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Crédito: CBM
O silêncio da madrugada foi rompido por um estrondo seco, seguido por um clarão que iluminou o céu e fez tremer paredes a quilômetros de distância. Eram pouco antes das seis da manhã desta terça-feira, 12 de agosto, quando a unidade da Enaex Brasil, antiga Britanite, em Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba, se transformou no epicentro de uma tragédia industrial. A explosão destruiu por completo um prédio de cerca de 25 metros quadrados, deixou pelo menos nove pessoas desaparecidas — seis homens e três mulheres —, provocou ferimentos em trabalhadores e moradores da região e espalhou danos por diversas cidades vizinhas. Há mortes confirmadas, mas, até o fechamento desta edição, o número oficial não havia sido divulgado.
Segundo o Corpo de Bombeiros, o foco da detonação foi uma edificação destinada à preparação de acessórios de iniciação — dispositivos capazes de detonar cargas maiores. O impacto foi tão forte que moradores de Curitiba, Piraquara, Colombo, Pinhais, Bocaiúva do Sul, Campina Grande do Sul e São José dos Pinhais relataram tremores e estouro de vidraças. Em algumas casas, paredes racharam; em comércios, vitrines inteiras vieram ao chão. “Foi como se um avião tivesse caído no bairro”, contou o morador Luiz Fernando, de 54 anos, que vive a menos de dois quilômetros da fábrica.
Entre os feridos, pelo menos dois precisaram de atendimento hospitalar, enquanto outros foram socorridos no local. A Enaex Brasil informou que “a prioridade absoluta é garantir apoio às famílias e colaborar com as autoridades na apuração das causas”.
A resposta das equipes de emergência foi imediata. O Corpo de Bombeiros mobilizou o Grupo de Operações de Socorro Tático (GOST) e recebeu apoio do Esquadrão Antibombas do Batalhão de Operações Especiais (Bope), da Defesa Civil e de cães farejadores treinados para localizar vítimas entre escombros e materiais perigosos. Drones sobrevoaram a área para mapear pontos de calor e estruturar a ação de resgate. Uma edificação vizinha, que armazenava insumos sensíveis, foi isolada e resfriada para evitar novas detonações. “Nosso foco é garantir segurança às equipes e localizar rapidamente os desaparecidos”, declarou o tenente Eduardo Vieira, porta-voz do Corpo de Bombeiros.
A onda de choque gerada pela detonação rompeu a rotina da cidade e deixou marcas concretas: vidros partidos, telhados arrancados e estruturas abaladas. Comerciantes contabilizavam prejuízos, enquanto famílias improvisavam lonas para cobrir as casas. Especialistas em segurança industrial explicam que explosivos civis, usados em mineração e demolições, podem ter poder destrutivo comparável a artefatos militares, dependendo do tipo e da quantidade armazenada.
Esta não é a primeira vez que a planta de Quatro Barras registra uma tragédia. Em 2004, uma explosão na mesma unidade matou quatro funcionários, reacendendo na época o debate sobre segurança no setor. Fundada como Britanite e posteriormente incorporada pela chilena Enaex, a fábrica tem papel relevante no mercado brasileiro de explosivos para mineração e infraestrutura. Em nota, a empresa afirmou adotar “padrões de segurança reconhecidos internacionalmente e práticas de prevenção que excedem as exigências legais”. Entretanto, como mostra o histórico, em instalações onde se lida diariamente com substâncias altamente sensíveis, a margem para erro é inexistente.
O Ministério Público do Trabalho e o MPT-PR instauraram inquérito civil para investigar o acidente. A Polícia Científica do Paraná fará a perícia técnica no local. Ao contrário de um inquérito policial, que apura crimes, o inquérito civil concentra-se em responsabilidades trabalhistas e civis, podendo resultar em indenizações e mudanças obrigatórias nos procedimentos. Laudos preliminares devem ser divulgados em até 30 dias. Caso a perícia aponte negligência, a empresa poderá ser responsabilizada também na esfera criminal.
O impacto humano é devastador: famílias à espera de notícias, trabalhadores inseguros sobre o futuro e uma comunidade inteira marcada pelo trauma. A produção foi suspensa e não há previsão para retomada. Especialistas alertam que acidentes dessa magnitude são quase sempre resultado de múltiplas falhas — técnicas, de gestão e de fiscalização. O episódio evoca tragédias como a explosão de Beirute, em 2020, causada pelo armazenamento inseguro de nitrato de amônio, que deixou mais de 200 mortos. Embora cada caso tenha suas particularidades, a lição é a mesma: segurança não é custo, é salvaguarda.
O Brasil abriga diversas unidades de produção de explosivos e insumos correlatos. Apesar das normas rígidas, a fiscalização nem sempre acompanha a complexidade das operações. Em 1965, a explosão na Nitro Química, em São Paulo, matou dezenas de pessoas e provocou mudanças nas regras de armazenamento e transporte de substâncias perigosas. A tragédia de Quatro Barras reacende o alerta: protocolos e leis precisam ser acompanhados de execução rigorosa e cultura preventiva.
Tragédias industriais raramente são obra do acaso. Elas resultam de uma sucessão de falhas que se acumulam até o ponto de ruptura. Quando esses sinais são ignorados, a “fatalidade” deixa de ser imprevisível e passa a ser consequência. A explosão em Quatro Barras é um alerta para todo o país: onde há material explosivo, não pode haver descuido. Porque, como ensina a história, quando a pólvora encontra negligência, o resultado é sempre o mesmo — e, no Paraná, mais uma vez, ele foi cobrado em vidas humanas.