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Crédito: Reprodução da Internet
O jejum das quatro têmporas é uma prática antiga, revestida de profunda significação espiritual, que tem suas raízes fincadas na tradição da Igreja Católica Apostólica Romana e permanece viva como instrumento de penitência, conversão e fortalecimento da alma em comunhão com o mistério da salvação. Muito mais do que simples abstinência alimentar, trata-se de um chamado à purificação interior e à solidariedade com os sofrimentos de Cristo, realizado em momentos liturgicamente definidos que pontuam o ano e oferecem aos fiéis a oportunidade de renovar seu compromisso com Deus.
A expressão “têmpora” vem do latim tempora, significando “tempos”, e designa os períodos litúrgicos que compreendem três dias dedicados ao jejum, à oração e à esmola, tradicionalmente na quarta-feira, sexta-feira e sábado das semanas que antecedem a primavera, o verão, o outono e o inverno. Estes quatro períodos, chamados também de “quatro têmporas”, foram instituídos para que os cristãos se unissem num esforço coletivo de penitência em consonância com as estações da natureza, espelhando, assim, uma harmonia entre o tempo natural e o tempo sagrado.
A importância dessa prática está enraizada no ensinamento bíblico e no magistério da Igreja. O jejum é mencionado com frequência nas Escrituras como meio de humilhação e busca da graça divina. No Antigo Testamento, o profeta Joel convoca o povo a “rasgar o coração e não as vestes” (Jl 2,13), indicando que o jejum não é mero ato exterior, mas verdadeiro movimento do espírito rumo à conversão. Na tradição católica, o jejum das quatro têmporas encontra eco nas palavras do Papa São Gregório Magno, que reafirmava a necessidade do jejum como preparação para receber os dons espirituais: “Nos quatro tempos, o jejum deve ser observado para que a alma se purifique, os vícios se apequenem e a virtude floresça” (Homilia sobre os tempos litúrgicos).
O Concílio de Trento (1545-1563), pilar do magistério católico pós-reforma, sublinha a importância da penitência como meio de santificação e reparação dos pecados: “A penitência, através do arrependimento e do jejum, prepara o cristão para alcançar a graça santificante” (Sessão XIV). Embora não trate especificamente das quatro têmporas, este princípio reforça a legitimidade e valor da prática dentro da disciplina e espiritualidade católicas.
Santo Inácio de Antioquia e São João Crisóstomo elogiaram o jejum como meio de “domínio da carne e crescimento da alma”, conceito que ressoa nos quatro períodos têmporais. São Tomás de Aquino, na Suma Teológica, assevera que o jejum “ajuda a dominar as paixões e torna a alma mais apta a receber a luz da graça” (II-II, q. 148, a. 1), fundamentando ainda mais o sentido espiritual desta tradição.
Historicamente, as quatro têmporas foram introduzidas no século IV, na Igreja de Roma, possivelmente por influência de São Hipólito, e se consolidaram no século VI, sob o papado de Gregório Magno, como momento fixo de jejum e oração para sustentar o clero e o povo na busca da santidade. Tais períodos foram também vistos como tempos propícios para a ordenação de ministros e para pedir a abundância das colheitas, interligando a vida espiritual com as necessidades práticas da comunidade.
Com o passar dos séculos, a observância das quatro têmporas manteve-se como sinal de fidelidade à disciplina eclesiástica, ainda que com variações locais e épocas de menor rigor. No século XX, o Código de Direito Canônico de 1917 mantinha o jejum nas quatro têmporas como norma para clérigos e fiéis, reforçando seu papel na santificação pessoal e comunitária. Hoje, embora a prática não seja mais obrigatória para todos, ela permanece como preciosa oportunidade para o crescimento espiritual e a retomada das raízes penitenciais da Igreja.
Em tempos modernos, onde o ritmo frenético da vida e o relativismo moral tendem a enfraquecer o compromisso cristão, o jejum das quatro têmporas aparece como um antídoto essencial. Ele resgata o sentido da penitência como caminho necessário para a renovação interior e a resistência às tentações do mundo. O Papa São João Paulo II, em sua Carta Apostólica Mulieris Dignitatem, lembra que “a verdadeira liberdade do homem consiste em reconhecer e assumir a vontade de Deus” (n. 16), e o jejum é instrumento privilegiado para essa adesão.
Além disso, a prática das quatro têmporas é convite à solidariedade, pois o jejum liberta do apego às coisas materiais e impulsiona à caridade. Em uma época marcada por desigualdades sociais profundas, a esmola – elemento inseparável do jejum – ajuda a materializar a fé em obras concretas de amor ao próximo, conforme reforçado no Catecismo da Igreja Católica (§1434): “A esmola é um ato de justiça pela qual damos aos necessitados o que lhes pertence”.
A prática disciplinar do jejum, particularmente nas quatro têmporas, favorece o domínio das paixões, a purificação da mente e a abertura à graça divina. Espiritualmente, promove uma renovação constante da vida interior, preparando o cristão para os grandes mistérios celebrados pela Igreja, como a Páscoa e o Natal, e sustentando-o em sua caminhada rumo à santidade.
Na esfera prática, o jejum dos quatro têmporas ajuda o fiel a reencontrar ritmo e equilíbrio, desacelerando o ritmo da vida e abrindo espaço para a oração profunda e a meditação. O exemplo dos santos, como São Carlos Borromeu, que observava rigorosamente o jejum têmporal para sustentar sua missão pastoral, mostra que essa prática está longe de ser mero ritual: é força vital para o serviço à Igreja e à humanidade.
O jejum das quatro têmporas, muito mais do que uma tradição litúrgica antiga, é convite vivo à conversão e ao encontro renovado com Deus. Enraizado na sagrada Escritura, sustentado pelo magistério e iluminado pelo exemplo dos santos, ele revela-se instrumento poderoso para a purificação da alma, o domínio da carne e a solidariedade cristã. Em tempos onde a superficialidade espiritual e a indiferença ameaçam a fé, retornar a essa prática é não apenas um ato de fidelidade à Tradição, mas uma resposta visionária para fortalecer a Igreja e preparar o mundo para os desafios do presente e do futuro. Que os fiéis possam, com coragem e amor, abraçar o jejum das quatro têmporas como caminho seguro para a santidade e a verdadeira liberdade em Cristo.