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Crédito: Marcelo Camargo / Agência Brasil
O crescente surto de sarampo na Bolívia acendeu o alerta nas autoridades sanitárias brasileiras. Com mais de 60 casos confirmados no país vizinho só neste ano, o Ministério da Saúde reagiu com firmeza, lançando uma megaoperação de vacinação nas regiões de fronteira. A primeira frente foi aberta no Acre, com o chamado “Dia D” realizado nos dias 15 e 16 de julho, mobilizando sete municípios que fazem divisa direta com o território boliviano.
Acrelândia, Assis Brasil, Brasileia, Capixaba, Epitaciolândia, Plácido de Castro e Xapuri foram os alvos iniciais da ação, que uniu vacinação, capacitação técnica e vigilância ativa. A meta é clara: impedir que o vírus ultrapasse a fronteira e se estabeleça em território nacional, como já ocorreu em outros momentos da história recente.
O plano brasileiro vai muito além da simples aplicação de doses. Ele envolve um microplanejamento minucioso que considera características populacionais, rotas migratórias, polos escolares binacionais e até o fluxo de brasileiros que estudam ou trabalham na Bolívia. O foco está em crianças de 6 a 11 meses — que recebem uma dose extra da tríplice viral — e em adultos até 59 anos que estejam com o esquema vacinal incompleto.
A vacinação é acompanhada de treinamentos para profissionais de saúde, fornecimento de materiais informativos às populações locais e mapeamento de áreas com cobertura vacinal abaixo dos 95%, índice mínimo recomendado para garantir imunidade coletiva.
Num gesto de diplomacia sanitária, o governo brasileiro, com apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), doou 600 mil doses de vacina à Bolívia. A remessa, composta por 300 mil doses de tríplice viral e 300 mil de dupla viral, foi entregue em Corumbá (MS), na divisa com Puerto Suárez, no último dia 12 de julho. A iniciativa busca ajudar o país vizinho a conter o surto em seu próprio território, o que, na prática, também protege o Brasil.
Até meados de julho, 2,4 milhões de doses de vacina contra o sarampo foram aplicadas no Brasil em 2025. Ao todo, o país recebeu mais de 12 milhões de doses para abastecer a rede pública neste ano. Apesar do esforço, cinco casos já foram registrados em solo brasileiro — dois no Rio de Janeiro, um em São Paulo, um no Distrito Federal e um no Rio Grande do Sul. Todos têm vínculo com viagens internacionais, sem evidências de transmissão comunitária.
No continente americano, a situação é mais preocupante: 7.132 casos confirmados de sarampo e 13 mortes, em sua maioria entre crianças não vacinadas. Os dados são da OPAS e revelam que a cobertura vacinal ainda é insuficiente em muitos países da região, inclusive em áreas críticas do próprio Brasil.
Após perder o status de país livre do sarampo em 2019, devido à baixa adesão vacinal e à reintrodução do vírus, o Brasil só voltou a ser recertificado em 2024. A conquista foi celebrada como um marco, mas também como um lembrete: a vigilância não pode parar. A meta atual é manter a cobertura acima de 95% em todos os municípios, especialmente nas regiões vulneráveis e de difícil acesso.
De acordo com o Ministério da Saúde, o público-alvo das campanhas de reforço inclui:
A orientação é que mesmo quem já teve a doença ou acredita estar imunizado procure um posto de saúde para confirmar sua situação vacinal.
O sarampo não é uma doença do passado. Altamente contagioso, ele pode causar complicações graves, como pneumonia, encefalite e até a morte. O retorno da enfermidade representa não apenas um risco à saúde pública, mas um retrocesso simbólico num país que já foi referência mundial em imunização.
A ação brasileira nas fronteiras é, portanto, mais do que uma campanha: é um cerco epidemiológico para proteger vidas, evitar tragédias silenciosas e reafirmar o compromisso do Estado com a saúde de sua população.