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Crédito: Reprodução da Internet
No imaginário católico, a palavra “ícone” evoca de imediato rostos solenes, fundo dourado, traços rígidos e uma aura de sacralidade. Embora sejam mais imediatamente associados às tradições orientais — sobretudo ao cristianismo bizantino — os ícones também têm um lugar legítimo e profundo dentro da tradição católica latina, sobretudo à luz da teologia das imagens definida nos Concílios e confirmada pelo Magistério.
Mas afinal: o que são os ícones? Por que se diz que eles são “escritos” e não “pintados”? Qual a sua função litúrgica e espiritual?
Este artigo mergulha fundo nessas questões, guiado pela história, pelos documentos da Igreja e pela fé católica, sem invenções nem romantizações indevidas.
A primeira grande dificuldade teológica para o uso de imagens vem do próprio Decálogo, onde Deus ordena:
“Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra…” (Êxodo 20,4)
Porém, convém lembrar que o Antigo Testamento não proíbe imagens em si, mas a idolatria. Prova disso é que Deus mandou confeccionar querubins para a Arca da Aliança (Êxodo 25,18-20) e ornamentos para o Templo (1 Reis 6,23-35).
A chave hermenêutica para a legitimação das imagens no cristianismo está na Encarnação. Diz São João:
“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós.” (Jo 1,14)
Como sublinha São João Damasceno, grande defensor dos ícones no século VIII:
“Antigamente, Deus, sendo incorpóreo e sem forma, jamais podia ser representado por imagem. Mas agora, tendo Deus aparecido na carne, e convivido entre os homens, eu posso representar o Deus que se fez visível.” (São João Damasceno, Contra os que rejeitam as imagens sagradas, I,16)
Essa é a base teológica dos ícones: o Deus invisível fez-se visível em Cristo, tornando legítimo representá-Lo.
Nos primeiros séculos, os cristãos eram cautelosos. Nas catacumbas, vemos símbolos (peixe, bom pastor, pomba) em vez de retratos realistas. A arte figurativa existia, mas de modo discreto, por causa das perseguições e do temor da idolatria.
Com o Edito de Milão (313) e a paz de Constantino, surgem imagens de Cristo, da Virgem, dos Apóstolos e dos mártires. A arte passa a ocupar igrejas e basílicas. A iconografia vai ganhando códigos próprios, como:
Surge então o maior drama da história dos ícones: a crise iconoclasta.
“A veneração prestada à imagem passa para o protótipo; e quem venera a imagem, venera a pessoa nela representada.” (Denzinger-Hünermann, 600)
No Ocidente, a arte cristã desenvolveu-se com estilos próprios: mosaicos, afrescos, iluminuras. No entanto, a tradição icônica permaneceu viva em Roma e nos mosteiros beneditinos. Santo Tomás de Aquino reconhece a legitimidade das imagens:
“As imagens são postas nas igrejas para instrução do povo, para que as coisas da Encarnação e outros artigos da fé fiquem gravadas na memória, e também para despertar devoção.” (Suma Teológica, III, q.25, a.3)
Diz-se que ícones são “escritos” e não simplesmente “pintados” por dois motivos principais:
São João Paulo II, na Carta aos Artistas (1999), lembra:
“O artista cristão é chamado a dar forma visível ao invisível, a fazer resplandecer o mundo espiritual, não como simples ornamento, mas como caminho para o mistério.”
O Segundo Concílio de Niceia define a doutrina fundamental:
Em outras palavras:
Embora mais difundidos no Oriente, os ícones também possuem lugar legítimo na Igreja Latina. O Catecismo da Igreja Católica afirma:
“O culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro mandamento que proíbe os ídolos. […] A veneração não se detém na imagem, mas dirige-se à pessoa que nela é representada.” (CIC §2132)
Na prática católica:
Para deixar claro que isso não é opinião pessoal, eis textos oficiais que fundamentam a legitimidade e o uso dos ícones:
“As imagens de Cristo, da Mãe de Deus e dos Santos devem ser mantidas nas igrejas, e se lhes deve prestar a devida honra e veneração, não porque se creia haver nelas divindade ou virtude, mas porque a honra que se lhes presta se refere aos protótipos.” (Denzinger-Hünermann, 1821)
São João Paulo II falava da necessidade de a Igreja “respirar com os dois pulmões”: o Ocidente e o Oriente. O ícone é uma expressão viva desse “pulmão oriental” que tanto pode enriquecer o catolicismo latino.
Bento XVI também incentivou o uso de ícones, sobretudo em espaços litúrgicos. Muitos mosteiros beneditinos e carmelitas no Ocidente hoje escrevem ícones segundo as regras bizantinas, mostrando que eles não são exclusivos da ortodoxia.
Ele traduz em cores aquilo que a doutrina exprime em palavras. Ao contrário do que pensam alguns, não é superstição nem idolatria, mas fruto legítimo da fé cristã que confessa a Encarnação.
Na tradição católica, o ícone:
Como ensinava São João Damasceno, “o ícone é janela para o céu.” E quem o contempla com fé, contempla Cristo e os santos, já glorificados, intercedendo por nós junto ao trono de Deus.