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Crédito: Vatican Media
O céu escaldante de Roma parecia não intimidar os milhares de jovens que, desde o início da semana, chegando para o jubileu, começaram a transformar a Cidade Eterna no epicentro de um entusiasmo cristão sem fronteiras. Vindos de quase 150 países, os peregrinos chegaram para o aguardado Giubileo dei Giovani, evento que integra o Ano Santo 2025 e já desponta como um dos momentos mais marcantes do pontificado de Leão XIV.
A programação teve início formal na segunda-feira, 28 de julho, com o acolhimento dos grupos nas paróquias, escolas e famílias locais, além de uma rede bem organizada de voluntários que distribuíam mapas, orientações e, sobretudo, sorrisos. A cidade — que há séculos acolhe peregrinações — respirava juventude, fé e expectativa.
A terça-feira, 29 de julho, foi o primeiro grande marco do Jubileu. A Missa de abertura, celebrada às 18h por Dom Rino Fisichella, reuniu cerca de 120 mil jovens na Praça São Pedro e na via della Conciliazione. A multidão, com bandeiras coloridas, cantos em múltiplos idiomas e uma alegria contagiante, parecia mais um Pentecostes contemporâneo do que uma cerimônia oficial.
Fisichella, que preside a seção para a evangelização no Dicastério para a Evangelização, fez uma homilia vibrante, exortando os jovens a viverem a fé com coragem, criatividade e fidelidade à Igreja. Mas foi ao final da celebração que a expectativa explodiu: “Não saiam ainda — o Papa tem uma surpresa para vocês”, anunciou o prelado.
Poucos minutos depois, sob um burburinho crescente, a papamóvel apareceu no horizonte da praça. Sentado, sereno e sorridente, estava o Papa Leão XIV. A reação foi imediata: gritos, lágrimas, aplausos e até um silêncio reverente em alguns trechos. Era como se o Santo Padre quisesse dizer, sem palavras: “Eu vim até vocês.”
Por cerca de 20 minutos, Leão XIV percorreu a praça e a via diante dela, saudando os jovens com bênçãos, gestos e uma visível emoção no rosto. Quando finalmente tomou o microfone, falou como um pai diante de seus filhos — e como um profeta diante de seu povo. Alternando italiano, espanhol e inglês, ele declarou:
“O mundo precisa de mensagens de esperança. Vocês são essa mensagem viva.”
“Queremos paz no mundo. Repetimos juntos: queremos paz no mundo!”
O grito foi repetido por milhares de vozes, com os braços erguidos. Ao final, com voz firme e um sorriso cúmplice, ele arrematou: “Nos vemos em Tor Vergata!”
O gesto de Leão XIV foi lido por muitos como profundamente simbólico: não programado formalmente, sua aparição rompeu o protocolo. Em tempos de papado excessivamente blindado e hipergerenciado, o Papa optou por um caminho direto. Ele não foi apenas ver os jovens — ele se fez próximo, quase tocável. A segurança, robusta como exige o momento, não impediu a transparência do afeto.
Essa escolha pastoral não é nova no cristianismo, mas é rara na sua autenticidade: um sucessor de Pedro se deslocando ao encontro daqueles que serão os apóstolos do século XXI, não como espectador, mas como pastor em meio às suas ovelhas. O gesto já está sendo comparado, entre vaticanistas, às surpresas de João Paulo II nas primeiras Jornadas Mundiais da Juventude.
Mas não foi apenas o Papa quem brilhou. A juventude que chegou a Roma trouxe na mochila mais do que água e protetor solar. Trouxe terços, diários espirituais, bandeiras e celulares. Influenciadores católicos — muitos com milhões de seguidores — transmitiram em tempo real a surpresa papal. Stories, lives e vídeos correram o mundo.
Contudo, o digital aqui não substituiu o essencial: a oração, o silêncio diante do Santíssimo, o canto gregoriano improvisado nas filas, os grupos de jovens rezando o terço sentados nos degraus da Praça de Espanha. Roma está vendo uma geração conectada, sim, mas profundamente sedenta de verdade, beleza e transcendência.
O Jubileu dos Jovens prossegue com uma programação que inclui momentos culturais, espirituais e penitenciais. Na sexta, o tradicional dia da confissão será realizado no Circo Massimo, com centenas de sacerdotes disponíveis. No sábado à noite, Tor Vergata — local da inesquecível Vigília da JMJ de 2000 com João Paulo II — voltará a ser palco de oração, silêncio e lágrimas. A Missa final, no domingo, marcará não o fim de um evento, mas o envio de uma geração.
Mais do que um encontro, o Jubileu está se revelando uma resposta. Em meio a guerras, polarizações e desesperanças, a Igreja aposta — mais uma vez — nos jovens. E o Papa mostra, com gestos mais do que palavras, que a barca de Pedro navega não à deriva, mas guiada pela esperança firme de quem sabe que o céu é o destino, e que a juventude fiel é o seu leme.