USD | R$5,1851 |
|---|
Crédito: Reprodução da Internet
Poucos termos, na fé católica, são tão ricos de significado como “Eucaristia.” Vem do grego εὐχαριστία (eucharistía), que significa literalmente “ação de graças.” Mas dizer apenas isso é dizer muito pouco, pois no vocabulário da Igreja, nomes não são apenas etiquetas: são janelas abertas sobre realidades infinitas.
Desde os primeiros séculos, os cristãos empregaram esse termo para falar do Sacramento em que Cristo Se faz presente sob as espécies do pão e do vinho. Já na Didaché (séc. I), lê-se a expressão eucharistía para descrever tanto a oração quanto o Sacramento em si:
“A respeito da Eucaristia, assim dareis graças…” (Didaché, 9,1)
Logo, o nome Eucaristia aponta, de modo condensado, para a essência da fé: é o ato supremo de dar graças a Deus — não apenas com palavras, mas com o próprio Cristo, que Se oferece ao Pai por nós.
O caráter de ação de graças é profundamente bíblico. Toda a história da salvação é, em certo sentido, uma grande Eucaristia, uma sequência de bênçãos, sacrifícios e louvores oferecidos a Deus.
No Antigo Testamento, os sacrifícios de ação de graças (todah, em hebraico) envolviam pão e vinho e eram sinais de reconciliação e comunhão. Os Salmos estão repletos dessa espiritualidade:
“Oferece a Deus um sacrifício de louvor e cumpre teus votos ao Altíssimo.” (Salmo 50,14)
Cristo leva tudo isso à perfeição. Durante a Última Ceia, Ele tomou o pão, deu graças (eucharistésas), partiu-o e disse:
“Isto é o meu Corpo, que será entregue por vós.” (Lc 22,19)
Assim, a Eucaristia não é apenas um banquete comunitário. É o Sacrifício redentor tornado presente. A ação de graças que Jesus oferece ao Pai é o próprio dom de Sua vida. Participar da Eucaristia é, portanto, unir-se a esta única ação de graças perfeita.
O Catecismo da Igreja Católica (n. 1328) afirma:
“A inexaurível riqueza deste sacramento exprime-se através dos diversos nomes que o designam. Cada um evoca algum aspecto particular do mesmo. Chamam-lhe: Eucaristia, porque é ação de graças a Deus.”
Os Padres da Igreja, como Santo Irineu, Santo Justino e Santo João Crisóstomo, já usavam este termo para designar tanto a Ceia do Senhor como o Sacrifício e o Sacramento do altar. Santo Tomás de Aquino declara:
“Este sacramento chama-se Eucaristia, porque é ação de graças por Deus ter instituído tão grande sacramento.” (STh III, q. 73, a. 4)
Além disso, o Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium (n. 47), ensina:
“Nosso Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico de seu Corpo e Sangue, para perpetuar o sacrifício da Cruz pelos séculos até que Ele venha, confiando assim à sua Igreja o memorial da sua Morte e Ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal no qual Cristo é recebido, o espírito se enche de graça e nos é dado o penhor da glória futura.”
Em outras palavras, a Eucaristia é a maior ação de graças possível, pois é o próprio Cristo quem Se oferece ao Pai.
Na linguagem comum, “dar graças” parece quase um gesto educado. Mas na fé católica, “ação de graças” é infinitamente mais. Significa entrar na própria dinâmica da Trindade: o Filho oferecendo-Se ao Pai, no Espírito Santo, em favor da humanidade. E nós, incorporados a Cristo pelo Batismo, unimo-nos a esta oferenda.
Não se trata de um mero memorial psicológico, mas de uma atualização sacramental do único Sacrifício de Cristo. O Concílio de Trento definiu dogmaticamente que na Missa se oferece “o mesmo Cristo que Se ofereceu na cruz, só que de modo incruento.”
Logo, a Eucaristia não é apenas ação de graças nossa. É a ação de graças de Cristo, em que participamos. Santo Agostinho expressou isso genialmente:
“Este sacrifício é o Corpo de Cristo, que é a Igreja. É o sacramento de unidade, o vínculo da caridade.” (Sermão 227)
A palavra Eucaristia é também um programa de vida. O cristão é chamado a viver em ação de graças contínua. São Paulo exorta:
“Em tudo dai graças.” (1 Ts 5,18)
Quem comunga autenticamente, sai do templo para transformar o mundo — porque vive a liturgia não apenas no altar, mas no dia a dia. São João Paulo II, na encíclica Ecclesia de Eucharistia, afirma:
“A Igreja vive da Eucaristia. Este mistério contém em si todo o bem espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo.” (EE, n. 1)
Por isso, dizer que “Eucaristia significa ação de graças” é reconhecer que nossa fé não se resume a doutrinas ou cerimônias. Está enraizada num mistério de amor oferecido, aceito e partilhado.
Em síntese, a Igreja persiste em chamar este sacramento de Eucaristia porque ele é, por excelência, a resposta grata da humanidade à salvação recebida. Ele é:
Em tudo isso, o que brilha é a ação de graças. A palavra resume o mistério: Deus dá Seu Filho, e nós, em Cristo, damos tudo de volta ao Pai. E esta troca de dons se chama: Eucaristia.
Portanto, afirmar que Eucaristia significa “ação de graças” não é mera etimologia. É proclamar que, no coração da fé católica, está um amor tão grande, tão ardente, que só pode ser expresso numa oferenda total. E é essa oferenda — perfeita e eterna — que a Igreja celebra dia após dia, até que Ele venha.
Se alguém te perguntar o que significa Eucaristia, diz sem medo: é o Céu, disfarçado de pão. E é o maior “obrigado” que a terra já foi capaz de dizer.