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Crédito: Reprodução da Internet
A festa da Exaltação da Santa Cruz, celebrada a 14 de setembro, é uma das solenidades mais expressivas da liturgia católica, pois nos coloca diante do coração do mistério cristão: a Cruz, que foi instrumento de suplício, tornou-se sinal de vitória, reconciliação e amor absoluto de Deus pelo homem. Essa celebração, longe de ser mero culto a um objeto material, é confissão da fé na obra redentora de Cristo e convite a viver a lógica do Evangelho, onde a glória passa pelo sacrifício e a vida brota da entrega.
A origem litúrgica desta festa remonta ao século IV, quando a basílica do Santo Sepulcro, erguida por Constantino no local da crucifixão e ressurreição de Cristo, foi dedicada em 13 de setembro de 335. No dia seguinte, o povo foi convidado a venerar publicamente a relíquia da Santa Cruz, descoberta segundo a tradição por Santa Helena. A partir desse gesto, consolidou-se a memória anual da “Exaltação” do madeiro, não como triunfo material, mas como proclamação visível da vitória de Cristo sobre a morte. Mais tarde, no século VII, a festa ganhou ainda maior relevância quando o imperador bizantino Heráclio recuperou a Cruz que havia sido saqueada pelos persas. O gesto de trazê-la solenemente de volta a Jerusalém reforçou a dimensão universal da devoção.
Na teologia católica, a Cruz não é apenas lembrança de um evento passado, mas o eixo da economia da salvação. O Catecismo da Igreja Católica afirma: “A morte redentora de Cristo cumpre, de uma vez por todas, o sacrifício da salvação dos homens” (CIC 613). Esse sacrifício, realizado no altar da Cruz, é inseparável da ressurreição: é o núcleo do mistério pascal. Por isso, a Igreja não exalta a Cruz em si mesma, mas Cristo crucificado, que nela revelou o amor sem medida. São João Crisóstomo já afirmava: “A Cruz é a esperança dos cristãos, a ressurreição dos mortos, a chave do céu, a derrota do demônio” — definindo, em síntese, a teologia que perpassa a liturgia desta festa.
A celebração de 14 de setembro possui leituras profundamente significativas. A primeira (Nm 21,4-9) recorda a serpente de bronze elevada por Moisés no deserto: quem a contemplava era curado das mordidas venenosas. O Evangelho (Jo 3,13-17) interpreta essa figura à luz de Cristo: “Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crer tenha a vida eterna”. O Prefácio próprio da missa declara que, na Cruz, brilhou a salvação do mundo, e que o mesmo lenho que trouxe a morte tornou-se fonte de vida. Dessa forma, a liturgia não apenas recorda um fato histórico, mas educa a assembleia a contemplar a Cruz como revelação do amor e escola de vida cristã.
Desde cedo, a Igreja estabeleceu a diferença entre a adoração devida só a Deus (latria) e a veneração (dulia) prestada a imagens e sinais sagrados. O Concílio de Niceia II (787) confirmou que a veneração à cruz não é idolatria, mas passa ao protótipo: Cristo crucificado. Assim, beijar a cruz, ajoelhar-se diante dela ou incensá-la em liturgia são atos de veneração que expressam fé em Cristo, não em um objeto material. Essa clareza é fundamental para que a devoção seja autêntica e permaneça centrada na Redenção.
A Exaltação da Santa Cruz não é um convite ao sofrimento pelo sofrimento, mas à participação consciente no amor redentor de Cristo. João Paulo II, na carta apostólica Salvifici Doloris, explicou que todo sofrimento humano, unido à Cruz, adquire valor redentor e pode tornar-se fonte de santidade. Nesse sentido, a cruz cotidiana de cada cristão — nas lutas, doenças, perseguições ou pequenas renúncias — é lugar de encontro com Cristo e de amadurecimento na fé. O Papa Francisco, em diversas homilias, tem insistido que “a cruz não é ornamento, mas caminho”, lembrando que o cristão não pode reduzi-la a um símbolo estético, mas deve assumi-la como estilo de vida.
Ao longo da história, fragmentos atribuídos à Cruz foram distribuídos em diferentes igrejas. Ainda que haja exageros e falsificações denunciadas inclusive por santos, a Igreja sempre orientou que as relíquias autênticas fossem tratadas com veneração e usadas para alimentar a fé. As procissões, vias-sacras e festas ligadas à Santa Cruz — especialmente em comunidades populares — revelam a força catequética deste sinal. Porém, é responsabilidade do clero e dos formadores catequéticos assegurar que tais práticas mantenham sempre a centralidade em Cristo e não se transformem em superstição.
A mensagem final da Exaltação da Santa Cruz é profundamente atual. Em um mundo que busca sucesso rápido e rejeita o sacrifício, a Cruz recorda que não há ressurreição sem entrega. A lógica da Cruz contrasta com a lógica do mundo: onde o mundo vê fracasso, a fé vê vitória; onde se prega autoafirmação, Cristo ensina a doação; onde se foge do sofrimento, a Igreja proclama que é justamente na cruz, assumida em Cristo, que o homem encontra plenitude. Celebrar a Exaltação é, portanto, professar que a nossa esperança está não na fuga, mas na fidelidade, não na força humana, mas no amor divino que se manifesta no madeiro.
A festa da Exaltação da Santa Cruz é um convite à coerência cristã. Não basta adornar-se com o sinal da cruz; é preciso vivê-lo. Não basta repetir fórmulas litúrgicas; é preciso traduzir a fé em gestos concretos de caridade e de entrega. A cruz elevada em Jerusalém continua sendo, para cada geração, um grito silencioso que afirma: “O amor foi mais forte do que a morte”.