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Crédito: Reprodução da Redes Sociais (Instagram Cavalheiro Verardo)
Por trás de cada livro vendido a cinco reais, havia um homem com uma máquina de escrever na alma e uma fé silenciosa na eternidade das palavras. Cavalheiro Verardo Neto não é apenas um nome – é uma história feita de calçadas gastas, agendas rabiscadas, versos soprados ao vento e uma confiança inabalável em Jesus Cristo.
Nascido em 1957, em São Vicente de Minas, cresceu com o coração povoado por uma sensibilidade rara. Ainda adolescente, descobriu um dom silencioso que logo ganharia forma em versos. Aos 16 anos, começou a escrever poesia. Aos 20, publicou seu primeiro livro, Um mar sem margens, enquanto cursava Odontologia em Araçatuba. Foi o início de uma travessia onde as palavras seriam barco, bússola e destino.
A vida profissional como cirurgião-dentista foi cumprida com responsabilidade, mas nunca ofuscou a chama criativa que ardia constante. Entre um atendimento e outro, era nas margens das agendas que ele desenhava suas poesias, como quem secretamente desenha janelas num mundo de muros.
Em 2010, aposentou-se. Não para descansar, mas para respirar ainda mais profundamente a literatura. Hoje, aos 67 anos, soma 49 livros físicos e um e-book — entre poesias, crônicas, trovas, romances, livros infantis e religiosos. Uma produção impressionante que não brota de prêmios ou salões literários, mas da rua, da fé e da coragem de continuar.
Durante anos, foi pelas calçadas que ele colheu o sustento da sua arte. Carregava seus livros de porta em porta, vendia de mão em mão, encarando a desconfiança, o silêncio, o cansaço. Criativo, passou a estampar marcas de pequenos comércios nas contracapas dos livros. Cada colaborador doava dez ou vinte reais, e o dinheiro servia para imprimir novos exemplares, vendidos a preços simbólicos. Mas o gesto era sempre maior que o valor: cada venda era um pequeno milagre que mantinha o sonho respirando. Ainda hoje vende seus livros pela internet e pelas ruas de Ribeirão Preto.

Um dia, no fim da década de 1970, levou seus livros a um evento, esperançoso. Deixou-os sobre uma mesa. Saiu por instantes. Quando voltou, não havia mais nenhum. Roubaram todos. Foi um dos episódios mais marcantes de sua vida. Não pela perda material, mas pela brutalidade do descaso. Ainda assim, não desistiu.
“Minha vida está nas mãos de Jesus Cristo“, repete com serenidade. Não como frase feita, mas como convicção profunda de quem aprendeu a viver entre o suor e a esperança, entre a poesia e a Providência. A fé não é só tema nos seus textos; é chão, é ar, é farol.
Suas histórias, quase todas fictícias, são tecidas com respeito e delicadeza. Falem elas de infância, juventude, dor ou alegria, carregam um sopro de humanidade e uma leveza que só a simplicidade consegue oferecer. Seus livros são, como ele mesmo diz, para todos os públicos – porque foram escritos por alguém que respeita profundamente cada olhar que cruza.
Cavalheiro escreve como respira: com naturalidade, com esperança, com amor. Não busca holofotes. Sua glória está na persistência, na humildade, na fidelidade ao dom que lhe foi dado. Aos 67 anos, ele segue como menino: ainda sonha, ainda cria, ainda acredita. Um cavaleiro das letras que nunca perdeu de vista o horizonte. Um senhor de passos lentos, mas de alma veloz.
E quem o encontrar vendendo um livro na rua ou postando uma nova poesia nas redes sociais, não encontrará apenas um autor. Encontrará um homem que fez da vida uma página em branco e da fé, a caneta.