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Crédito: Reprodução da Internet
Ser católico em ambiente não católico não é novidade histórica. Desde o início, a Igreja floresceu em meio hostilidades. Jesus Cristo mesmo preveniu Seus discípulos: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, odiou a Mim” (Jo 15,18). Durante três séculos, cristãos foram uma minoria suspeita, acusada de ateísmo (pois não adoravam os deuses romanos), imoralidade (por encontros secretos) e até de canibalismo (pela interpretação pagã da Eucaristia).
O historiador católico Henry Chadwick nota que “o cristianismo nasceu como religião de minoria, cuja ética e liturgia se chocavam com os costumes romanos” (Chadwick, The Early Church, Oxford, 1993). Mesmo quando o cristianismo se tornou religião oficial do Império, cristãos continuaram minoritários em muitas regiões. E em diversos períodos, como sob regimes comunistas ou em países de maioria islâmica, a Igreja voltou a experimentar a condição de minoria.
Ou seja, viver a fé num ambiente não católico não é anomalia: é condição que moldou a santidade de gerações inteiras de mártires, confessores e missionários.
O Concílio Vaticano II trouxe um documento crucial para católicos em ambiente não católico: Dignitatis Humanae. Ali, lê-se:
“A pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Esta liberdade consiste em que todos os homens devem estar imunes de coação, quer da parte de pessoas privadas, quer de grupos sociais, quer de qualquer poder humano, de maneira que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de agir segundo a sua consciência, em privado ou em público, só ou associado com outros, dentro dos devidos limites.” (DH, n. 2)
Mas cuidado: liberdade religiosa não significa relativismo. O mesmo documento afirma:
“A única verdadeira religião subsiste na Igreja Católica e Apostólica, à qual o Senhor Jesus confiou o encargo de a divulgar entre todos os homens.” (DH, n. 1)
Ou seja, o católico não pode cair no erro de pensar que todas as religiões são equivalentes. Há liberdade para professar a fé, mas também o dever de testemunhar a Verdade.
Um ambiente não católico exige do fiel um equilíbrio quase cirúrgico: firmeza doutrinal, mas também caridade e prudência. São Pedro aconselha:
“Estai sempre prontos a responder para vossa defesa, a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós. Contudo, fazei-o com mansidão e respeito.” (1Pd 3,15-16)
Santo Tomás de Aquino, mestre do diálogo com a razão, ensina que “a verdade não se impõe senão pela própria força da verdade” (Summa Theologiae, I-II q.109 a.1). Logo, gritar, zombar ou agir com ironia não é católico. Ao contrário, a firmeza doutrinal se expressa muitas vezes num testemunho discreto, que atrai pelo exemplo de vida.
O Cardeal Joseph Zen, bispo emérito de Hong Kong, vivendo sob um regime hostil, declarou:
“Às vezes a palavra mais eficaz é o silêncio que proclama fidelidade. Outras vezes, é necessário falar alto. O segredo é discernir o momento certo, guiados pelo Espírito Santo.” (Zen, entrevista à La Civiltà Cattolica, 2019)
Segue alguns princípios práticos, bem católicos:
1. Conheça profundamente a fé
Nada é mais perigoso num ambiente não católico do que o católico que não conhece a própria fé. Sem base sólida, é fácil ceder a pressões ou a argumentos maliciosos. O Papa Bento XVI insistia:
“Uma fé reduzida a costumes superficiais não pode resistir. Somente a fé profundamente enraizada na amizade com Cristo é forte.” (Homilia na Missa de Início de Pontificado, 2005)
Estude o Catecismo da Igreja Católica, leia bons autores católicos (Santo Agostinho, São Tomás, Bento XVI, São João Paulo II) e procure formação doutrinal sólida.
2. Evite discussões estéreis
Nem toda polêmica precisa ser enfrentada. Em ambientes não católicos, há situações em que é mais prudente permanecer em silêncio do que iniciar debates que só gerariam ódio. Santo Inácio de Loyola aconselhava: “Nem todas as verdades se devem dizer a todos.”
3. Pratique obras de misericórdia
A caridade desarma muitos preconceitos. Uma vida de bondade, generosidade e serviço fala mais alto do que mil discursos. Como dizia São Francisco de Assis: “Pregai o Evangelho em todo tempo; se necessário, use palavras.”
4. Mantenha os sacramentos
Não negligencie a Missa, a confissão e a oração, mesmo em ambiente hostil. São João Paulo II foi incansável ao recordar que a Eucaristia é “fonte e ápice de toda a vida cristã” (LG, n. 11). Mesmo na clandestinidade, cristãos ao longo da história nunca abandonaram a Eucaristia.
5. Reze pelos que pensam diferente
Não há ato mais católico do que rezar por quem está distante da fé. O Catecismo ensina que devemos “rezar pelos que nos perseguem” (CIC, n. 2635).
Viver em ambiente não católico frequentemente significa conviver com outras crenças. O Vaticano II dedicou documentos ao tema: Unitatis Redintegratio (sobre ecumenismo) e Nostra Aetate (sobre relações com religiões não-cristãs). O Papa Francisco, no entanto, advertiu recentemente:
“O diálogo não significa negar a nossa fé. Não se dialoga renunciando à verdade, mas apresentando-a com caridade.” (Evangelii Gaudium, n. 251)
Ou seja, o católico não pode esconder ou diluir a fé para “parecer simpático”. O diálogo é caridade, mas a verdade não se negocia.
Hoje, o desafio maior não é apenas conviver com outras religiões, mas com a indiferença total. O Cardeal Robert Sarah alerta:
“O maior inimigo do cristão não é o Islã, nem o ateísmo militante, mas o catolicismo morno que já não crê na força transformadora da fé.” (Deus ou Nada, Fayard, 2015)
Em ambientes seculares, há dois grandes perigos:
O antídoto? Uma vida profundamente sacramental e enraizada na doutrina. Não há meia medida.
Exemplos luminosos de santos em ambiente não católico
Cristo comparou Seus discípulos ao fermento que faz levedar a massa (Mt 13,33). O fermento é pequeno, invisível, mas essencial. O católico num ambiente não católico não deve se desesperar ou se sentir marginalizado. Ao contrário: está ali para ser luz e sal, mesmo quando todos preferem as trevas. São João Paulo II encorajava:
“Não tenhais medo! Abri, antes, escancarai as portas a Cristo!” (Homilia de Início de Pontificado, 1978)
A história da Igreja prova: é nas minorias, na adversidade, que os católicos se tornam mais fiéis, santos e convincentes. A fé não se mede por aplausos ou maiorias, mas pela verdade que salva.
Se há algo que a Igreja sempre nos ensinou, é isto: não há ambiente onde Cristo não possa ser testemunhado. E Ele está conosco até o fim dos tempos (Mt 28,20).