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Crédito: Marcello Casal Jr / Agência Brasil
Puxada principalmente pelo aumento na conta de energia elétrica, a inflação medida pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15), considerado uma prévia da inflação oficial do país, voltou a acelerar em maio de 2025. Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a energia residencial registrou alta de 1,68%, representando o maior impacto individual sobre o índice do mês, com contribuição de 0,06 ponto percentual no total de 0,36%.
O principal fator para essa elevação foi a entrada em vigor da bandeira tarifária amarela, que adiciona R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos. A mudança foi anunciada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) no início do mês, encerrando um longo período de vigência da bandeira verde, quando não há cobrança adicional.
A decisão da Aneel de acionar a bandeira amarela em maio ocorre diante do início do período seco no Brasil, especialmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, responsáveis pela maior parte da geração hidrelétrica do país. Com a redução das chuvas e a queda dos níveis dos reservatórios, o governo foi forçado a recorrer ao acionamento de usinas termelétricas, que têm custo de operação significativamente mais elevado.
Além disso, o aumento na conta de luz não está relacionado apenas à bandeira tarifária. Em algumas capitais, reajustes tarifários ordinários foram implementados pelas distribuidoras de energia. Em Salvador, por exemplo, houve um aumento de 2,07% nas tarifas a partir de 22 de abril. Já em Recife, o reajuste aplicado foi ainda mais expressivo, atingindo 3,33% a partir de 29 de abril.
Embora o reajuste na capital cearense tenha sido negativo – Fortaleza teve redução de 1,68% na tarifa –, o movimento não foi suficiente para contrabalançar os aumentos verificados em outras regiões. No cômputo geral, a energia elétrica residencial teve papel determinante no avanço da inflação do mês.
Com a alta de maio, o IPCA-15 acumula inflação de 2,66% no ano e de 4,12% nos últimos 12 meses. A meta central do Banco Central para 2025 é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Apesar de o índice ainda estar dentro do intervalo, o avanço contínuo de preços administrados, como energia elétrica, acende o sinal de alerta para a autoridade monetária.
Outros componentes também contribuíram para a inflação, como os preços de alimentos in natura e planos de saúde, mas foi a energia que concentrou a maior atenção dos analistas. O economista Pedro Almeida, da consultoria Nomos, avalia que “a energia elétrica tem efeito em cascata na cadeia produtiva, pois afeta tanto os custos industriais quanto os serviços, além de pesar diretamente no orçamento das famílias”. Segundo ele, a tendência de alta pode continuar nos próximos meses, caso os reservatórios continuem em queda e o uso das termelétricas seja mantido.
O impacto da alta da energia não é sentido de forma homogênea. Famílias de baixa renda, que proporcionalmente gastam mais do orçamento com energia, são as mais afetadas. Embora existam tarifas sociais de energia elétrica, muitos consumidores não estão cadastrados para recebê-las, e outros vivem em áreas onde os reajustes tarifários são superiores à média nacional.
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) alerta que o aumento da conta de luz pode comprometer ainda mais o consumo das famílias, que já enfrentam juros elevados e endividamento persistente. “Energia não é um bem supérfluo, é essencial. Quando ela sobe, o consumidor é forçado a cortar em outras áreas, como lazer, alimentação ou transporte”, afirma a entidade em nota.
Especialistas recomendam que os consumidores adotem medidas simples para reduzir o impacto da tarifa mais cara:
A longo prazo, alternativas como o uso de energia solar, mesmo em pequena escala, vêm ganhando força como solução sustentável e econômica, embora ainda enfrentem barreiras de custo inicial.
A continuidade da pressão sobre a inflação dependerá do comportamento do clima e das decisões da Aneel nos próximos ciclos tarifários. Se o período seco se estender além do previsto ou houver necessidade de racionamento de energia, os preços poderão subir ainda mais. No entanto, caso as chuvas retornem no segundo semestre e as condições hidrológicas melhorem, há possibilidade de retorno à bandeira verde.
Por ora, o consumidor brasileiro volta a conviver com uma conta de luz mais pesada, em um cenário de inflação ainda resistente. E, como sempre, o impacto se faz sentir não apenas nos números dos boletins econômicos, mas no dia a dia das famílias.