USD | R$5,1949 |
|---|
Crédito: André Monteiro
A cena era, no mínimo, inesperada: em pleno palco principal da Festa do Peão de Barretos, tradicional reduto de música sertaneja e espetáculos seculares, a arena lotada se enchia de vozes entoando cânticos religiosos conduzidos por Frei Gilson, sacerdote carmelita descalço e expoente da música católica contemporânea. Estima-se que cerca de 60 mil pessoas tenham assistido à sua apresentação na manhã de 25 de agosto de 2025, e outras milhares acompanharam pelos telões e transmissões digitais. Aquele que está acostumado a evangelizar pelas redes sociais e em encontros católicos viu-se, de repente, diante de um público que mesclava fiéis, curiosos e frequentadores habituais da festa.
O contraste — um religioso em hábito diante da arena do maior rodeio da América Latina — não foi motivo de ruptura, mas de um encontro surpreendente. O que poderia soar como choque cultural tornou-se ocasião de evangelização. E aqui está a chave para compreender o impacto do evento: a Igreja, fiel ao seu mandato missionário, sabe que a fé não se restringe às paredes do templo, mas deve alcançar os espaços mais amplos da vida humana.
Desde os Atos dos Apóstolos, vemos os primeiros cristãos pregando em praças, sinagogas e casas particulares. São Paulo discursou no Areópago de Atenas (At 17,22-34), usando justamente a linguagem e o espaço do povo grego. Naquela manhã de agosto, Frei Gilson repetia, em certa medida, esse movimento apostólico: levar Cristo ao coração da cultura popular.
A apresentação começou com “Colo de Mãe”, canção mariana que ressoou como invocação à Virgem Santíssima. Em seguida, outros cânticos conduziram a assembleia a um clima de oração. Mas o momento mais marcante talvez tenha sido quando o sacerdote afirmou com clareza: “Quem fez a família não foi o Estado, mas Deus.” Essa declaração, simples e firme, ecoa a doutrina constante da Igreja, expressa em documentos como a Familiaris Consortio (São João Paulo II, 1981), que recorda: “Deus mesmo é o autor do matrimônio, dotado de várias bênçãos e fins” (FC 11).
Frei Gilson também convidou o público a gestos de unidade: pediu que as pessoas se abraçassem, rezassem juntas e recordassem que a vida familiar e comunitária nasce da graça de Deus. Naquele espaço geralmente ocupado por montarias e shows de grandes artistas sertanejos, a arena se converteu em um santuário a céu aberto, ainda que por alguns instantes.
O Papa São João Paulo II, na encíclica Redemptoris Missio (1990), advertiu sobre a necessidade de a Igreja alcançar os “novos areópagos”, ou seja, os ambientes culturais, sociais e midiáticos onde a humanidade se reúne. Ele dizia: “O primeiro areópago do tempo moderno é o mundo da comunicação” (RM 37). No caso de Barretos, temos uma forma híbrida: um evento popular de massa, presencial, mas amplamente repercutido nas redes sociais. Frei Gilson, que já é uma das maiores figuras católicas no ambiente digital, levou sua voz a esse areópago singular.
Há quem questione se um palco de rodeio é o lugar adequado para a música sacra. A tradição da Igreja, porém, sempre buscou santificar a cultura sem rejeitá-la. Santo Tomás de Aquino ensina que a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa (Suma Teológica, I, q. 1, a. 8 ad 2). Isso significa que o Evangelho não é inimigo das expressões culturais legítimas; ao contrário, pode fecundá-las.
O desafio pastoral é não diluir a mensagem nem adaptá-la a ponto de perder seu conteúdo. Nesse sentido, Frei Gilson manteve firme a centralidade em Cristo, em Nossa Senhora e na família cristã, sem ceder ao mero entretenimento.
A lotação da arena surpreendeu até mesmo os organizadores, que tiveram de abrir espaços extras para acolher o público. O ingresso foi simbólico: a doação de um quilo de alimento, o que reforçou a dimensão caritativa da iniciativa. O povo acorreu não apenas por curiosidade, mas porque reconhece em Frei Gilson uma voz de esperança em meio ao barulho de um mundo saturado de mensagens vazias.
Esse fenômeno deve ser lido à luz da piedade popular, tão valorizada pela Igreja. O Papa Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi (1975), afirmou: “A religiosidade popular tem certamente os seus limites. Mas, se bem orientada, sobretudo por uma pedagogia de evangelização, pode ser cada vez mais um verdadeiro encontro com Deus em Jesus Cristo” (EN 48).
Em Barretos, muitos que talvez não frequentem a paróquia regularmente se viram tocados por cânticos e palavras que falavam diretamente ao coração. É esse o poder da piedade popular: abrir brechas para a graça em ambientes improváveis.
É claro que uma apresentação desse porte suscita debates. Alguns poderiam temer a “mundanização” da fé; outros, ao contrário, defendem a ida da Igreja a todos os espaços. O Magistério nos ajuda a equilibrar: a Igreja não deve se enclausurar, mas também não pode banalizar o sagrado. A chave está no discernimento e na fidelidade.
Bento XVI, na Sacramentum Caritatis (2007), alertava que a liturgia e os cânticos da Igreja não podem se reduzir a espetáculo: “Não devemos ceder à tentação de tornar a liturgia uma forma de entretenimento” (SC 38). No caso de Frei Gilson, é importante sublinhar: não se tratou de uma Santa Missa transformada em show, mas de uma apresentação musical evangelizadora, algo diferente, que conserva legitimidade dentro da tradição missionária.
A Festa do Peão é símbolo da cultura caipira e sertaneja brasileira, mas também da busca do homem do campo por momentos de festa e convivência. Ao estar ali, Frei Gilson recordou que a Igreja sempre se fez próxima do povo simples. Desde as primeiras missões no Brasil colonial até as romarias populares, a evangelização não desprezou as expressões culturais do interior.
Assim como São José de Anchieta se fez poeta e dramaturgo para catequizar os índios, o frade carmelita usa a música para falar de Deus ao coração do povo contemporâneo. O conteúdo não muda: Cristo crucificado e ressuscitado, centro da fé. Mas a forma dialoga com o ambiente cultural.
O Concílio Vaticano II, na constituição Gaudium et Spes, ensina que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1).
Estar em Barretos foi, portanto, assumir a vida real do povo, suas festas, suas tradições e suas buscas. Cristo não se ausenta dessas realidades; ao contrário, deseja estar presente nelas. A Igreja, fiel à sua missão, não teme anunciar a Boa Nova onde quer que haja corações abertos — ainda que seja em uma arena de rodeio.
A presença de Frei Gilson na Festa do Peão de Barretos não foi mero entretenimento, tampouco concessão ao mundo. Foi um sinal dos tempos: a fé católica continua viva, criativa e missionária, capaz de transformar espaços seculares em ocasiões de encontro com Deus.
No coração de Barretos, entre arquibancadas lotadas e um palco de rodeio, ecoou a mesma mensagem que os Apóstolos levaram ao mundo: Jesus Cristo é o Senhor, e a família é obra de Deus. Essa é a verdadeira vitória que se celebra quando a Igreja sai de si mesma e encontra as multidões.