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Crédito: Reprodução da Internet
Você já acordou lembrando de um sonho vívido e, minutos depois, ele desapareceu como fumaça? Essa sensação é comum — e agora a ciência começa a explicar o porquê. Pesquisadores identificaram um tipo específico de célula no cérebro que pode ser responsável por apagar os sonhos antes que eles se transformem em memórias duradouras. Trata-se das células MCH, localizadas no hipotálamo, que atuam como uma espécie de “filtro” cerebral durante a fase REM do sono.
Para entender esse mecanismo, é preciso lembrar que o sono é dividido em fases. Uma das mais conhecidas é o chamado sono REM — do inglês Rapid Eye Movement — que é quando os sonhos mais intensos costumam acontecer. Durante essa fase, o cérebro está altamente ativo, quase como se estivesse acordado, mas o corpo permanece em paralisia temporária.
É também nesse momento que ocorre a consolidação de algumas memórias — processo em que informações adquiridas ao longo do dia são organizadas e armazenadas. Mas nem tudo que vivenciamos, muito menos o que sonhamos, é guardado. E é aí que entram as células MCH.
O estudo, publicado na revista Science em 2019, foi conduzido por cientistas da Universidade de Tsukuba, no Japão, em parceria com pesquisadores dos Estados Unidos. Eles descobriram que as células MCH, que produzem o hormônio concentrador de melanina, estão fortemente ativas durante o sono REM. Essas células estão localizadas no hipotálamo lateral, uma região do cérebro que regula comportamentos básicos, como fome, sono e emoções.
Os pesquisadores observaram que essas células se projetam diretamente para o hipocampo — área do cérebro fundamental para a formação de memórias. Através de experimentos com ratos, foi possível comprovar que a ativação dessas células durante o sono REM inibe a atividade dos neurônios piramidais do hipocampo, que são essenciais para o armazenamento de lembranças.
Em outras palavras: essas células desligam momentaneamente os circuitos de memória enquanto estamos sonhando. O resultado prático disso? Quando acordamos, os sonhos se dissipam com facilidade, pois não foram devidamente “salvos” no cérebro.
Para testar a função das células MCH, os cientistas ativaram e desativaram essas células durante a fase REM usando técnicas de optogenética — um método de controle de células nervosas com luz. Quando as células MCH eram ativadas artificialmente, os animais tinham mais dificuldade de lembrar tarefas aprendidas no dia anterior. Já quando as células eram inibidas, o desempenho deles na lembrança das tarefas melhorava significativamente, mesmo sem alteração na qualidade do sono.
Esse efeito só foi observado durante o sono REM. A ativação das células MCH em outras fases do sono ou durante a vigília não teve impacto significativo na memória, o que reforça a ideia de que essas células agem especificamente no momento em que os sonhos ocorrem.
A explicação por trás desse fenômeno pode ser evolutiva. A mente humana recebe diariamente uma quantidade gigantesca de estímulos e informações. Nem tudo pode — ou deve — ser armazenado. Se lembrássemos de todos os sonhos, todas as conversas, todas as imagens vistas, o cérebro entraria em colapso.
O papel das células MCH seria, então, o de ajudar o cérebro a selecionar o que realmente importa. Sonhos, por mais intensos que pareçam, muitas vezes são misturas aleatórias de memórias e sensações. Não são essenciais para a sobrevivência, e, portanto, são descartados pelo filtro natural comandado por essas células.
Esse achado ajuda também a explicar por que algumas pessoas lembram de sonhos com mais frequência do que outras. Fatores como predisposição genética, estado emocional, qualidade do sono e até o momento em que a pessoa desperta (por exemplo, se ela acorda durante o sono REM) podem influenciar na retenção ou esquecimento dos sonhos.
Além disso, há estudos paralelos que indicam que treinar a lembrança dos sonhos — como manter um diário ao lado da cama — pode driblar esse mecanismo de esquecimento, reforçando a gravação das memórias oníricas.
Mas é importante entender que esse “esquecimento” não significa que o cérebro não processa os sonhos. Pelo contrário: sonhar parece ser uma parte importante do equilíbrio psíquico, da criatividade e até da resolução de conflitos internos. Apenas não lembramos da maior parte desses processos, porque o cérebro deliberadamente nos poupa desse excesso.
Longe de ser uma falha, o esquecimento dos sonhos pode ser uma funcionalidade essencial do nosso cérebro. As células MCH, ao apagarem os rastros dos sonhos no hipocampo, permitem que apenas o necessário seja preservado na memória.
Essa descoberta abre novas portas para o entendimento da neurociência do sono e da memória, além de levantar questões sobre doenças que afetam a lembrança, como o Alzheimer. Se entendermos melhor como o cérebro decide o que lembrar e o que esquecer, talvez possamos aprender também a protegê-lo — ou, quem sabe, a ensiná-lo a lembrar do que realmente importa.
Por enquanto, quando acordar e não lembrar do que sonhou, não se preocupe. Seu cérebro provavelmente fez uma escolha sábia.