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Crédito: Reprodução da Internet
Católicos e evangélicos professam a fé em Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Até aqui, tudo em comum. Mas a partir daí começam a surgir diferenças. O Concílio Vaticano II, na Unitatis Redintegratio (n. 3), afirma claramente que “mesmo entre aqueles que se gloriam do nome de cristãos existem muitas divergências não só de doutrina e disciplina, mas também de estrutura da Igreja”. O Papa Bento XVI resumiu bem a questão: “Nós não anunciamos um Jesus ideológico, mas o Verbo feito carne, presente na Igreja e nos sacramentos.” E é justamente aqui que começa a grande diferença entre católicos e evangélicos: a visão da Igreja como sacramento de Cristo no mundo.
O coração da separação doutrinal está na autoridade das fontes da Revelação. Para os evangélicos, em geral, a Bíblia é a única regra de fé (sola Scriptura). Já para a Igreja Católica, a Revelação divina se encontra “na Escritura e na Tradição” (Dei Verbum, n. 9). O Magistério da Igreja, isto é, a autoridade de ensinar deixada por Cristo aos apóstolos e seus sucessores, tem a missão de interpretar fielmente a Palavra de Deus.
São Vicente de Lérins, no século V, já dizia: “Na Igreja Católica, deve-se ter cuidado máximo para se conservar o que foi crido em toda parte, sempre, por todos” (Commonitorium, cap. II). Assim, para o católico, a verdade da fé não nasce de interpretação privada, mas da Tradição viva da Igreja, garantida pelo Magistério. O protestantismo, surgido no século XVI, negou essa tríade, afirmando que somente a Bíblia é norma suprema.
No catolicismo, a liturgia não é mero rito humano, mas “obra de Cristo sacerdote e do seu corpo, que é a Igreja” (Sacrosanctum Concilium, n. 7). A missa é considerada o Sacrifício de Cristo tornado presente sacramentalmente. Já os evangélicos entendem o culto principalmente como louvor, pregação e oração espontânea.
Enquanto o católico tem sacramentos instituídos por Cristo (são sete, conforme definido pelo Concílio de Trento), a maioria dos evangélicos reconhece apenas o Batismo e a Ceia do Senhor, e mesmo assim apenas como símbolos. Para a Igreja Católica, na Eucaristia acontece a transubstanciação: o pão e o vinho tornam-se verdadeiramente Corpo e Sangue de Cristo, conforme o ensinamento dogmático de Trento (Sessão XIII, cân. 1). Para a maior parte dos evangélicos, é apenas uma recordação simbólica. Eis uma diferença gigantesca: no altar católico, Cristo está presente substancialmente; no culto evangélico, Ele é recordado espiritualmente.
No catolicismo, o Papa é “perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade” (Lumen Gentium, n. 23). A sucessão apostólica garante a transmissão legítima da autoridade de ensinar, santificar e governar a Igreja. Nos evangélicos, não existe um Papa, nem uma única autoridade doutrinal. Cada comunidade ou denominação possui liberdade para governar-se, o que explica a multiplicidade de doutrinas entre diferentes igrejas evangélicas.
Isso não é apenas questão de “organização humana”, mas de compreensão da própria Igreja. Para o católico, a Igreja é hierárquica por instituição divina; para o evangélico, a Igreja é, em regra, congregacional ou presbiterial, isto é, governada pela própria comunidade ou por um conselho de anciãos, sem vínculo obrigatório a uma autoridade universal.
A devoção a Maria e aos santos é um dos temas mais mal compreendidos pelos evangélicos. Para a fé católica, Maria é “Mãe de Deus” (Concílio de Éfeso, 431), medianeira secundária que intercede junto ao Filho, sem jamais substituí-lo. A veneração (dulia) prestada aos santos difere radicalmente da adoração (latria), devida só a Deus.
Já a maioria dos evangélicos rejeita qualquer invocação dos santos ou de Maria, considerando-a uma ofensa à mediação única de Cristo (1Tm 2,5). O Catecismo da Igreja Católica ensina que “a intercessão dos santos não impede o acesso direto a Cristo, mas o reforça” (CIC 956). Portanto, para o católico, honrar Maria e os santos não é idolatria, mas reconhecimento da Comunhão dos Santos. Para o evangélico, é idolatria ou, no mínimo, prática inútil.
Outro ponto-chave: a confissão auricular. Para o católico, Cristo deu aos apóstolos o poder de perdoar pecados (cf. Jo 20,22-23). O Concílio de Trento declarou que a confissão é necessária para absolver os pecados mortais (Sessão XIV, cap. 5). Para a maioria dos evangélicos, não há necessidade de confessar-se a um sacerdote: basta confessar-se diretamente a Deus, sem intermediários. A figura do sacerdote como ministro da reconciliação, agindo in persona Christi, é incompreensível ou rejeitada nos ambientes evangélicos.
O Concílio de Niceia II (787) definiu que as imagens sagradas podem e devem ser veneradas, não adoradas. Elas são “livros dos iletrados”, disse São João Damasceno. Para o católico, a imagem leva o olhar e o coração ao protótipo celeste. Para o evangélico, a presença de imagens religiosas é quase sempre vista como idolatria, fruto de tradições humanas, não da Revelação. Eis outro divisor de águas profundamente cultural e teológico.
No fundo, a diferença entre católico e evangélico não se limita a práticas externas, mas toca o coração do que se crê sobre a Igreja, os sacramentos, a intercessão dos santos e a presença real de Cristo na Eucaristia. O católico crê numa fé “una, santa, católica e apostólica”, transmitida pela Tradição e protegida pelo Magistério. O evangélico crê numa relação mais direta, sem mediações e sem autoridade universal que interprete a Escritura em nome de Cristo.
Por isso, a Igreja Católica continua afirmando, com caridade, mas sem hesitação: “Subsiste unicamente na Igreja Católica a única Igreja fundada por Cristo” (Dominus Iesus, n. 17). Essa é, em síntese, a diferença mais profunda: para o católico, Cristo permanece visível e atuante na Igreja, nos sacramentos, na hierarquia e na comunhão dos santos. Para o evangélico, Cristo está presente sobretudo pela fé individual e pela Palavra escrita.