“A Igreja, desde os primeiros tempos, honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em favor deles, sobretudo o Santo Sacrifício Eucarístico, para que, purificados, possam alcançar a visão beatífica de Deus.” (CIC, §1032)
O Concílio de Trento (1545-1563), que definiu dogmaticamente a existência do Purgatório, reafirmou a importância das orações pelos mortos:
“Há um Purgatório, e as almas nele retidas são ajudadas pelos sufrágios dos fiéis, mas principalmente pelo sacrifício do altar.” (Concílio de Trento, Decreto sobre o Purgatório, Sessão XXV)
Também o Papa Bento XVI, em sua encíclica Spe Salvi, reforça que a oração pelos mortos é uma expressão concreta de amor e de comunhão dos santos:
“Nenhum homem é uma ilha, nenhum vive sozinho, nenhum peca sozinho e nenhum se salva sozinho. A nossa existência está em comunhão com os outros, no bem como no mal. Assim, a oração pelos outros é um caminho eficaz de purificação.” (Spe Salvi, n. 48)
A resposta católica tradicional é simples e direta: por causa do Purgatório.
A doutrina do Purgatório afirma que, embora as almas destinadas ao Céu estejam salvas, muitas delas ainda precisam passar por uma purificação final antes de contemplar a Deus face a face. Trata-se de uma realidade de justiça e de misericórdia ao mesmo tempo.
São Gregório Magno, no século VI, deixou bem claro:
“Em relação a certas faltas leves, deve-se crer que existe um fogo purificador, antes do juízo final.” (Diálogos, Livro IV)
Essa purificação é dolorosa, mas é um sinal da bondade de Deus que não quer que nenhuma mancha de pecado entre em Sua presença. E aqui entra a nossa responsabilidade: como membros do Corpo Místico de Cristo, podemos e devemos ajudar os que já partiram.
Nenhuma oração é mais poderosa em favor dos falecidos do que a Santa Missa. O Concílio Vaticano II reafirma:
“A Igreja oferece sufrágios pelos defuntos, sobretudo o sacrifício eucarístico, para que, purificados, possam chegar à visão de Deus.” (Lumen Gentium, n. 50)
O Catecismo retoma este ensinamento, como já citado, e os santos ao longo da história atestaram o valor incomensurável de cada Missa oferecida por uma alma do Purgatório. São Padre Pio de Pietrelcina, por exemplo, dizia que:
“Mais almas do Purgatório sobem ao Céu durante uma Santa Missa do que em todas as outras orações feitas por elas.”
Além da Missa, outras formas de sufrágio são válidas e eficazes: indulgências aplicáveis aos defuntos, o Terço da Misericórdia, o Ofício dos Defuntos, o Rosário e, claro, a tradicional oração:
“Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno, e a luz perpétua os ilumine. Descansem em paz. Amém.”
Deixar de rezar pelos mortos não é apenas uma omissão de caridade, mas também uma falha contra a justiça. Afinal, muitos de nós carregamos dívidas espirituais com aqueles que nos precederam. Pais, avós, amigos, conhecidos – quantas graças recebemos deles? Quantas vezes fomos sustentados pelas orações daqueles que hoje estão na eternidade?
Se crermos verdadeiramente no dogma da Comunhão dos Santos, temos o dever de agir como Igreja militante: interceder incessantemente por aqueles que estão na Igreja padecente.
O Papa Leão XIII, em sua encíclica Mirae Caritatis, relembra:
“Os fiéis têm o dever de oferecer sufrágios e orações, sobretudo o Santo Sacrifício da Missa, pelos que morreram na graça de Deus, mas ainda purificam-se das penas devidas aos seus pecados.”
Rezar pelos mortos é a vivência concreta do mistério da Comunhão dos Santos. Eles já não podem merecer, não podem escolher, não podem acelerar a própria purificação. Mas nós podemos interceder. As nossas orações, obras de caridade, penitências e, sobretudo, as Missas, ajudam a encurtar o tempo de purificação dessas almas.
Como diz a tradição da Igreja, a caridade não termina na morte. Pelo contrário: ela atravessa a morte e continua ativa na eternidade.
Ignorar os mortos é romper com a lógica da Comunhão dos Santos. Abandoná-los ao esquecimento é uma tragédia espiritual.
A falta de oração pelos mortos, na prática, é sinal de duas coisas: ou ignorância da doutrina, ou falta de fé na vida eterna e no poder da intercessão.
Rezar por eles é um gesto de amor que atravessa os muros do tempo e da eternidade. É um ato de justiça, um dever de caridade e uma prova de fé naquilo que professamos no Credo: “Creio na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna.”
Rezar pelos mortos não é opcional para o católico fiel à Tradição. É um ato de fé na vida eterna, de esperança na misericórdia de Deus e de caridade com aqueles que não podem mais ajudar a si mesmos.
Se crermos na eternidade, se realmente levarmos a sério o que professamos no Credo, então rezar pelos defuntos é uma das formas mais concretas e eficazes de viver a nossa fé.