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Crédito: The Remorse of Judas, 1866, Edward Armitage (English Classicist Painter, 1817-1896), Oil on canvas, 1276 x 2013 mm, Tate Gallery, London, UK.
A Quarta-feira Santa, dentro do itinerário espiritual da Semana Santa, é marcada por um acontecimento sombrio, mas profundamente revelador do mistério do pecado, da liberdade humana e da misericórdia divina: a confirmação da traição de Judas Iscariotes. Este dia litúrgico é, por excelência, o momento em que a Igreja contempla o coração do homem em confronto com o Coração de Deus.
Mais do que relembrar um ato de infidelidade, a Quarta-feira Santa nos convida à vigilância interior, à purificação da consciência e ao exame sincero da nossa fidelidade a Cristo, especialmente quando o mistério pascal se aproxima de seu ápice.
A Liturgia da Palavra deste dia apresenta tradicionalmente o Evangelho segundo São Mateus (26,14-25), que narra o momento em que Judas, um dos Doze, decide entregar Jesus aos sumos sacerdotes por trinta moedas de prata. A traição já vinha sendo gestada no coração de Judas, mas agora ela se concretiza com um pacto. O evangelista é direto:
“O que me dareis se eu vos entregar Jesus?” Eles lhe pagaram trinta moedas de prata. E daí em diante, Judas procurava uma ocasião oportuna para entregá-lo.” (Mt 26,15-16)
A Tradição da Igreja sempre interpretou este momento como o ponto em que a liberdade humana, ferida pelo pecado, se fecha ao amor de Deus e cede à sedução do inimigo.
Judas não era um estranho. Era um dos apóstolos. Testemunhou milagres, ouviu as palavras do Senhor, conviveu com Ele. Sua traição é, portanto, um drama dentro da própria Igreja nascente, como um sinal de que o mal pode se insinuar até mesmo entre os que foram escolhidos.
São João Crisóstomo ensina que “Judas traiu Jesus estando à mesa com Ele”, e isso revela um drama espiritual: é possível estar próximo de Cristo exteriormente, mas longe Dele interiormente. (Homilia sobre o Evangelho de Mateus)
Essa realidade permanece como alerta para todos os tempos: não basta frequentar a Igreja ou servir em funções externas; é preciso converter o coração.
A Igreja ensina que o homem foi criado com liberdade e que Deus jamais força a adesão ao Seu amor. O Catecismo afirma:
“A liberdade é o poder, radicado na razão e na vontade, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, de praticar, por si mesmo, ações deliberadas.” (CIC 1731)
Judas agiu com liberdade. Teve inúmeras oportunidades de voltar atrás, mas preferiu seguir seu caminho. Ao mesmo tempo, o Magistério reconhece que Deus não causa o mal, mas sabe tirar do mal um bem maior, como afirma São Tomás de Aquino e foi reiterado por São João Paulo II.
No caso de Judas, a sua traição não frustrou os planos de Deus, mas, misteriosamente, concorreu para que se realizasse o sacrifício redentor de Cristo. Deus é tão soberano que, sem causar o mal, permite que até o pecado do homem seja transformado em instrumento de salvação.
A entrega de Jesus por trinta moedas de prata não é um acaso histórico, mas o cumprimento das profecias. O profeta Zacarias (Zc 11,12-13) já anunciava esse valor simbólico, relacionado ao preço de um servo. Ao escolher este valor, os líderes religiosos — e o próprio Judas — sem saber, confirmavam o papel do Servo Sofredor de Isaías, que se entrega em silêncio e se deixa esmagar para salvar o povo.
A Igreja vê na figura de Judas um sinal do Israel infiel, mas também de cada cristão que, com seus pecados, participa da traição a Cristo. Por isso, a Quarta-feira Santa é um convite à contrição profunda.
No Evangelho, Jesus não acusa Judas publicamente, nem o denuncia de forma agressiva. Ao contrário, lhe oferece até o último momento uma chance de arrependimento.
Durante a Última Ceia, Jesus diz: “Um de vós vai me trair” (Mt 26,21). E Judas pergunta: “Porventura sou eu, Mestre?” Jesus responde com doçura: “Tu o disseste.” (Mt 26,25)
Esse “Tu o disseste” é uma forma velada de confirmação, mas também um último apelo à consciência de Judas. É como se o Senhor dissesse: “Ainda há tempo de voltar”. Contudo, o amor de Cristo é rejeitado, e a traição se consuma.
Para a Igreja, a Quarta-feira Santa não é apenas memória histórica, mas espelho espiritual:
Quantas vezes nos tornamos “Judas” com nossos pecados ocultos?
Quantas vezes vendemos Cristo por vaidade, orgulho, prazeres ou egoísmo?
Quantas vezes recebemos a Eucaristia como Judas, sem nos reconciliarmos com Deus?
A resposta da fé católica não é o desespero, mas a confissão, a penitência e a esperança na misericórdia. A diferença entre Judas e Pedro não está apenas na traição, mas no arrependimento. Pedro chorou, Judas desesperou. Pedro voltou, Judas se afastou.
A Quarta-feira Santa, vivida com espírito penitente, é um dia privilegiado para:
O mistério da traição de Judas é um drama de liberdade, mas também um convite à conversão. A Igreja não canoniza Judas, mas também não o amaldiçoa de forma definitiva, pois o juízo pertence a Deus. O que a Igreja faz é aprender com sua queda e recordar que ninguém está livre de trair Cristo, se não permanecer vigilante e unido a Ele.
Na Quarta-feira Santa, a Igreja inteira se ajoelha interiormente diante do traidor e do Traído, não para julgar, mas para suplicar: “Senhor, tem piedade de mim, que tantas vezes te traí… Mas como Pedro, quero chorar e voltar. Salva-me pela tua Cruz.”