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Crédito: Instagram (Via: @isportinvaticano)
Quando pensamos no Vaticano, a imagem imediata costuma ser a da grandiosa Basílica de São Pedro, da Guarda Suíça colorida ou dos corredores de mármore dos Museus Vaticanos. Poucos lembram que, por trás desses muros, existe também um pequeno — e peculiar — universo futebolístico.
O Vaticano, com pouco mais de 44 hectares, não possui estádios próprios nem clubes profissionais, mas tem sim uma seleção nacional de futebol, embora não filiada à FIFA, e mantém torneios amadores internos há décadas. O futebol ali nasceu, como em tantos lugares, por paixão e pelo convívio social entre funcionários e residentes do Estado Pontifício.
O interesse pelo futebol dentro do Vaticano remonta ao período pós-Segunda Guerra Mundial. O primeiro torneio amador conhecido, com times formados por trabalhadores vaticanos, surgiu ainda nos anos 1950. O jornalista italiano Gianfranco Berardi, autor de artigos sobre o tema, aponta que as partidas iniciais ocorriam em campos improvisados nos arredores de Roma, porque o Vaticano não tem espaço físico para manter gramados oficiais.
Com o tempo, criaram-se equipes representando setores específicos, como a Gendarmeria Vaticana (a polícia do Estado), os Museus Vaticanos, o Governatorato (administração central), a Tipografia Vaticana, entre outros. Esses times disputam até hoje o Campeonato Vaticano, uma liga amadora interna (Campionato della Città del Vaticano), organizada anualmente pela Associação Esportiva Vaticana.
Em entrevista ao L’Osservatore Romano, Andrea Tornielli, diretor editorial do Dicastério para a Comunicação, explicou certa vez que o futebol, ali, funciona como ferramenta de integração entre funcionários de diversas nacionalidades. O Vaticano emprega pessoas do mundo inteiro, criando um ambiente multicultural — e a bola ajuda a unir gente de culturas e línguas muito distintas.
Além dos torneios internos, o Vaticano mantém uma Seleção Nacional, formada quase exclusivamente por funcionários vaticanos. Essa seleção joga amistosos ocasionais contra times regionais italianos, clubes amadores e, por vezes, outras seleções de microestados europeus, como San Marino ou Mônaco.
Importante ressaltar: a Seleção Vaticana não é filiada à FIFA, nem à UEFA, e portanto não participa de eliminatórias para Copa do Mundo ou Eurocopa. Isso não é uma casualidade, mas uma decisão consciente do próprio Vaticano. Em diversas entrevistas, inclusive do ex-técnico Gianfranco Guadagnoli ao jornal La Repubblica, autoridades ligadas à equipe reiteraram que a Santa Sé não deseja envolver-se nas complexidades políticas, comerciais e econômicas do futebol profissional.
Seria também praticamente impossível, logisticamente, para o Vaticano ter um time competitivo em nível profissional. Não há liga profissional interna, não há espaço físico para treinamento de alto rendimento, e a população masculina adulta residente no Estado é mínima — a maioria são clérigos ou guardas suíços com funções específicas.
O elenco da Seleção Vaticana costuma incluir membros da Gendarmeria Vaticana, funcionários administrativos, trabalhadores dos Museus Vaticanos e, às vezes, membros da Guarda Suíça Pontifícia (desde que não estejam em funções de serviço ativo durante os jogos). O time nunca é o mesmo de uma temporada para outra, porque os jogadores mudam conforme transferências ou contratos de trabalho.
Não há dados oficiais sobre estatísticas de gols ou número de partidas anuais. Tudo é bastante discreto. No entanto, há registros de amistosos contra seleções amadoras italianas, combinados de atletas do Vaticano, equipes de seminaristas e times regionais.
Há também regras específicas para a Seleção Vaticana: não podem integrar o time jogadores profissionais em atividade, nem ex-profissionais que ainda estejam em idade de carreira, justamente para manter o caráter amador e representativo. Essa restrição foi confirmada por diversos dirigentes em entrevistas à imprensa italiana.
Outro fenômeno interessante do futebol “vaticano”, embora tecnicamente não pertença ao Vaticano Estado, é a Clericus Cup. É um torneio de futebol de campo criado em 2007 pelo Centro Esportivo Italiano (CSI) sob o patrocínio do Conselho Pontifício para os Leigos (hoje parte do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida).
A Clericus Cup reúne seminaristas e sacerdotes de dezenas de colégios e universidades pontifícias de Roma. Embora não seja organizada diretamente pela Santa Sé, conta com forte apoio institucional. Os jogos acontecem nos campos do Centro Esportivo Pio XI, fora do território vaticano, mas são considerados expressão do “futebol católico”, pela ligação com as instituições da Igreja.
Momentos como orações antes ou após as partidas são comuns na Clericus Cup, pois se trata de ambiente religioso. O torneio se notabilizou pelo uso do cartão azul, que pune jogadores por comportamentos antidesportivos com 5 minutos fora do campo — uma tentativa de lembrar aos padres e seminaristas a importância do “fair play”.
O lema do campeonato sempre foi: “Onde termina o futebol, começa a vida.”
A Igreja Católica jamais proibiu o futebol, muito pelo contrário. Documentos pontifícios, discursos de Papas e escritos do Magistério frequentemente elogiam o esporte como meio legítimo de educação, fraternidade e virtude.
Nada, portanto, na doutrina católica, impede a prática do futebol, desde que ordenada à virtude e sem transformar o jogo em ídolo ou pretexto para condutas imorais. Isso explica por que o Vaticano permite — e até incentiva — seus torneios internos ou a participação na Clericus Cup.
Periodicamente, surge na imprensa a pergunta: por que o Vaticano não se filia à FIFA ou à UEFA? A resposta oficial sempre é a mesma: não há interesse institucional.
Diversos motivos aparecem nas entrevistas de dirigentes vaticanos:
Mesmo assim, figuras como Pier Giorgio Gianazza (antigo responsável pelo esporte no Vaticano) já declararam ao jornal Avvenire que não se trata de proibição doutrinária, mas de uma decisão prudencial. Se um dia houvesse condições, poderia até acontecer. Mas, no presente, não é prioridade.
O futebol vaticano é modesto, mas carrega um simbolismo profundo: nele se expressa o cotidiano de um Estado cuja razão de existir é essencialmente religiosa, mas que também é feito de seres humanos com paixões, hobbies e amizades.
Não há estádio monumental, nem contratos milionários, nem títulos internacionais. Mas existe um futebol que acontece longe das luzes da mídia, vivido por quem cuida das salas de museus, vigia os portões da Praça São Pedro ou trabalha na burocracia eclesiástica.
No Vaticano, a bola rola — discretamente, mas rola. E, como bem recordou São João Paulo II, o futebol, vivido com retidão, pode ser também caminho de fraternidade e de alegria, mesmo à sombra da cúpula de Michelangelo.