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Crédito: Reprodução da Internet
A descida de Cristo à mansão dos mortos é um artigo de fé proclamado no Credo Apostólico: “desceu à mansão dos mortos”. Não se trata de um episódio simbólico ou mitológico, mas de uma realidade espiritual de proporções eternas.
A Sagrada Escritura menciona esse mistério em diversas passagens, ainda que de forma velada. São Pedro escreve que Jesus “foi pregar aos espíritos encarcerados” (1Pd 3,19). Também se diz que “o Evangelho foi anunciado até aos mortos” (1Pd 4,6). O Salmo 88 já clamava: “Acaso contarão tua fidelidade no túmulo, ou tua justiça na terra do esquecimento?”.
O Catecismo da Igreja Católica ensina que “a estadia de Cristo na mansão dos mortos constitui o pleno cumprimento do anúncio evangélico da salvação” (CIC 634). Ele não permaneceu entre os mortos, mas desceu até eles como Salvador.
A “mansão dos mortos” (Sheol, em hebraico; Hades, em grego) não é o inferno de condenação, mas o estado de todos os mortos antes da ressurreição de Cristo. Nela estavam separados os justos e os ímpios. Os justos esperavam com esperança a promessa de Deus. Entre eles estavam Adão, Eva, Abraão, Moisés, Davi, os profetas e todos os santos do Antigo Testamento. Não podiam entrar no Céu porque a porta da salvação ainda não havia sido reaberta pelo sangue redentor do Cordeiro.
A descida de Cristo às profundezas da morte é, acima de tudo, um gesto de compaixão e redenção. Ele vai até o mais profundo da condição humana. Não apenas morreu como homem, mas foi até o último limite da existência humana: a morte total. E ali, onde só havia escuridão e silêncio, ressoou a voz do Filho de Deus.
A Tradição da Igreja ensina que Cristo desceu não como derrotado, mas como Rei e Libertador. Ele rompeu os grilhões da morte, quebrou as portas do Hades e tirou pela mão os que O esperavam com fé. Em belíssimas homilias antigas, como a do Sábado Santo atribuída a Epifânio de Salamina, lemos:
“Hoje, o grande silêncio reina sobre a terra, um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei dorme. A terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito carne adormeceu, e despertou os que dormiam há séculos.”
Na iconografia bizantina, este momento é retratado com Cristo glorioso, descendo ao Hades e pisando as portas quebradas do inferno, que formam uma cruz. Ele segura pela mão Adão e Eva, tirando-os de seus túmulos — símbolo do resgate de toda a humanidade.
As fechaduras estão partidas, os demônios fugindo em desespero. É o triunfo total do amor. A tradição chama esse momento de “Anástasis” — o levantar-se, a Ressurreição que começa com o levantar dos caídos.
O Sábado Santo é o único dia do ano em que não há Missa. O altar permanece despido. É o tempo da espera, do luto cheio de fé. Maria, sozinha, guarda no coração a certeza da promessa. Ela é o ícone da Igreja silenciosa, que não perde a esperança mesmo diante da morte.
Neste silêncio, a Igreja recorda que Cristo foi até onde nenhum homem pode ir, para que nenhuma alma que confie n’Ele se perca. Ele santificou a morte com Sua presença. Ele não ressuscita sozinho: Ele arrasta consigo a humanidade inteira.
A descida de Jesus à mansão dos mortos não é apenas um fato passado. É realidade presente. Sempre que estamos no “Hades” da nossa vida — na dor, no desespero, no pecado, na solidão —, Cristo desce até nós. Ele nunca se afasta de quem sofre. O amor d’Ele busca até o mais perdido dos filhos. E quando parece que tudo acabou, é então que Ele chega, silencioso, mas com poder.
A descida de Cristo à mansão dos mortos é o gesto mais radical da misericórdia. É o Amor que atravessa o silêncio da morte para resgatar o homem. É o Rei que desce do trono da cruz para reinar nos abismos. É a luz que brilhou nas trevas e que as trevas não puderam deter.
Neste Sábado Santo, o mundo parece suspenso. Mas nos subterrâneos da existência, algo grandioso está acontecendo: o Ressuscitado está abrindo as portas da eternidade. E já se ouve, lá no fundo, o barulho das correntes quebrando, os mortos despertando, os anjos louvando. E a Igreja, em silêncio, prepara-se para cantar: “Cristo ressuscitou! Aleluia!”