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Crédito: Reprodução da Internet
Na manhã de 20 de setembro de 1918, na pequena capela do convento de San Giovanni Rotondo, Padre Pio de Pietrelcina (1887-1968) recebeu os estigmas — as chagas visíveis de Cristo crucificado — enquanto rezava diante do crucifixo. O próprio frei descreveu, em carta ao seu diretor espiritual, ter visto “um misterioso personagem que lhe lançou dardos de fogo” que lhe feriram mãos, pés e lado.
Desde então, suas chagas sangravam regularmente, exalavam perfume suave (fenômeno chamado odor de santidade) e lhe causavam intensa dor. O fenômeno não foi isolado: registros históricos da Igreja apontam mais de 300 santos ou beatos com estigmas, sendo São Francisco de Assis o primeiro caso documentado, em 1224. Contudo, poucos foram tão minuciosamente observados e contestados quanto Padre Pio.
A Igreja, fiel à sua prudência, não se apressou em declarar sobrenaturalidade. Entre 1919 e 1923, vários médicos — alguns enviados pelas autoridades eclesiásticas — examinaram Padre Pio. Destacam-se nomes como o Dr. Luigi Romanelli, médico-chefe do hospital civil de Barletta, que relatou:
“As feridas não têm as características de úlceras ou feridas comuns. São feridas que sangram, mas não cicatrizam e não apresentam supuração.”
Outro especialista, Dr. Giorgio Festa, após múltiplas inspeções, registrou que as chagas tinham cerca de 2 centímetros de diâmetro, bordas regulares, sem sinais de necrose ou infecção. Tentativas de tratamentos médicos, incluindo aplicação de substâncias cicatrizantes, foram infrutíferas. O sangramento cessava apenas temporariamente.
O Dr. Giuseppe Bastianelli, médico pessoal do Papa Bento XV, não encontrou fraude, mas admitiu não conseguir explicar o fenômeno cientificamente. Para alguns céticos, a hipótese de auto-sugestão ou histeria foi levantada, mas jamais provada. Nenhum dos médicos chegou a qualquer explicação natural ou patológica conclusiva.
A prudência da Igreja foi absoluta. O Santo Ofício (hoje Dicastério para a Doutrina da Fé) impôs restrições a Padre Pio em diversas fases da sua vida, proibindo-o de celebrar Missa em público ou de manter correspondência com seus filhos espirituais.
Em 1923, o Santo Ofício publicou nota declarando não haver provas suficientes da sobrenaturalidade dos fenômenos, sem, contudo, acusá-lo de fraude. O silêncio foi mantido até os anos 1930, quando a Santa Sé suavizou restrições, mas só nos anos 1960 houve maior liberdade pastoral para Padre Pio.
O documento Crises de consciência e misticismo (Congregação do Santo Ofício, 1923) deixou clara a postura da Igreja: antes de se atribuir qualquer fenômeno à ação divina, é preciso excluir causas naturais ou preternaturais (demoníacas). A mesma orientação ecoa no atual Diretório sobre piedade popular e liturgia (2001), que adverte para a necessidade de discernimento nos fenômenos extraordinários.
O Catecismo da Igreja Católica (n. 67) ensina que revelações privadas (e fenômenos extraordinários a elas ligados) não pertencem ao depósito da fé e não devem ser confundidas com a única Revelação pública, encerrada com a morte do último apóstolo. Ainda que possam ajudar os fiéis, não são obrigatórias à fé.
Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica (III, q. 83, a. 6), ensina que Deus pode conceder sinais extraordinários para confirmar a santidade de pessoas ou transmitir mensagens particulares, mas sempre subordinados à Revelação pública. Daí o princípio de prudência da Igreja: nem tudo o que parece milagre o é de fato.
O Papa Bento XIV, grande teólogo do século XVIII, estabeleceu critérios rigorosos para reconhecer milagres e virtudes heroicas em processos de canonização. Entre eles, a ausência de explicação natural, constância do fenômeno e frutos espirituais duradouros. Os estigmas de Padre Pio, nesse contexto, se enquadraram perfeitamente, após décadas de investigação, em sinais de virtude extraordinária.
Padre Pio foi um gigante do confessionário: dedicava até 15 horas por dia à direção espiritual e à reconciliação dos fiéis. O bispo Mons. Rossi, enviado do Vaticano em 1921, anotou:
“A fama de santidade de Padre Pio não se funda somente nos fenômenos extraordinários, mas sobretudo no bem que realiza às almas.”
As multidões que iam a San Giovanni Rotondo buscavam não apenas ver as chagas, mas a vida de oração, penitência e caridade que transbordava do santo. Os frutos espirituais — critério essencial no discernimento da Igreja — foram incontestáveis: conversões, vocações religiosas e crescimento da fé.
Em 2 de maio de 1999, João Paulo II beatificou Padre Pio, destacando seu exemplo de união aos sofrimentos de Cristo. Em 16 de junho de 2002, o mesmo Papa o canonizou. A investigação oficial considerou tanto o fenômeno dos estigmas como os milagres operados por sua intercessão.
Documentos do Vaticano, como as Positiones do processo canônico, sublinham que a Igreja, ao canonizar, não declara que cada fenômeno místico da vida do santo seja milagroso, mas reconhece sua vida virtuosa e os frutos sobrenaturais ligados à sua intercessão.
A canonização foi, portanto, o selo oficial de que Padre Pio viveu de acordo com a fé e a moral católicas, e que seus fenômenos místicos — ainda que permanecendo envoltos em mistério — não contradiziam a doutrina nem a fé.
Hoje, a medicina segue sem resposta para as chagas de Padre Pio. A ciência, limitada ao natural, esbarra em algo que não se encaixa em quadros clínicos conhecidos. Para a Igreja, o mistério permanece — mas está integrado na prudência e no discernimento doutrinário.
Padre Pio não foi canonizado apenas por ter sangrado, mas pela heroica configuração a Cristo. Seus estigmas são, para muitos fiéis, um lembrete vivo da Paixão do Senhor e um chamado à conversão. E, mesmo entre os médicos mais céticos, restou uma verdade desconcertante: ninguém jamais conseguiu explicar por que sangrava… nem por que parou de sangrar após sua morte.
Padre Pio, com seu corpo marcado pelas chagas, continua desafiando a razão humana, não para anulá-la, mas para apontar que há coisas que ultrapassam os instrumentos da ciência e repousam unicamente no campo do mistério — onde fé, prudência e verdade caminham sempre de mãos dadas na Igreja Católica.