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Crédito: depositphotos.com / 9parusnikov
“Procurarás o Senhor teu Deus, e O acharás, se o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma.” (Dt 4,29)
A morte do Papa Francisco, em 21 de abril de 2025, durante o Jubileu da Esperança, provocou uma comoção mundial que extrapolou o universo católico. Em meio a homenagens solenes, missas de sufrágio e uma cobertura midiática global, um fenômeno silencioso, mas significativo, tomou forma: o aumento expressivo nas buscas por conteúdos como “como ser católico”, “como voltar à Igreja” e “como rezar o terço”.
Esse movimento espontâneo sugere que, por trás do luto, muitos enxergaram na morte do Papa não apenas o fim de um pontificado, mas um chamado à conversão. Um despertar espiritual que ecoa o clamor de João Paulo II no início de seu pontificado: “Não tenhais medo! Abri, ou antes, escancarai as portas a Cristo!”
Nos dias que se seguiram ao falecimento do pontífice argentino, os algoritmos registraram picos de interesse por expressões associadas à identidade católica. A plataforma Google Trends indicou uma elevação global nas buscas por termos religiosos, inclusive em países fortemente secularizados como a França e a Alemanha. No Brasil, uma das expressões mais buscadas foi “como rezar o rosário”.
Não se trata de mera curiosidade. Esse comportamento revela um anseio mais profundo por sentido, transcendência e pertença — anseio que a Igreja, Mãe e Mestra, reconhece como expressão do desejo natural que todo homem possui por Deus, conforme ensina o Catecismo da Igreja Católica:
“O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a Si.” (CIC §27)
A morte de um Papa, especialmente de um pontífice midiático como Francisco, funciona como um memento mori coletivo, despertando consciências entorpecidas pelo cotidiano e lembrando à humanidade de sua finitude e de sua sede por eternidade.
Coincidentemente (ou providencialmente), a morte do Santo Padre ocorreu durante o Jubileu da Esperança — um Ano Santo convocado por ele mesmo para reavivar o olhar cristão diante de um mundo marcado por guerras, crises familiares, abandono dos sacramentos e relativismo moral. O lema escolhido, “Peregrinos da Esperança”, parece ter ganhado novo vigor.
Se a morte do Papa entristeceu milhões, ela também serviu como testemunho final de sua missão: mostrar que, mesmo na dor, é possível cultivar a esperança cristã — aquela que “não decepciona” (Rm 5,5), porque está enraizada na promessa da Ressurreição.
A súbita busca por como ser católico expõe uma realidade: há muitos afastados da Igreja que não estão contra ela, apenas não sabem mais como voltar. Sentem-se indignos, perdidos ou distantes. E aqui a missão da Igreja se renova: abrir as portas, como no tempo dos primeiros cristãos, e acolher os filhos pródigos que retornam com o coração ferido.
São João Crisóstomo ensinava: “A Igreja não é um tribunal para condenar, mas um hospital para curar os pecadores.” Cabe à Igreja — ou seja, a cada batizado — não julgar o motivo de quem busca, mas estender a mão e oferecer Cristo, único caminho de salvação.
Entretanto, é necessário cautela. O interesse súbito, se não for acolhido com sabedoria e paciência pastoral, pode se dissipar como a semente caída entre pedras (Mt 13,20). A Igreja precisa estar preparada para responder a esse interesse com clareza doutrinal, beleza litúrgica e coerência de vida.
“A fé se fortalece quando é compartilhada”, dizia o Papa Bento XVI. Por isso, é hora de intensificar catequeses sólidas, formação litúrgica e testemunhos autênticos. Não basta modernizar linguagens ou adaptar discursos: é preciso oferecer o Cristo inteiro, sem mutilações, pois Ele é o mesmo “ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8).
Na manhã após a primeira Páscoa cristã, quando os ouvintes se comoveram com a pregação de Pedro, perguntaram: “Que faremos, irmãos?” (At 2,37). Essa mesma pergunta parece ecoar hoje, vinda de milhares que, impactados pela morte de um Papa, buscam reencontrar o caminho da fé.
A resposta, como naquela manhã de Pentecostes, continua atual: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.” (At 2,38)
Aqueles que buscam “como ser católico” talvez estejam, sem saber, à beira da maior aventura de suas vidas: reencontrar-se com Aquele que os conhece pelo nome e os espera no confessionário, no altar e no silêncio do coração.
A nós, Igreja, cabe não desperdiçar esta hora da graça.