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Crédito: Vatican Media
Com a morte do Papa Francisco, a Igreja Católica inicia um de seus ritos mais solenes e sagrados: o conclave. Mais que um processo eletivo, trata-se de um ato espiritual, um evento envolto em silênço, oração e mistério, cujo único objetivo é discernir, sob a guia do Espírito Santo, o sucessor legítimo de São Pedro.
A origem do conclave está enraizada na fé da Igreja de que o Papa é escolhido por Deus através do discernimento dos cardeais reunidos em oração. Segundo o Catecismo da Igreja Católica, o Papa é o “perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade da Igreja” (CIC §882), e sua eleição não é uma escolha meramente humana, mas um ato de obediência à ação divina.
A palavra conclave vem do latim cum clave – “com chave” –, pois os cardeais eleitores são literalmente trancados (clausi) num local sagrado e separado do mundo, sem contato com o exterior, até que se chegue ao nome do novo Pontífice.
De acordo com a constituição apostólica Universi Dominici Gregis, promulgada por São João Paulo II em 1996 e atualizada por Bento XVI e Francisco, o conclave deve começar entre o 15º e o 20º dia após a morte do Papa. Esse período permite a chegada dos cardeais à Roma, o luto, as exéquias fúnebres e os encontros preparatórios (congregações gerais) onde os purpurados discutem a situação da Igreja.
Durante este tempo, o governo ordinário da Igreja fica sob a responsabilidade do Cardeal Camerlengo (atualmente Kevin Farrell), que administra os assuntos correntes, mas não pode tomar decisões definitivas.
Somente cardeais com menos de 80 anos de idade no dia da morte do Papa podem participar da eleição. Atualmente, são 135 eleitores, provenientes de todos os continentes, refletindo a universalidade da Igreja. Destes, 7 são brasileiros. A presença global dos cardeais reflete a catolicidade da Igreja, e suas culturas e experiências enriquecem o discernimento coletivo.
O conclave acontece na Capela Sistina, no Vaticano — lugar marcado pela majestade espiritual da arte sacra de Michelangelo e pela presença do Espírito Santo invocado sobre os eleitores. Tudo começa com a solene Missa Pro Eligendo Pontifice, celebrada na Basílica de São Pedro, pedindo a assistência divina para a escolha do novo Papa.
Em seguida, os cardeais se dirigem em procissão até a Capela Sistina entoando a antífona Veni Creator Spiritus (“Vinde, Espírito Criador”), suplicando a luz do Alto. Ao entrarem, prestam juramento de sigilo absoluto, prometendo não revelar nada do que ocorrer nas votações. O Mestre das Celebrações Litúrgicas Papais então pronuncia a fórmula latina “Extra omnes!” — “Fora todos!” — e as portas se fecham. Todos os ritos e orações são feitos em italiano ou latim.
As votações são feitas em segredo, manualmente. Cada cardeal escreve o nome do escolhido em um papel com a inscrição Eligo in Summum Pontificem (“Escolho como Sumo Pontífice”). Em seguida, dobra a cédula, caminha até o altar, deposita-a numa urna, e faz um juramento. São possíveis até quatro votações por dia — duas pela manhã, duas à tarde.
Para ser eleito, o candidato precisa de dois terços dos votos. Se, após 30 votações, não houver consenso, os cardeais passam a escolher apenas entre os dois mais votados, sendo então suficiente uma maioria simples.
As cédulas são queimadas ao final de cada turno. A fumaça que sai da chaminé da Capela Sistina sinaliza ao mundo o resultado: preta (sem eleição) ou branca (um novo Papa foi escolhido). Para garantir clareza, um composto químico específico é usado para cada cor.
Após a eleição, o cardeal decano pergunta ao eleito se aceita a missão confiada a ele. Se o eleito aceita, escolhe um nome papal, refletindo sua espiritualidade ou intenção de pontificado. Ele é conduzido então à Sala das Lágrimas, anexa à Capela Sistina, onde se reveste com os paramentos papais.
Alguns relatos dizem que essa sala é chamada assim porque muitos dos recém-eleitos ali choram, comovidos pela grandeza e peso do ministério petrino.
Em seguida, o novo Papa é conduzido até a loggia central da Basílica de São Pedro. O cardeal protodiácono então proclama a histórica fórmula:
“Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam!”
(Anuncio-vos uma grande alegria: temos Papa!)
O novo Pontífice então aparece ao povo, abençoa a cidade de Roma e o mundo com a benção Urbi et Orbi — sinal de unidade, continuidade e esperança.
O conclave não é um simples rito político ou uma disputa de poder. Trata-se de um evento espiritual e eclesial por excelência. Cada detalhe carrega significado:
O conclave é, em sua essência, um ato de fé: a certeza de que Cristo, que prometeu estar com sua Igreja até o fim dos tempos (Mt 28,20), continua a guiá-la pelo Espírito Santo por meio de seus pastores.