USD | R$5,1949 |
|---|
Crédito: Reprodução da Internet
Desde os primeiros séculos, a vida cristã foi compreendida como um combate espiritual. Os Padres do Deserto falavam da necessidade de “ascese”, isto é, de um treinamento da alma para resistir às insídias do inimigo invisível. São Paulo, em sua carta aos Efésios, exorta os fiéis a revestirem-se da “armadura de Deus” para que possam resistir às ciladas do demônio (Ef 6,11-18). Entre as armas que a Tradição da Igreja sempre apresentou como indispensáveis, três se destacam: o jejum, a esmola e a oração. Estes não são apenas conselhos piedosos ou práticas de ocasião, mas verdadeiros escudos espirituais contra o pecado.
Jejuar, para a Igreja, nunca significou apenas abster-se de alimento. O jejum é, antes de tudo, uma atitude interior de humildade diante de Deus. No Antigo Testamento, Israel recorria ao jejum em momentos de arrependimento, em súplica de perdão e como preparação para receber as bênçãos do Senhor. Cristo, ao iniciar Sua vida pública, jejuou quarenta dias no deserto, mostrando que essa prática é inseparável da luta contra a tentação.
A Tradição vê no jejum uma escola de liberdade interior. Santo Agostinho recordava que a alma deve aprender a governar o corpo, e que o jejum é uma forma de submeter os instintos ao espírito. “Mortificai, portanto, o que em vós é terreno” (Cl 3,5), escreve São Paulo, e o jejum é uma expressão concreta desse mandamento. São Basílio Magno dizia que “o jejum é a arma do cristão, e quando ele se apresenta puro diante de Deus, consegue tudo o que deseja”.
O Magistério da Igreja conserva essa compreensão: o Catecismo (CIC 1434) ensina que “o jejum, a oração e a esmola exprimem a conversão em relação a si mesmo, a Deus e aos outros”. Assim, o jejum não é castigo para o corpo, mas libertação da alma. Ele torna o cristão mais atento às inspirações divinas, mais apto à oração e mais disposto a praticar a caridade.
A esmola que rompe as correntes do egoísmo
Enquanto o jejum combate os desregramentos do corpo, a esmola fere o orgulho e a avareza do coração. O próprio Cristo colocou-a no centro da vida espiritual: “Dai esmola do que possuís, e para vós tudo será puro” (Lc 11,41). A esmola não é mera filantropia; é caridade sobrenatural, que vê no próximo um irmão e em sua necessidade uma ocasião de amar a Deus.
São João Crisóstomo foi incisivo: “Se não repartires com o pobre, tu o roubas; os bens que possuis foram dados também a ele”. A esmola, portanto, não é opcional, mas parte da justiça. Ela é um antídoto contra a indiferença que tanto marca o mundo moderno e, ao mesmo tempo, um gesto que “cobre a multidão dos pecados” (1Pd 4,8).
O Catecismo ensina que a esmola é um dos “atos de satisfação” que acompanham o sacramento da Penitência (CIC 1460). Isso significa que ela tem valor expiatório, reparador, purificador. Ao partilhar o que possui, o cristão se desprende das correntes do pecado e se abre ao dom de Deus. São Gregório Magno, em seus comentários ao Evangelho, afirmava que “a esmola extingue a chama do pecado assim como a água apaga o fogo”.
Sem oração, o jejum e a esmola perdem sua força espiritual. A oração é o centro, o que dá sentido às outras práticas. Orar não é apenas recitar fórmulas, mas permanecer diante de Deus em atitude de adoração, súplica, agradecimento e confiança.
Cristo nos ensinou: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação” (Mt 26,41). A oração é escudo porque coloca o coração em sintonia com a vontade divina e enfraquece as insídias do inimigo. Santa Teresa d’Ávila descreveu a alma em oração como “um castelo forte, cercado de muralhas contra os demônios”.
O Magistério insiste que a oração é vital: “Não podemos orar sempre se não orarmos em determinados momentos” (CIC 2697). Daí a necessidade da oração pessoal, comunitária e litúrgica, especialmente a Eucaristia, que é “a fonte e o cume de toda a vida cristã” (Lumen Gentium, 11). Quem se alimenta da Eucaristia fortalece-se contra o pecado e encontra luz para discernir os caminhos de Deus.
São Leão Magno, em um célebre sermão quaresmal, dizia que “a oração busca, o jejum intercede, a esmola recebe”. Unidos, esses três atos formam uma única realidade de conversão. Sozinhos, têm eficácia limitada; juntos, constituem um triplo escudo quase inquebrável.
Essa união é tão forte que a Igreja sempre propôs esses três pilares como caminho privilegiado de preparação para a Páscoa. Mas eles não se limitam ao tempo quaresmal: devem ser o alimento constante da vida cristã. O jejum disciplina, a esmola liberta, a oração fortalece. Três práticas simples e antigas, mas que, no mundo atual, se tornam revolucionárias porque nos arrancam da lógica do prazer, da posse e da autossuficiência.
Vivemos em uma era em que o pecado é relativizado, a penitência esquecida e a oração substituída por técnicas de autoajuda. Mais do que nunca, os cristãos são chamados a redescobrir a sabedoria dos Padres da Igreja e da Tradição. O jejum, a esmola e a oração não são devoções opcionais, mas defesas reais contra a tentação e instrumentos de santificação.
Recuperar esses escudos significa entrar em um itinerário de combate espiritual que liberta e transforma. Com eles, o fiel aprende a dominar a carne, a abrir o coração ao próximo e a viver continuamente na presença de Deus.
E assim, sustentado por esses três escudos, o cristão pode, como São Paulo, combater o bom combate (2Tm 4,7) e perseverar na graça até o fim.